Este título polaco, vindo da Varsóvia, tinha uma apresentação muito curiosa e apelativa para pedir financiamento através do Kickstarter em 2015. Segundo a produtora polaca Pixelated Milk, Regalia: Of Men and Monarchs queria cruzar duas famosas séries JRPG: Disgaea e Persona. Porém, tornar esta intenção em videojogo que retire o melhor das licenças da Nippon Ichi Software e da Atlus parece ser uma tarefa que não vá passar de um desejo inconcebível.

Kay, a personagem principal, é o herdeiro do reino de Ascalia. Estas terras - e o castelo correspondente - que foram herdadas não apresentam a opulência que se esperava encontrar de um colorido conto de fantasia medieval. De acordo com o que nos é contado, Ascalia foi palco de uma guerra terrível que deixou tudo em ruínas e afastou toda a população que dava vida ao reino. Assim, Kay e o seu grupo de amigos terá de devolver a glória de outrora a Ascalia.

Mas há um dado curioso que liga a narrativa à jogabilidade. O jogador não herda apenas terras e propriedades, também são agora responsáveis por saldar a dívida que a família contraiu em vida. Assim, um cobrador de impostos vai passar pelo vosso castelo periodicamente para recolher parte da vossa dívida. Caso não reúnam a quantia previamente exigida, ser-vos-á apresentado um ecrã de “Game Over”. Ou seja, adiem o cumprimento das vossas responsabilidades e terão de recomeçar o jogo no último momento em que foi guardado.

Regalia não é uma obra que se leva a sério, pois quem a escreveu dedicou o seu tempo a escrever anedotas para satirizar o género de uma ponta à outra. Passando pelas personagens até aos habituais clichés dos JRPG, ou seja, as classes das personagens durante o combate, como também as várias situações típicas que decorrem num mundo deste tipo. 

Infelizmente, isto não permite um desenvolvimento consistente das personagens, pois estas ficam reféns da comédia que têm de servir. Caso já tenham jogado muitos RPG nipónicos, nomeadamente as séries que o título polaco quer homenagear, então vão ficar cansados de adivinhar onde a narrativa vos leva, uma vez que é muito fácil de antecipar se já temos noções básicas da estrutura que já vimos montada em inúmeros títulos. 

Há um número considerável de personagens que vamos conhecer e travar relações de amizade. E tal como em Persona, quanto mais forte for esta relação, mais vantagens teremos no combate ou na aquisição de outros benefícios, como itens que nos vão dar uma ajuda no planeamento prévio da tática a seguir antes de cada combate. Isto reforça a nossa vontade de querermos expandir a narrativa por via do relacionamento social entre o vasto conjunto de personagens. 

O jogo vai exigir que se melhore os edifícios circundantes ao castelo, para que assim o reino volte à glória de antigamente. Melhorem os edifícios para assim desbloquear e ter acesso a personagens chave com as quais podem desenvolver relacionamentos, e assim podem retirar o máximo do que a cidade do reino tem para vos oferecer. É uma atividade indispensável para que os combates em dungeons não se tornem demasiado complicados - não há necessidade para que tal aconteça.

O combate realiza-se fora das paredes de pedra do castelo, ou seja, terão de se aventurar por florestas em pântanos numa estrutura dungeon clássica. Uma vez fora do castelo terão de ter em conta o tempo que passa no calendário do jogo, porque terão de ter a quantia pedida pelo cobrador de impostos quando este regressar para receber mais uma parte da dívida. Assim, há uma certa urgência em recolher o maior número de ouro possível  para terem a certeza que regressam com quantidade suficiente de dinheiro, mas também de itens para melhorar diversos aspetos do castelo e das capacidades dos membros da nossa party.

Uma vez escolhido uma das várias dungeons que foram desbloqueadas, poderão escolher passar por vários pontos até converger ao ponto final. Começam num local onde vos é feita a introdução narrativa, para depois escolherem um ponto que tenha um evento ou que tenha um combate. Os eventos têm uma descrição dos acontecimentos que estão a decorrer ou que possam vir a acontecer num futuro próximo, o que permite ao jogador conhecer ainda melhor as personagens, assim como o contexto em que nos encontramos naquele determinado momento.

O que é realmente importante nesta fase do jogo é o combate. E é esta parte que foi inspirada em Disgaea. Primeiro, é-vos pedido para colocar no campo de batalha, disposto numa grelha, os membros da vossa party. Ou seja, terão aqui um autêntico tabuleiro de xadrez digital, onde cada uma das peças tem características muito próprias. O que é essencial para saírem vitoriosos é terem muita atenção às entreajudas que são possíveis explorar entre todas as personagens.

Contudo, perceber bem todos os mecanismos e estruturas do combate não é uma tarefa propriamente simples. É necessário experimentar o que é possível ou não fazer, mesmo que se perca uma das nossas rondas, ou até mesmo uma partida. Neste jogo temos que perceber o valor de cada ataque e do efeito de cada ação que podemos executar. Isto acaba por ser frustrante cada vez que entramos num novo combate: Regalia precisava de simplicidade e não de processos tão complicados.

O estilo gráfico de Regalia: Of Men and Monarchs é deslumbrante e aqui também tem traços similares a Disgaea. As feições que foram dadas às personagens durante os diálogos são muito expressivas, o que só lhes confere ainda mais carácter. Também é importante frisar o muito bom trabalho que foi feito nas vocalizações das personagens, só é pena que estas nem sempre entreguem o diálogo desta forma - normalmente é em forma de texto que aparece. 

Regalia é um bom jogo, mas que tem uma característica que se vê por todo o jogo: o exagero. Há momentos em que a narrativa apresenta humor em exagero, mecânicas de combate demasiado complicadas ou, nesta versão específica da Nintendo Switch, carregamentos exageradamente longos e frequentes. É uma pena que assim seja, pois é um jogo interessante para levar connosco, em vez de o jogar em casa.