Obras de investigação criminal não são uma proposta frequente na indústria e menos ainda são aquelas que enveredam por esse caminho com qualidade. Apesar de assumirmos o papel de um detetive e de haver um crime para investigar, associar Rainswept a esse género de experiências seria reduzir a sua experiência de jogo àquele que é muito possivelmente o seu elemento menos bem conseguido.

Afinal de contas, o mistério de homicídio no seu cerne pode ser o fio condutor que une todas as componentes da história, mas são as relações que desvendamos e ficamos a conhecer, as interações com os habitantes da pacata cidade onde todos se conhecem e os vislumbres do passado, tanto do protagonista, como do casal no centro da investigação, que nos prendem à narrativa e nos investem nestas vidas.

Na pele de Michael Stone, detetive oriundo de uma grande metrópole requisitado para auxiliar as forças locais da pacata cidade de Pineview na investigação da morte de um casal de jovens namorados, a obra faz o seu melhor trabalho para apresentar o crime em questão como um caso de fácil resolução. Dois mortos que viviam juntos; Mulher baleada no abdómen à queima-roupa; Homem baleado na cabeça com indícios de disparo auto-infligido; Relatos de desavenças entre o casal; Ausência de sinais de entrada forçada; Enfim, todos os condimentos necessários para assumir que se trata de homicídio seguido de suicídio por motivos passionais.

Como seria de esperar, a verdade sobre o que aconteceu naquela noite fatídica está longe de ser assim tão simples e cabe ao protagonista prosseguir com a investigação apesar das pressões externas para assumir a hipótese mais óbvia como oficial e dar o caso por encerrado. E investigar significa sobretudo recolher depoimentos dos habitantes da cidade em conjunto com as informações obtidas da cena do crime. Felizmente, o título é inteligente na forma como constrói a sua história e alimenta a um ritmo constante o seu mistério, com a obtenção de novas informações que levantam novas questões.

Ainda assim, é a escrita ao serviço das personagens que mais brilha ao longo das cerca de quatro horas necessárias para concluir a aventura. Com maior ou menor importância para a resolução do caso, todas elas oferecem algo à experiência, seja um pitada de humor ou o simples reconhecimento de que estamos perante existências que vão muito para além da sua contribuição para a investigação. Esse é, aliás, um dos principais méritos de Rainswept, isto é, a forma como retira o máximo proveito do seu elenco para contar histórias paralelas de igual importância e com algo para dizer sobre a condição humana.

Dito isto, Chris e Diane, o jovem casal cuja vida terminou precocemente, são as estrelas desta história. Durante vários momentos da campanha, o jogo transporta-nos para o passado e deixa-nos reviver momentos importantes da relação entre os dois, momentos que vão desde o início mágico e arrebatador até aos pontos mais problemáticos da vida em conjunto. Esta estrutura narrativa resulta de sobremaneira porque nos convence do amor entre os dois, mas também da forma como as suas personalidades e passado acabam por provocar atritos no relacionamento do casal.

Acima de tudo, é o retrato de uma relação dolorosamente real, que vai para além do “mar de rosas” da paixão e atração inicial e mostra que são vários os fatores que se conjugam para ditar o sucesso de uma relação amorosa. Rainswept deixa-nos ver o melhor e o pior desta relação, o melhor e o pior de Chris e Diane enquanto pessoas independentes, conseguindo dessa forma investir-nos por completo na vida deste casal e tornar assim ainda mais triste o seu desfecho fatídico.

No mesmo sentido, a obra da Frostwood Interactive explora também o passado do protagonista. Mais uma vez, estamos perante uma história trágica com repercussões para o presente e com paralelismos fáceis de traçar com o crime em questão. Rainswept é assim uma obra sem medo de explorar temas pesados e as consequências psicológicas das nossas experiências de vida. Não perde, no entanto, o sentido de esperança no futuro e a vontade de ser, e fazer, melhor.

É uma pena, contudo, que no momento de concluir o seu mistério, a obra se mostre incapaz de proporcionar uma resposta que satisfaça e enriqueça a experiência. Na verdade, a resolução do crime parece quase um mero pormenor no cômputo geral do título. Não só a forma como o protagonista chega à conclusão que lhe permite desvendar a verdade do caso é pouco convincente, como a própria conclusão acaba por desapontar ao não contribuir em nada para o impacto da história.

No que diz respeito ao seu departamento técnico, Rainswept opta por um estilo visual 2D minimalista, sobretudo ao nível da modelagem das personagens e das suas animações - algo com resultados pobres quando a câmara se foca mais na cara das personagens. No entanto, trata-se de uma obra capaz de proporcionar vistas bonitas e um colorido pano de fundo à aventura. A banda sonora faz também um bom trabalho ao adensar o clima de mistério da narrativa e o tom mais emocional de vários momentos. 

O título não se livra, mesmo assim, de alguns problemas técnicos incomódos. Desde personagens não-jogáveis presas no cenário a uma interface de utilizador que por vezes não coopera, tanto ficando presa no ecrã ou simplesmente recusando-se a aparecer - neste último caso obrigando a reiniciar o checkpoint -, falta algum polimento à obra em determinados pontos.

Rainswept é assim uma proposta interessante no género Point ‘n’ Click, mesmo que, como tantos dos mais populares jogos do género do passado recente, seja pobre em quebra-cabeças e mais focado numa narrativa cativante em progressão sem grandes entraves. A conclusão do mistério que serve de fio condutor à aventura é fraca, mas a obra é rica em personagens e relações que ficam com o jogador muito depois da sua história terminar.