Pedro Martins por - Mar 16, 2018

Q.U.B.E. 2 – Análise

Os jogadores têm que sentir motivação para continuar a torrar os neurónios nos jogos de puzzles. É uma linha ténue que muitas vezes não é alcançada por este tipo de propostas. É preciso sentir-nos desafiados, claro, mas sem complicar demasiado ao ponto da solução ser praticamente inalcançável. Q.U.B.E. 2 não é complicado, mas isso não quer dizer que não tenha mecânicas inteligentes.

Não há a liberdade nem a complexidade de The Witness, com Q.U.B.E. 2 a apostar a maioria das fichas numa aventura que nos leva de sala em sala. Nunca estive perdido sem saber o que fazer a seguir; nunca tive necessidade de ir jogar outro título para desanuviar a massa cinzenta. Isto não quer dizer que seja um jogo de puzzles inflexível, mas sim que as suas valências têm que ser mostradas na jogabilidade ao serviço dos quebra-cabeças propostos.

Analise QUBE 2

E na teoria é tudo bastante simples: a protagonista, Amelia Cross, acorda dentro de uma misteriosa estrutura. Na realidade de Q.U.B.E. 2 temos a possibilidade de interagir com três habilidades. Os cubos vermelhos são extensíveis, ou seja, podem aumentar – e reduzir – o seu tamanho, passando a ser retângulos.

Mas há mais dois. Os cubos azuis permitem a Amelia ou aos cubos saltarem. E, finalmente, os cubos verdes podem ser criados para, por exemplo, serem catapultados e abrirem portas, para servirem de pesos em plataformas que ativam ou desbloqueiam algo no cenário, ou para servirem como degraus. Espalhados pelos cenários estão quadrados em branco que passam a ser da cor que os jogador quiser.

Analise QUBE 2

Em diversas ocasiões, estes quadrados em branco estão inclinados. Ou seja, transformem um desses quadrados em algo azul e criem cubo amarelo em cima e ele sairá disparado pelo cenário. Mais: podem usar a habilidade vermelha para gentilmente empurrarem um cubo amarelo para o seu lugar devido. Estas habilidades são auxiliadas por complicações advindas dos cenários.

Já na segunda parte da obra, há enormes hélices que atiram Amelia. A solução é usar a habilidade vermelha e criar uma pequena coluna que serve como escudo temporário. Há também partes dos cenários com as quais podemos interagir, girando certas plataformas que nos ajudam a chegar a determinados locais e que obviamente complicam ainda mais a conjugação das três habilidades primárias.

Analise QUBE 2

Porém, estas complicações naturais da progressão por um jogo de puzzles nunca são suficientes para assoberbar quem tem o comando na mão. Sempre que chegamos a uma nova sala, sabemos exatamente por onde começar a procurar, ou seja, identificar as partes móveis do cenário e estudar brevemente a localização dos quadrados em branco com os quais vamos interagir. Como a dificuldade é sempre minimamente controlada, o reverso da medalha é que o jogador nunca se sente um prodígio aquando da solução, tal como acontecia em The Witness.

Isto não significa que não haja a sensação de recompensa, mas sim que se tivermos sempre as habilidades da protagonista em mente, a Toxic Games repete algumas mecânicas que indiciam quase imediatamente a resolução. Além disso, no seu miolo, Q.U.B.E. 2 usa um pouco em demasia a velha mecânica do jogo “ir a uma sala, resolver o puzzle para fazer uma ativação, ver o que foi desbloqueado”. 

Analise QUBE 2

Não é que destrua a boa experiência que é Q.U.B.E. 2, mas sente-se um moer em demasiado, especialmente se tivermos em conta que a progressão é feita com uma cadência salutar. Sim, há corredores que só estão aqui para fazer o jogo chegar a uma longevidade perto das cinco horas, mas não são demasiado penosos. A verdade é que a execução das mecânicas centrais é um incentivo à progressão, um incentivo que quase oblitera alguns dos sentimentos mais negativos.

E esta progressão, esta vontade de ver o que a produtora vai colocar no nosso caminho é alcançada graças à forma como as mecânicas vão evoluindo. Pode-se pensar que depois de termos acesso às três habilidades principais o resto do título é uma pasmaceira, mas não, uma vez que a produtora sabe como as conjugar de várias formas. Na prática, há uma evolução consagrada dos básicos. Como já disse, nunca estive verdadeiramente apeado sem saber o que fazer a seguir, mas também é verdade que não senti que estava a resolver o mesmo puzzle pela enésima vez.

Analise QUBE 2

Outro ponto sobre estes puzzles que merece ser mencionado é a sua duração. Na prática, como são enigmas relativamente curtos, mesmo que o raciocínio esteja a ir na direção errada, nunca se perde muito em recomeçar, o que ajuda a que a frustração não se instale prematuramente. A sua disposição está também consciente do espaço que os rodeia, o que permite várias abordagens válidas. É interessante perceber como é que num videojogo tão dependente da lógica, não se fecha a porta a alguma criatividade por parte do jogador.

Esta exploração é feita a mando de um arco narrativo que coloca Amelia Cross, a supracitada protagonista que começa a sua aventura dentro de uma estrutura completamente desconhecida, em comunicação esporádica com a Comandante Emma Sutcliffe, que vai assim entregando a conta-gotas informações vagas sobre o que se está a passar. Sim, já na reta final é explicado onde é que afinal estamos e são apresentadas novas personagens, mas é um argumento que vale sobretudo pela vocalização da protagonista. É escassa, mas entregue com convicção.

Analise QUBE 2

Havia certamente espaço para mais teorias e para o desabrochar da filosofia em redor da aventura de Amelia. Infelizmente isso não acontece, com a produtora a colocar os puzzles acima de tudo e de todos. O grafismo não desilude, mas não esperem encontrar o charme da série Portal ou de The Witness. Podia ser mais variado, mas as cores das habilidades dão-lhe carisma e personalidade. É um pano de fundo que faz o suficiente para albergar o decorrer da dedução e da sua execução. Sem estragar a surpresa a ninguém, escrevo apenas que a parte “orgânica” destes cenários tarda bastante em chegar à televisão.

Q.U.B.E. 2 é assim uma obra recomendável para os fãs do género de puzzles. Sendo relativamente curto, a Toxic Games faz uma boa gestão das habilidades da protagonista. Pelo meio patina um pouco na forma como apresenta as salas de puzzles e o talento da atriz que vocaliza a protagonista deveria ser melhor aproveitado, mas onde verdadeiramente importa, ou seja, na construção das mecânicas centrais, é uma proposta a considerar.

veredito

Os puzzles de Q.U.B.E. 2 nunca são demasiadamente complexos, permitindo ao jogador parar, pensar e executar. Há alguns trechos com alguns conceitos repetidos, mas isso não retira muito a uma experiência recomendável.
8 Ritmo da aventura. Algumas mecânicas inteligentes. Ainda que escassa, a vocalização é inspirada. Trechos com processos repetidos.

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Q.U.B.E. 2

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Lançado originalmente:

13 March 2018