Quando um videojogo é aparentemente simples, ou tem mérito para se destacar nas bases que apresenta ou acaba por ser um título oco em matéria que o torna numa oferta válida num mercado tão competitivo. Felizmente para Quest of Dungeons, labor de David Amador, este encaixa-se na primeira designação. E tem a seu favor poder ser uma excelente porta de entrada para o género dos dungeon crawler e dos roguelike.

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Na terra de Virul - o primeiro indício das inspirações do criador - abateu-se, literalmente, a escuridão. É assim o vosso desafio, deambular pelas masmorras determinadas aleatoriamente pelo jogo e derrotar o boss que se aloja num piso mais baixo. Após assumirem o papel de uma das quatro classes clássicas disponíveis - Guerreiro, Feiticeiro, Assassino e Xamã -, terão de passar por muitos dos desafios que as masmorras têm reservadas para vocês.

A história não é rica nem desenvolvida com grande profundidade, não obstante contém denotações subtis de humor presente nos díalogos entre o quarteto de É muito importante recolher as pedras violetas que vos dão acesso a estes objetivos, porque são estes que serão o maior impulso e os inimigos que vos vêm quando entram numa das salas geradas aleatoriamente. Assim, o tom leviano dado à história corresponde com o do resto do jogo.

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Quest of Dungeons entra mais facilmente na definição de dungeon crawler com combates por turnos, incluindo detalhes do género roguelike. Depois de entrarem na primeira masmorra, deparamo-nos com salas divididas em grelhas e com uma movimentação rígida de casa a casa. Uma ação nossa segue-se imediatamente por uma movimentação do adversário. Durante a nossa vez podemos atacar, defender, utilizar habilidades ou algum poder mágico que consome mana. A chave está na gestão de tudo o que está ao nosso dispor para descermos nos pisos inferiores.

Os desafios acabam por se tornar monótonos, as demandas propriamente ditas são mais um elemento para amealhar pontos de experiência e evoluir como consequência a personagem escolhida. Estas quests vão pedir para recolherem um determinado objeto ou enfrentarem um inimigo específico, depois de vos darem as coordenadas com um dos pontos cardeais da rosa dos ventos. É muito importante recolher as pedras violetas que vos dão acesso a estes objetivos, porque são estes que serão o maior impulso para receberem ouro e pontos de experiência.

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O cerne do jogo passa pelo escrutínio exaustivo da classe escolhida. É preciso entender as forças e as fraquezas da personagem que escolhemos. A classe mais fácil é, de longe, o Assassino. Esta é uma personagem que usa a distância como elemento furtivo para atacar. Tem menos saúde que o Guerreiro, mas visto que não se expõe a ataques de proximidade, é muito improvável criarem situações em que tenham de usar poções e queimarem um turno a favor do inimigo.

O Guerreiro é outra personagem tradicional de muitos géneros com uma trama de fantasia. O que a sua denominação supõe é que este seja um verdadeiro tanque, uma esponja absorvente de danos. Mesmo com mais pontos de vida, a sua exposição direta para atacar corpo a corpo coloca-o vulnerável a monstros mais perigosos, principalmente por ter mais probabilidade de ficar rodeado de oponentes.

O Feiticeiro e o Xamã são as classes para jogadores mais avançados. O primeiro é muito bom para infligir danos de grande dimensão, contudo este está dependente de ter reservas de mana para poder utilizar os seus ataques. Sim, este pode atacar tal como o Guerreiro, mas atacar com simples bastão para direcionar a sua magia não é o mesmo que empunhar uma espada afiada contra o adversário. Já o Xamã tem a sua valência em habilidades muito úteis. Mas estas precisam de um certo tempo para serem recarregadas, introduzindo um novo elemento de estratégia.

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Um dos pontos que referi anteriormente é os jogadores terem de encherem os bolsos com a maior quantidade de ouro possível. Uma vez encontrada a sala do vendedor, este será um dos locais aos quais voltarão muitas vezes, não só para comprar, mas também para vender todos os tesouros recolhidos dos espólios de inúmeras batalhas. Caso não encontrem tombados no chão itens valiosos, é no vendedor que poderão aceder a armas poderosas e equipamento que aumenta aos vossos valores de defesa. Pontualmente, há um ou outro item ou objeto de ataque que também está embutido com algum incremento de uma característica especial da personagem, como é o caso mais comum de aumentar o vosso valor máximo de saúde.

A jogabilidade oferecida pelos sistemas Nintendo 3DS e Wii U, para se jogar em dois ecrãs favorece claramente a experiência central desta obra portuguesa. Passo grande parte do meu tempo, de 3DS na mão, uma das consolas mais confortáveis para se jogar durante longas horas, nomeadamente títulos RPG. E Quest of Dungeons aproveita bem o que a portátil tem para dar aos videojogos que lá param como obras originais e até como adaptações não pensadas para o seu duplo ecrã, onde o inferior é táctil. A gestão do inventário é feita no ecrã inferior, assim como o acesso ao mapa e a toda a informação da personagem e das suas quests. Algo que acaba por ser muito útil e cómodo, mantendo o ecrã limpo de informação sobreposta em menus ramificados.

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Este dungeon crawler, depois de muitas horas acumuladas ao longo de sessões cada vez maiores, torna-se num jogo de estatísticas. Ou seja, o que o jogador quer e é importante para o seu sucesso e sobrevivência é ser cada vez mais forte, cada vez mais capaz de poder enfrentar o que os inimigos, nomeadamente os bosses, têm para o travar. Há por isso que gerir muito bem a nossa conta bancária e comprar o que é estritamente necessário e vender cada vez mais tesouros que recolhem dos escombros, das batalhas e das demandas. Um jogo, como muitos outros, em que o número mais elevado é que leva a sua avante.

Além de se poderem aventurar na mansão de Omphar ou nas ruínas da mansão de Rackan, existe a possibilidade de criarem uma aventura personalizada. Aqui podem escolher entre três tamanhos para a masmorra, o número de pisos e a dificuldade do jogo. Contudo é enfrentar fantasmas recolhidos pela troca de StreetPass que torna esta aventura interessante caso tenham com quem trocar. Poderem eliminar um fantasma, um espelho vosso das vossas aventuras é realmente curioso por ser um novo evento que ocorre para além dos já existentes que ocorrem aleatoriamente.

Tecnicamente, a versão 3DS de Quest of Dungeons não fica nada a dever às restantes versões para o qual se encontra disponível. Não é um jogo graficamente impressionante, mas tem o seu charme próprio; um regresso visual ao estilo das consolas 16-bit. É um título que prima pela sua jogabilidade em vez de algo que se perde num estilo artístico demasiado trabalhado. A música também não é algo que ficará gravado na memória dos jogadores, mas acompanha muito bem a aventura, num tom leve, tal como o título é na sua globalidade.

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Por 8,99 euros, com a possibilidade de o jogarem tanto na Wii U e na 3DS, caso possuam as duas consolas, sem terem de o comprar duas vezes, é um preço justo para o que oferece. Este jogo pode ser simples e com mecânicas leves, algo raro encontrar num dungeon crawler. Mas são estas mesmas características que o tornam fantástico para um jogo rápido numa viagem de transporte público, para poderem assim variar entre as inúmeras ofertas que praticamente só recaem em jogos de puzzles. E se sempre hesitaram em experimentar este género, esta é uma excelente porta de entrada.