Todos os dias, existe alguma mãe com uma gravidez complicada que vê a sua epopeia gestacional terminar bem. A Ubisoft Montpellier, "mãe" de Rayman Legends, não deverá ter tido uma gestação fácil, porém, bastam apenas algumas horas aos controlos da sua mais recente obra para percebermos por diversas vezes que todos os problemas que ameaçaram minar a sua produção nunca o chegaram a fazer, sendo o produto final algo incólume a essa maré de burburinho que começou quando Legends deixou de ser exclusivo Nintendo Wii U. Os motivos e efeitos secundários dessa decisão já foram amplamente dissecados, portanto, este parágrafo serve como uma peneira sobre o assunto, deixando o resto do texto apenas com a obra final e o que ela nos proporcionou: divertimento.

O Glade of Dreams está novamente em perigo, pois o Bubble Dreamer tem sido atacado por pesadelos horríveis que colocam os Teensies em perigo. Como não poderia deixar de ser, vocês terão que os libertar. Cada nível do jogo tem espalhado em si uma dezena de Teensies, sendo que oito ficam disponíveis no próprio cenário e os restantes dois estão escondidos em compartimentos secretos. É certo que alguns destes compartimentos secretos são descobertos por pura felicidade, porém, na maior parte dos níveis, terão que moldar a maneira como passam cada nível a esta variante, ou seja, Legends não se limita a ser um jogo de plataformas em progressão horizontal, pois sempre que terminam um nível sem terem resgatado a totalidade dos Teensies, o mais certo é repetirem o cenário com um novo olhar, explorando a área fora da rota mais convencional.

Depois de sentir essa curiosidade aguda de perceber o que me tinha falhado por inúmeras vezes, comecei a ficar com a sensação que cada nível é assemelha-se a desembrulhar um presente: o primeiro instinto é rasgar o papel que o embrulha sem ordem ou regra, ou seja, neste caso é abrir pelo nível a nosso bel-prazer, com aquela angústia que a curiosidade de ver o que vem a seguir nos tolda e depois, com mais calma, andar à procura do cartão que identifica quem nos presenteou que, no caso de Rayman Legends, se traduz em andar à procura das áreas mais recônditas, reparando em detalhes e opções de design que nos escaparam à primeira passagem.

Com o acumular dos níveis concluídos começamos a ter a noção que estamos a jogar algo especial, algo que nos oferece um arraial de novas mecânicas, provando que ainda é possível inovar este género que há muito tem como estigma o adjetivo estagnado. Durante as mais de dez horas que demora a ser concluído, Legends é uma caixa de Pandora aberta para libertar novas mecânicas ou a evolução de outras tantas já existentes. Estas variações dependem em boa parte daquilo que a personagem Murfy é chamada a fazer. Em vez de ser controlada diretamente, a sua presença esporádica é controlada pelo próprio jogo e serve essencialmente para adicionar uma nova camada à jogabilidade de Rayman Legends. Com o pressionar de um botão, Murfy resolve o obstáculo mais próximo, seja condicionar a lava que de outra maneira nos barraria o caminho, fazendo cócegas num inimigo, criando plataformas temporárias ou abrindo novos caminhos em obstáculos à primeira vista intransponíveis. Conjugar a progressão horizontal - e algumas vezes vertical - com o pressionar do botão na hora certa não atrapalha a maneira como estamos no jogo, quando muito torna-a mais frenética e desafiante.

O conteúdo de Rayman Legends não é nada tímido. O jogo conta com seis mundos totalmente diferentes, com cada um a ser constituído por aproximadamente dez níveis, portanto, estas mecânicas nunca transparecem a sensação de estarmos a ficar soterrados com tanta novidade. A produtora aproveita toda a amplitude para ir progressivamente introduzindo algo novo, o que faz com que o factor surpresa nunca ande demasiadamente arredado da longevidade. Quase sempre, quando estávamos a ficar demasiado familiarizados com aquilo que experienciámos ao longo do jogo, Legends coloca ao seu serviço uma pepita que reacende a nossa aprendizagem por algo novo. Além disto, a progressão pelos vários mundos do jogo não estanque, ou seja, ocasionalmente, um dos níveis conquistados é atacado, o que nos leva a ter que ir a correr salvar a situação. Estas invasões funcionam em contrarrelógio, ou seja, têm determinados tempos a bater se quiserem ter sucesso.

Para explicar o resto do conteúdo que compõe Rayman Legends, têm que perceber que a pontuação com que terminam cada nível é crucial à vossa habilidade de experimentarem o jogo na sua capacidade. Por exemplo, se completarem um nível com um determinado sucesso, desbloqueiam Trevos que, quando raspados como uma vulgar Raspadinha, desvendam o prémio, que varia entre novas criaturas, novos objetos e - o melhor de tudo - níveis repescados de Rayman Origins, que servem para apresentar as origens da série aos imberbes ou como canalizadores de nostalgia para todos os que dedicaram o seu tempo ao jogo que se estreou em 2011.

Mesmo sem serem verdadeiros mestres do género, a estrutura de Rayman Legends foi pensada para que o jogador, em qualquer momento, tenha sempre à sua disposição uma miríade de conteúdo que está longe de ser apenas a progressão natural pelo modo principal. Seja com algo do que foi descrito até aqui, seja com desafios que estão intrinsecamente ligados a tabelas de liderança online, ou, por exemplo, com o minijogo Kung Foot.

Ainda uma palavra para os encontros com os boss e, sobretudo para os níveis musicais. Desde que experimentei a demonstração que foi lançada para a Nintendo Wii U, fiquei com a ideia que estes poderiam funcionar perfeitamente como um dos pináculos do jogo final. E funcionam. A servir como a celebração de cada mundo, estes encontram-se no seu final. Muitos poderão alegar que a sua quantidade não é abundante, porém, acho que a Ubisoft colocou estes níveis em que a jogabilidade decorre de acordo com a banda-sonora, numa posição que funcionam como uma celebração, quase como pontos finais numa frase escrita por Lobo Antunes ou Herberto Helder. Podiam ser mais, aliás, podiam até ser a totalidade dos níveis de Rayman Legends e certamente seriam divertidos na mesma, porém, perderiam aquele je ne sais quoi que está associado à sua escassez. Como dizia, qualquer um destes níveis são extremamente divertidos, oferecendo sempre uma motivação extra para concluirmos o mundo em que estamos a jogar.

Apesar de ser possível partilhar Rayman Legends com até outros três jogadores em simultâneo localmente, acho que a diversão atinge o seu auge quando dois amigos partilham entre si a experiência. Como já devem saber, sempre que um jogador morre no jogo, aparece automaticamente dentro de uma bolha e só regressa ativamente à ação quando o jogador sobrevivente estoura essa bolha. Invariavelmente, estas situações representam um quebrar na concentração de quem está, por diversas vezes, a lutar pela própria vida. Mesmo que o ressuscitamento do companheiro de aventura possa ser adiado para um momento mais oportuno, acreditem que a sua presença em modo "standby" é o suficiente para descoordenar quem está a tentar a sobreviver. Portanto, quando três ou quatro jogadores partilham o mesmo ecrã, o caos assume um papel mais preponderante que a diversão, sobretudo se estiverem apostados em progredir pelo modo principal do jogo. O jogo a dois é extremamente divertido, motivo que me leva a questionar a razão que levou a Ubisoft a não incluir esta mesma cooperação online. Centenas de jogos já o fizeram nesta geração de consolas e certamente a equipa de desenvolvimento estava ciente de quanto a partilha da aventura exponenciava a diversão, portanto, mais do que aquilo que oferece, é aquilo que fica por oferecer que mais danifica a componente multijogador do jogo.

Desde o assobio que nos embala a escolha do cenário às excelentes escolhas musicais que brilham nos níveis musicais - sendo, por exemplo, Eye of the Tiger uma delas - às animações dos bosses ou das várias personagens com que podemos jogar, tecnicamente, Rayman Legends continua a oferecer argumentos de peso. O grafismo detalhado, vibrante e expressivo de cada nível, alia-se ao design dos níveis e às novas mecânicas introduzidas pelo jogo para oferecer uma experiência bastante conseguida e homogénea. Sejam nos níveis inseridos no mundo "Fiesta de los Muertos" a fazerem lembrar Guacamelee! ou as aventuras subaquáticas proporcionadas pelo mundo "20,000 Lums Under the Sea", não nos podemos queixar de uma diversidade escassa, pois cada mundo é único e mesmo debaixo da mesma temática as abordagens são diferentes, o que resultam nos seus próprios cenários de jogo.

Rayman Legends não reinventa o género, mas dá-lhe continuidade afirmando-se como um jogo que o trouxe de novo para a ribalta. Não sei quais serão os resultados financeiros proporcionados à Ubisoft pela sua publicação, mas depois de Origins, Legends reafirma a qualidade da série e seria uma pena se um eventual próximo capítulo não viesse a ser produzido devido às fracas vendas. Seja como for, é fácil recomendar o jogo a qualquer amante de plataformas e mesmo a alguém que use Legends como porta de entrada no género.