Como diria um determinado músico britânico recentemente levado ao estrelato por um hit comercial mais bem conseguido, "odeias a estrada quando tens saudades de casa". Os fãs mais vigorosos da série Ratchet poderão facilmente identificar-se com esta frase ao analisarem os jogos que durante os últimos anos preencheram o catálogo de lançamentos da saga do amado Lombax, que apesar de não poderem ser julgados assim tão negativamente no que toca à sua qualidade enquanto videojogos, fazem com que as primeiras horas no título que hoje analiso transmitam em versão videojogável o equivalente à expressão "lar, doce lar".

Depois das incursões por território algo desconhecido para os fãs da série, lançadas sob a forma de All 4 One e QForce, a série Ratchet regressa ao seu habitat natural num novo título de plataformas que volta a juntar os elementos base que a tinham tornado num verdadeiro sucesso à escala mundial - criando aquela que desde o primeiro momento se transforma numa excelente forma de matar saudades da jogabilidade simples e divertida com que a Insomniac Games nos tinha brindado ao longo da última década.

Ratchet & Clank: Nexus estabelece a sua condição logo à partida. Um lançamento a um preço reduzido, uma campanha com muito menos horas de conteúdo do que aquilo que seria habitual, resultam na perceção imediata de que este é um título pensado para servir como uma pequena cereja colocada no topo de um bolo cozinhado ao longo dos últimos anos - a sequência Future, que com este lançamento fica encerrada de vez.

Esta sensação é ainda apoiada por um enredo muito menos complexo do que muitos outros dos quais já temos feito parte em várias incursões da série durante os últimos anos. Desta vez, o teste à nossa habilidade em jogos de ação e plataformas começa quando somos encarregues de contribuir na entrega da perigosa vilã Vendra Prog a uma prisão espacial de alta segurança. Como poderão inferir, esta entrega não vai correr da forma desejável e a nossa missão assume rapidamente outros contornos, quando o estado da criminosa passa de capturada a fugitiva. Infelizmente, com o desenrolar das cut-scenes, fiquei com a sensação de que o estúdio responsável por esta produção poderia ter ido muito mais além, evitando fazer transparecer uma clara sensação de ausência de inspiração aquando da escrita do guião do jogo.

A nossa aventura começa a partir daqui, numa jornada em que a componente técnica se assemelha (talvez exageradamente), àquela que tinha sido utilizada em Ratchet & Clank: A Crack In Time. Apesar disso, muitos poderão interpretar esta continuidade como um ponto positivo, uma vez que toda a jogabilidade rápida e explosiva continua a proporcionar grandes momentos de diversão e desafio - principalmente se, como eu, fizerem questão de pôr as vossas capacidades à prova no modo de dificuldade mais elevado. A diversificação das tarefas que até hoje tinham sido propostas é auxiliada pela adição do jetpack e de algumas brincadeiras relacionadas com a força da gravidade.

Tal como a jogabilidade, também a atmosfera simpática pautada pelo sempre presente humor agradável continua a reinar. Os diálogos seguem a mesma linha de sempre, com pequenas piadas e situações caricatas que oferecem a cada sessão de jogo uma aura mais relaxante, para a qual contribui também uma localização portuguesa muito positiva, algo que já é peça fundamental quando se fala em Ratchet & Clank no nosso país. Esta componente tem ainda a contribuição de novas armas, também elas bastante interessantes a nível humorístico. A título de exemplo, ficam desde já a saber que poderão começar a festejar a chegada da época natalícia enquanto transformam os vossos inimigos em bonecos de neve ao som de Jingle Bells.

As secções de puzzle que anteriormente tinham ocupado várias horas na progressão de cada jogador ficam agora remetidas a um panorama muito inferior, estando limitadas a pequenas sequências com Clank que não deverão oferecer um desafio particularmente pesaroso para o vosso cérebro. Da mesma maneira, também a presença de sequências puras de plataformas foi reduzida, resultando num jogo que me deixou a sensação de que tinha sido dado um ênfase muito maior à ação imediata e à utilização de armas potentes contra hordas de inimigos ameaçadores, mesmo que esta caraterística varie um pouco consoante a escolha do nível de dificuldade.

Ratchet & Clank: Nexus consegue cumprir aqueles que tinham sido estabelecidos como os seus objetivos desde uma fase precoce do seu desenvolvimento. Mantendo a fasquia ao nível daquela que já vinha a ser estabelecida há algum tempo, o novo lançamento da Insomniac Games resulta muito bem como epílogo de Future. Como um verdadeiro ponto final na série que acompanhou os jogadores ao longo do reinado da PlayStation 3 - que chega agora ao fim - este é um jogo que representa o fim de um discurso proferido pela equipa de desenvolvimento ao longo dos últimos seis ou sete anos.

No final, não tenho dúvidas de que existe um certo pesar pelo facto de não ter sido feito um esforço para introduzir qualquer novidade significativa a nível técnico e de não apresentar uma aventura tão envolvente a nível de enredo como aquela que tinha sido proporcionada em 2009. Ainda assim, Ratchet & Clank: Nexus é um jogo que mantém vivo o espírito da série, terminando de forma pouco inspirada uma dinastia que agora dará lugar a possíveis novas e mais arrojadas experiências numa outra plataforma.