Os nossos meios de entretenimento influenciam-se uns aos outros. Livros são adaptados a filmes, filmes a videojogos e videojogos a filmes. Com um certo nível de sucesso, conforme o que se considera ou não uma boa adaptação. Uma das adaptações para televisão de maior sucesso dos últimos tempos é Game of Thrones, ou a Guerra dos Tronos se preferirem. Todavia, dada a sua complexidade narrativa, são poucas as produtoras que realmente tentam entrar na história concebida por George R. R. Martin.

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A Telltale Games fez uma adaptação direta, como uma espécie de spin-off à série original, introduzindo mais detalhes à trama liderada por Jon Snow, Daenerys Targaryen e Cersei Lannister. Houve um RPG e RTS, precedentes ao jogo onde foram implementadas mecânicas já experimentadas em The Walking Dead e em The Wolf Among Us. Porém, foram bastante medianos e sem a força mediática que a série teve para impulsionar as vendas dos jogos. Até hoje ainda não houve algo de realmente bom que fosse original e inspirado nos contos das Crónicas de Gelo e Fogo.

Até agora, sim, porque a produtora londrina Nerial conseguiu criar algo tão simples, mas que resulta em histórias complexas sobre poder, traição, ganância e moral, num reino moldado pelas vossas escolhas e pelas cartas que vos são dadas. São geniais as histórias que podem ser geradas num mundo medieval, onde tudo e todos nos querem ver fora do trono à força bruta ou pela má gestão dos elementos base do jogo. Em Reigns serão sempre o rei, o líder máximo da localidade que governam.

Com as opções que vos serão dadas pelos vossos conselheiros, personagens importantes e figuras enigmáticas terão de decidir o futuro do vosso reino. Mas com os quatro pilares do jogo que devem manter sempre equilibrados, é um desafio por si só não descair a balança para um dos lados. O resultado será sempre a expulsão do vosso trono, seja a bem ou mal. E mesmo que seja a bem, acabarão por morrer isolados do reino que construíram, exilados por forças armadas que resolveram dar um golpe de estado pela vossa má gestão.

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A linha cronológica começa por um jovem rei, onde começam a aprender o que afinal é Reigns. Várias cartas são colocadas num baralho virado para baixo e uma a uma é revelada uma nova carta. Esta representa uma figura importante do vosso reino: um conselheiro, o comandante da guarda real, ou até o padre da igreja local. Cada um deles apresenta-vos uma situação para ser resolvida: um reino vizinho quer ser recebido na vossa casa, uma doença mortal está a contaminar as ruas ou um cientista quer a vossa permissão para fazer avanços na sua área de estudos.

Cada uma delas tem consequência direta em um ou vários pilares que constituem o vosso reino. Estas são: a Religião, o Povo, o Exército e o Dinheiro. Normalmente, a carta em questão tem opções ambivalentes a ela associada, e uma escolha terá o efeito contrário da outra. Esse efeito será regulado pelo aumento ou decréscimo dos valores dos quatro pilares do vosso reino mencionado anteriormente. Com uma bola, de dois tamanhos possíveis, por cima de cada um dos valores que representa o vosso reinado. Não ser-vos-á explicitamente dito o quê que desce ou sobe, mas pelo contexto da situação e da escolha posterior não é muito difícil saber as consequências das vossas decisões.

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Felizmente nem tudo é linear seguindo este sistema. Há espaço para a introdução de novas personagens, como um médico cientista, uma bruxa, um cão ou um espião. Cada uma delas ainda vos pode trazer benefícios, como a opção de construir uma quinta onde será guardada comida para tempos em que as colheitas são mais pobres e evitar que a população morra à fome, poderem ter acesso aos calabouços do vosso castelo e terem uma oportunidade de escaparem com vida depois de um povo enraivecido pela vossa má governação exigir a vossa cabeça, assim como poderem encontrar ainda mais personagens e aceder a partes mais misteriosas da história do vosso reino. Mais personagens significa também descobrir um novo conjunto de cartas que vão escrever uma nova história para o herdeiro seguinte.

Reigns coloca quase sempre um sentido de urgência em todas as vossas ações. Não poderão ser um rei bondoso para aguentar o mínimo de tempo sem que ninguém comece uma revolução. Agradar ao exército irá muitas vezes contra as ideologias da igreja, ter o vosso povo feliz sempre que vos pedir algo resultará em cofres vazios num abrir e fechar de olhos. Há que fazer uma boa gestão e nunca deixar que tenham excesso ou carência para qualquer um destes quatro grupos. Por vezes, chegar a um determinado objetivo para cumprir levar-vos-á a agir sem refletir, da mesma forma se o fizerem para obterem informações sobre uma determinada personagem.

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Mas o que este jogo faz mesmo bem é colocar o jogador em situações tensas e colocá-lo entre a espada e a parede, mesmo que a decisão seguinte não o levará a ser relembrado como um rei adorado por todos. Descobrir novas peças neste elaborado jogo de xadrez também tem o seu alento, saber que tenho uma bruxa, um espião e um cientista do meu lado assegura-me que estarei mais alguns anos sentado no trono que tantos cobiçam. Tal como cada partida de póquer é diferente, cada partida de Reigns é surpreendentemente diferente da anterior e à hora da vossa morte serão reconhecidos como William the Old, Thomas the Mage ou James the Wise. Tudo dependerá das vossas ações durante o vosso reinado.

A direção artística, a cargo de Mieko Murakami, não agradará a todos, mas é eficiente em mostrar as personagens com um tom correto. As cabeças em losangos podem gerar alguma confusão, mas os detalhes faciais removem rapidamente essa mesma falta de clareza. Gostei bastante dos desenhos e têm uma consistência por todas as cartas, não há nada, seja um animal ou um humano que esteja desenhado fora de contexto. Juntamente com a música de Mateo Lugo e a direção experiente de Disasterpeace estamos perante uma direção técnica deslumbrante.

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Sim, ter um videojogo que se inspira tão bem em algo como Game of Thrones é fantástico. Não é só a narrativa entusiasmante que vivemos a cada jogada, mas a tensão das decisões, um mundo imperdoável que só está em paz com a nossa morte ou uma panóplia de personagens tão importante quanto a nossa. Algo tão complexo transformado num jogo tão simples e minimalista que resulta com aquilo que pretende transmitir e oferecer a quem o joga. Contudo se são do tipo de jogadores que querem estar ao controlo de tudo e mais alguma coisa, com diferentes opções para terem uma parte mais ativa do reinado como em Crusader Kings II, este título não é para vocês.