A produtora russa Lazy Bear Games não entende o prazer da descoberta, pois em Punch Club a narrativa e o estilo artístico está pejado de easter eggs. Não desvalorizo obras que são inspiradas em trabalho alheio, mas acho que houve uma falta de sensibilidade e limites, que acabaram por retirar uma possível identidade própria a Punch Club.

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Os criadores deste gestor da vida de um pugilista são verdadeiros apaixonados pela cultura pop dos anos oitenta e noventa. São tantas as referências, principalmente a filmes de ação muitas vezes protagonizados por Jean-Claude Van Damme, Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger, que chega a ser um exagero.

Punch Club segue a vida de um lutador no início da sua carreira profissional e vocês terão a responsabilidade de a gerir, assim como as suas ambições pessoais e emocionais. Há combates a ganhar para subir no ranking da competição e, principalmente, para receber a vossa remuneração pelo esforço de gestão da vida do lutador. Mas para vencer os combates, há que treinar afincadamente, subindo as estatísticas de três categorias físicas: Força, Resistência e Velocidade.

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A Lazy Bear Games construiu uma narrativa à volta de referências e clichés do cinema de ação dos anos noventa. A personagem principal viu o seu pai a ser assassinado a tiro, quando estava escondido com o seu irmão. Depois de crescer e chegar à idade adulta, o protagonista decide seguir a profissão do pai e tornar-se um pugilista. Um dos seus objetivos será também localizar e descobrir quem foi o assassino do seu progenitor.

É facilmente reconhecível a presença de Fight Club, quando ganham acesso a um bar onde podem travar lutas com estranhos no exterior, desde que sigam as regras de ouro enunciadas pela personagem de Brad Pitt. Poderão também desfiar crocodilos ninjas nos esgotos, sempre que lhes levarem uma pizza, uma clara referência, disfarçada com outros répteis, às Tartarugas Ninja. Itens espalhados pela vossa habitação a fazer relembrar Bloodsport e Rocky, com os seus cartazes colados nas paredes do vosso local de treino. Enfim, homenagens em menos quantidade ou mais subtis eram mais bem-vindas.

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Treinar requer aparelhos de musculação para se obterem os melhores resultados, porém, inicialmente estes só estão disponíveis no ginásio. Em Punch Club nada vos será dado de mão beijada. Aqui é preciso trabalhar arduamente, têm de pagar a vossa comida e o treino (seja ele com um treinador ou nas máquinas). Além de terem de manter as estatísticas do treino elevadas, há que se ocuparem da sua vida social e mantê-la bem de saúde, caso contrário não poderá prosseguir a carreira. Não cumpram as bases do jogo - faltem aos treinos, seja por estarem sem recursos financeiros ou simplesmente esgotados - e a vossa capacidade física vai diminuir, é o preço a pagar por tentarem ter uma namorada, um trabalho extra e amizades a manterem.

As lutas são o cerne do jogo. Se ganharem, não são apenas recompensados monetariamente, como também sobem na tabela classificativa do campeonato no qual estão inscritos. Vão certamente combater na rua contra rufias que vos querem assaltar, legalmente como já mencionado, e em combates à margem da lei onde vence quem deixar o seu oponente totalmente K.O.

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A cada nova vitória recebem mais pontos de experiência para serem gastos numa árvore de habilidades. Novos golpes, ataques devastadores e defesas que vos podem garantir a vitória na próxima ronda. À medida que avançam nas habilidades a desbloquear, vão notar que será essencial focarem-se numa única capacidade física.

Escolham a Força e poderão seguir a arte marcial "Way of the Bear". Como esta tem o seu foco na força, os danos infligidos nos adversários poderão esgotar a barra de energia em pouco golpes, no entanto esta é a disciplina de combate que menos precisão tem nos ataques. Seguir a via da Velocidade, como eu fiz, abre as portas a "Way of the Tiger". Aqui a vantagem é bem elevada, com golpes certeiros e muito desgastantes para quem os recebe, todavia, esta arte marcial desgasta a vossa barra de energia bem depressa. Por último, com o seu cerne na Resistência, temos "Way of the Turtle", que se baseia em técnicas defensivas. Além de uma barra de saúde elevada terão muitas opções para se protegerem.

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No papel, é tudo muito bonito, mas na realidade há o fator aleatoriedade a ter em conta em todas as lutas que terão de enfrentar. Umas vezes será surpreendente poder defrontar alguém supostamente mais forte do que nós, com conhecimento de técnicas muito mais avançadas, e vencer mesmo à última gota de energia. Há também o reverso da medalha, mas menos frequente, sermos claramente mais avantajados, mas levarmos uma sova que nos deixa com a confiança abalada. Contudo, no geral, o jogo é equilibrado, porque se num round a tática pensada nos correr mal podemos sempre alterá-la no seguinte.

Visualmente, este é mais um título que faz uma visita aos tempos em que as consolas da Nintendo e da SEGA reinavam no mercado global, onde nunca ninguém sonharia da futura entrada da Sony e da Microsoft. A direção artística em pixel está divinal, com animações muito bem trabalhadas, mas que me pareceram insuficientes. Nos combates, por muito que se especializem numa das três disciplinas mencionadas, verão sempre a mesma troca de golpes durante todos os combates. Murros nos flancos ou na cabeça, com a mesma situação caso sejam pontapés a serem usados. Gostava de poder ter visto técnicas, golpes, defesas e ataques que me pudessem fazer distinguir as diferentes artes marciais que posso aprender.

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A Banda Sonora também não está muito bem cuidada. É certo que a repetição melódica é uma técnica muito usada pelos melhores compositores - quem não reconhecia a música do genérico dos Simpsons nos seus primeiros acordes? Mas aqui a música repete-se exaustivamente. Apenas em casos pontuais, quando a narrativa começa a tomar tons mais emocionais, somos brindados com outras faixas.

A produtora russa quis fazer demasiado e foi pouco sensível na questão das referências. Até perceberem como escapar à sobrecarga da rotina de treino, Punch Club poderá ser frustrante, quando não se consegue manter um bom ritmo de vitórias e treino, sem que falte dinheiro para sustentar todas as atividades essenciais. No entanto, não deixa de ser curioso fazer o caminho que a Lazy Bear Games percorreu, ler-lhes a mente e conhecer a que obras fazem a sua devida homenagem.