Pedro Martins por - Oct 1, 2013

Rain Análise

A tarde agradável deu lugar às primeiras nuvens imponentes da estação. De cara carregada e sobrolho negro no céu, não demorou muito à chuva refrescar a calçada. Pequenos rios entre os paralelos lavavam o rosto à cidade. As pessoas pareciam confundidas pelo som do chapinar por esta carpete de água fria momentânea. As cúpulas reluziam à mercê dos tímidos raios de sol que teimosamente começaram a resistir ao negrume que se abateu. E depois? Depois comecei a jogar Rain e a atmosfera que observava da minha janela transferiu-se para a minha televisão.

O mais recente jogo da PlayStation C.A.M.P. é isto: uma viagem por uma enigmática cidade enquanto tentamos resolver o nosso próprio enigma provocado por aquilo que estamos dispostos a fazer para não ficarmos sós, aquilo que fazemos para correr atrás de alguém que nos pareça sinónimo de partilha. Partilha de quê? De nós próprios.

A génese de Rain é simples: somos um rapaz que apenas pode ser visto à chuva e perseguimos uma rapariga que partilha a mesma condição. Como em qualquer liberdade poética, a minha interpretação deste conceito torna-se mais filosófica consoante o tempo que dedicarmos a pensar sobre ele. Existirão jogadores que o encararão apenas como uma funcionalidade para encaixar a jogabilidade, contudo, apesar da condição de apenas sermos visíveis à chuva ser desprovido de qualquer nexo racional, julgo que esta imagem de marca no jogo retracta na perfeição aquilo que move o amor e a amizade comum aos mortais: é esta condição que nos faz aproximar, como por exemplo o gosto por algo em particular. Se aprofundarmos ainda mais a linha de pensamento, mesmo quando nos aproximamos e perseguimos emocionalmente alguém por detestarmos algo, há aí um denominador comum.

A pluviosidade não serve apenas para unir os protagonistas, tal como disse, anda de mãos dadas com toda a jogabilidade. Na sua essência, Rain é um jogo de puzzles: navegando por uma cidade desconhecida, têm que arranjar maneira de deixar para trás os monstros – Darkness – que pautam os cenários de jogo. Não só terão que jogar com a vossa visibilidade aos seus olhos, como seria de esperar, eles conseguem ver-vos quando estão à chuva, como também jogar com a sua atenção. Podem, por exemplo, ter que chapinar numa poça de água para que eles venham a correr na vossa direção, desimpedindo a única saída daquela porção de cenário.

Um verdadeiro jogo de sombras, portanto. A simplicidade da jogabilidade não destoa com o restante tom do jogo. À vossa disposição têm apenas três botões: saltar, correr e um que vos permitirá interagir com o cenário. Apesar de serem todas ações que não necessitam de explicação, é curioso que um simples ato como correr levante tanta tensão. Em diversas ocasiões, são obrigados a serem avistados pelas criaturas, deixando-vos num campo aberto em que têm obrigatoriamente que correr para chegar até não esteja a chover. Rain temporizou praticamente todas estas secções para que o jogador sinta a tensão de ter alguém a correr atrás de si, pois paira sempre no ar a dúvida se vamos conseguir chegar ao abrigo ou se vamos morrer pela mão de um sprint mal programado.

Porém, esta opção pelo minimalismo não consegue fazer com que os puzzles evoluam de maneira a manter o desafio constante. Resulta bem enquanto estamos a aprender a maneira mais correta de nos movimentarmos, de usarmos a chuva, o abrigo, os sons, enfim, as variáveis do jogo a nosso favor. Porém, as suas quatro horas de longevidade não são sempre um incentivo ao jogador que, quando chegar à segunda hora do jogo já amadureceu, atingiu a maioridade. Rain não percebe isso e continua a colocar-nos em situações cujas soluções são conseguidas num ápice.

Contudo, esta ausência de desafio é parcialmente sanada pela viagem que o jogo oferece, pela história que descrevi nos primeiros parágrafos desta análise. Ainda que a sua conclusão não seja 100% satisfatória, Rain faz questão de levar o jogador pela mão e mostrar-lhe tudo aquilo de que é feito até os créditos finais rolarem no ecrã e o jogador deixado com um estado de alma prolífico em considerações filosóficas sobre aquilo que o move, resumidamente, sobre quem o motivaria a enfrentar os seus próprios monstros.

Graficamente, Rain não é o jogo mais impressionante a ser lançado para a PlayStation Network. Porém, usa todas as suas forças para levar o jogador a acreditar na fantasia que oferece e o resultado é uma atmosfera irrepreensível. Parem o jogo e não terão dificuldade em reparar em texturas medianas, num design das personagens sem pontos excelsos, enfim, quando escrutinado, estas facetas estão todas lá. Mas os videojogos são algo para ser experienciado em movimento e aí Rain é capaz de oferecer ruelas credíveis, uma chuva capaz de provocar alguns arrepios pela espinha acima e uns reflexos de água no chão irrepreensíveis. Ainda uma palavra de referência para a introdução feita em aguarela, não só ilustra bem o jogo como o faz de uma maneira apaixonante. Dificilmente deixará alguém indiferente e é um bom indício do que se seguirá.

Este feito é ainda maior no capítulo sonoro. Com uma banda sonora que não tem nenhum problema em colocar trechos de piano ao serviço da melancolia, Rain prova que Debussy é uma excelente ponte entre o digital e o mais analógico dos receptores – vocês. São muito escassos os momentos espalhados pelos oito capítulos que compõe o jogo em que não têm os tímpanos embalados por temas que não só se encaixam no premissa do jogo, como em muitos casos são a bengala perfeita para a elevar a um novo patamar emocional.

Rain é um jogo com algumas falhas no doseamento do desafio e a sua longevidade não é muito extensa, porém, é uma viagem que faz frente ao jogador e pergunta-lhe olhos nos olhos se ele era capaz de mimicar esta experiência digital na vida real. Bebendo inspiração de jogos cujos nomes são referências, como Journey, ICO ou Shadow of Colossus, Rain não está nesse patamar, mas foi talhado da mesma forma.

Nota do Autor: O subtítulo desta análise é uma variação de um título de um livro de F. Scott Fitzgerald – Terna é a Noite.

veredito

Apesar de ter partes menos desafiantes, Rain é uma experiência digital recomendável.
8 Atmosfera irrepreensível A música ajuda à sua identidade própria A conclusão não está à altura da viagem Os puzzles nem sempre são desafiantes

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Rain

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Lançado originalmente:

02 October 2013