Minecraft chegou a um ponto em que quase se tornou um género. Título de índole independente no início, foi crescendo até se tornar um fenómeno, um fenómeno tal que a Microsoft abriu os cordões à bolsa para adquirir a sua produtora. Goste-se ou não da fórmula, é inegável que se tornou uma afirmação na indústria, conquistando milhões de jogadores e sendo adaptado a praticamente tudo o que corre videojogos. 

São vários os jogos que se inspiram nessas mecânicas, complementando-as com algo que tentam edificar sobre a fórmula base. Portal Knights, título produzido pela Keen Games para o PC, PlayStation 4 e Xbox One, é um dos exemplos mais recentes, sendo francamente visíveis alguns traços da obra da Mojang nas horas que lhe dediquei na PlayStation 4 Pro. Não quero dizer que seja uma cópia descarada, mas sim algo que parece ter sido pensado para a falange de jogadores enamorada pelo conceito.

Imagens Análise Portal Knights

O arco narrativo é pintado com umas escassas pinceladas. Os jogadores são apresentados a Fracture, um acontecimento catastrófico que desfez em inúmeras ilhas o reino. Sem grande surpresa, a espinha dorsal da obra passa pelo jogador explorar essas ilhas flutuantes, ir evoluindo e acabar por tornar-se o melhor Portal Knight. Não contém, porém, com grandes desenvolvimentos narrativos durante a vossa estadia, pois o ênfase da obra não é a história, mas sim o que fazem durante a vossa aventura saltando de mundo em mundo.

E essa aventura é um Role Playing Game com mundos gerados aleatoriamente. Depois de personalizarem a personagem - podem escolher o género e dar-lhe algumas feições a vosso gosto - e de escolherem a classe a que querem pertence: inicialmente há três classes, nomeadamente, Warrior, Ranger e Mage, ou seja, a produtora tenta cobrir os estilos de jogo mais populares, estão prontos para começarem a jogar, optando se querem um mundo mais pequeno ou maior.

Imagens Análise Portal Knights

Onde o título conquistará os seus fãs ou se revelará uma desilusão é na sua jogabilidade. Na sua essência, podem interagir com tudo o que vêem no mundo, amealhando matéria para transformarem noutros itens. Logo no início, recolhem madeira para criarem um Workbench e, posteriormente, podem melhorá-lo e usá-lo para outras criações. Tal como em Minecraft, o jogo incita o jogador a explorar o mundo, a recolher tudo aquilo que acha útil e a transformá-lo de forma a evoluir a personagem.

Armas, poções, fatos, fogueiras, armaduras, um forno, bússolas, baús, uma bigorna, pedras preciosas, blocos, enfim, jogar Portal Knights é estar sempre atento ao que nos rodeia, estudando o que é necessário para aquele item que nos faz falta. E também sem grande surpresa, há a componente LEGO envolvida, ou seja, aquela urgência em mudar o mundo que nos rodeia, construindo um casa que depois é melhorada, aumentada e dá lugar a um palácio.

Novos materiais dão novas armas, o que recicla o interesse do jogador na mecânica. Resulta, claro, mas não é a primeira vez que participamos num exercício do género. Portal Knights faz isto de forma eficaz, dando a quem joga uma sandbox e as ferramentas para a explorar. Não me demorou muito até estar metros abaixo do solo a escavar e a ficar momentaneamente encantado com uma gruta que desaguou numa brecha para uma bolsa subterrânea. É uma sensação muito idêntica à já descrita, por exemplo, em LEGO Worlds.

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Quando acharem que já fizeram tudo o que tinham a fazer em determinado mundo, encontram o Portal e fazem craft às pedras necessárias para o ativar, passando para o cenário seguinte. Obviamente, os mundos vão ficando mais exigentes, com criaturas mais astutas e mais letais, assim como a inclusão de bosses para a receita estar completa. Isto implica que a jogabilidade tenha uma componente de combate, algo que fica um pouco aquém do esperado.

Não esperava mecânicas profundas como as de Diablo, Dragon Age ou Dark Souls, porém, assenta demasiado na repetição, o que se torna ainda mais evidente com o passar das horas. Tal como já disse, há armas e armaduras para serem criadas, mas parte desta ligeireza está dependente da forma como sobem de nível.

Imagens Análise Portal Knights

Como em tantos outros Role Playing Games, há atributos conquistados que têm de ser atribuídos, mas assentam em campos previsíveis: força, destreza, inteligência, sabedoria, etc. Há também atributos que fazem parte da evolução de cada classe: especializações e benefícios temporários, como aumentar a probabilidade de Dodge quando têm pouca energia. Há atributos para desbloquearem até chegarem a nível trinta com a vossa personagem.

Obviamente, cada classe tem a sua evolução própria, pois as árvores de habilidades são diferentes, o que não quer dizer que na prática, ou seja, quando estão frente-a-frente com os inimigos os processos sejam completamente diferentes. A maior diferença está na estratégia como encaram as batalhas, pois o Warrior precisa de estar muito mais próximos dos inimigos do que um arqueiro, até porque cada classe tem um conjunto diferente de armas.

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Fica a ideia, acima de tudo, que a Keen quis oferecer um Role Playing Game sem grandes complicações, possivelmente destinado a quem não tem muita experiência com o género. O jogo é longo, bastante longo, mas a jogabilidade nunca é tão variada que consiga manter essa longevidade refrescada. Não ajuda que o sistema de combate tenha alguns problemas com a câmara. Quando estão perto de um inimigo, a câmara é fixada automaticamente, o que na teoria facilita a forma como se esquivam, mas na prática não apresenta sempre os melhores ângulos, especialmente para os jogadores que querem atacar de perto. Importa mencionar, contudo, que Portal Knights permite quebrar a câmara fixa pressionando um botão, o que não deixa de ser um passo adicional no calor da batalha.

O seu cerne é esta combinação de exploração do cenário e manipulação de itens com um combate que instala mecânicas mais tradicionais do género. Não estamos perante um desastre, mas sim do que parece ser o arranque de algo, o início de uma jornada que a produtora vai trabalhar com os jogadores nos próximos tempos, dando-lhe uma progressão dinâmica, como os eventos especiais parecem sublinhar.

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O sentido de comunidade está presente na forma como o cooperativo funciona. Até quatro jogadores podem juntar-se numa aventura cooperativa. Ou seja, podem pegar naquilo que conquistaram e usá-lo para ajudar outros - ou deixar que outros vos ajudem. É uma forma interessante de dar um sentido de continuidade à aventura, uma sensação de homogeneidade entre o progresso feito a solo e a participação em algo maior.

Portal Knights tem também uma componente cooperativa local, onde até dois jogadores podem participar nos mundos. É muito apelativo jogar com um amigo ou familiar, distribuindo tarefas ou descobrindo em conjunto. O problema deste modo é a divisão do ecrã, especialmente na parte de ler os menus e de perceber o que está lá escrito. A Interface de Utilizador do jogo não é nada de especial, mas neste modo torna-se frustrante estar a jogar na mesma televisão - e não, não me estou a queixar depois de ter experimentado o jogo num ecrã de 37 centímetros. Removendo este percalço, sim, é um método competente, tal como foi LEGO Worlds ou LEGO City Undercover.

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Apesar de o grafismo não ser nada de fazer cair o queixo, com as personagens a serem uma mistura de Chibi com Mii, e os cenários a serem semelhantes a uma versão um pouco mais polida de Minecraft, é assinalável a diversidade do que é colocado à vossa disposição. Com o avançar pelas ilhas muda o terreno, mudando também o tema, as cores, o elemento principal, a topologia - ou seja, raramente há a sensação que estão a jogar o mesmo nível vezes sem conta apenas para aumentar artificialmente a longevidade.

E a produtora tomou uma decisão inteligente: quando ativam os portais e passam para o mundo seguinte, descobrem e criam e derrotam segundo a vossa vontade, mas se regressarem a um mundo anterior, o progresso vem convosco. Na prática, há uma sensação de progresso e de evolução, não sendo um videojogo de apenas um sentido. Ou seja, exploram, avançam, mas podem regressar e continuar o trabalho que deixaram inacabado. Há uma interligação bastante conseguida.

Imagens Análise Portal Knights

Querendo mesclar vários géneros de várias inspirações, Portal Knights acaba por ser uma obra competente de exploração e de gestão de recursos com um sistema de combate e evolução de personagens aquém. Será interessante ver o suporte que a produtora dará à sua obra. Durante a sua estadia em Early Access no Steam parece ter criado uma legião de fãs interessantes, sendo a questão de como irá passar para a versão completa da obra. Pode ser visto como uma versão 1.0 com potencial, veremos como os jogadores que investirem o seu dinheiro serão tratados no futuro.