Filipe Urriça por - May 19, 2022

République: Anniversary Edition (Switch) – Análise

République chega à consola híbrida, a Nintendo Switch, uma década depois de ter sido financiado no Kickstarter, numa versão intitulada de Anniversary Edition. Contudo, o aniversário que se celebra não é o do jogo mas da produtora norte-americana que o criou, a Camouflaj, que soprou as velas em 2021 pelo seu décimo ano de vida. République: Anniversary Edition, assim chega finalmente a uma consola portátil, após ter sido originalmente lançado para iOS. Por isso, se o jogo foi criado de raiz para os dispositivos da Apple e foi lançado antes da consola híbrida existir, então temos aqui em título que, em teoria, se adaptará muito bem à plataforma da casa de Quioto. Infelizmente, nota-se que République foi adaptado para se continuar a jogar através do toque, mesmo que se possa jogar só com controlos tradicionais de consola.

Hope é uma protagonista desta obra de ficção, bastante inspirada no livro 1984 de George Orwell onde tenta escapar das garras de um regime totalitário de uma distopia. O jogador é como se fosse um narrador participante desta história, pelo importante papel que desempenha no desenvolvimento dos eventos que ocorrem, pois somos nós que os ajudamos a acontecer. A abertura de République é forte e eficiente por deixar o jogador com vontade de responder ao pedido de auxílio de Hope com as mecânicas que estão ao nosso alcance. O semblante da nossa personagem principal demonstra desespero e exprime uma vontade em ser livre, sem estar pressionada pelo regime opressor da sociedade onde vive. A liberdade é um direito e Hope quer garantir que a conquista.

Hope leu literatura proibida pelo Estado e sabe que em breve será presa pelo crime que cometeu. A jovem mulher olha para o seu telemóvel e nós, o jogador, vemo-la pela câmara do seu dispositivo inteligente, porque, aparentemente, somos um pirata informático com capacidades e conhecimentos para ajudar Hope. Isto faz de nós um agente da ação, onde Hope deveria andar por si só enquanto lhe abrimos caminho para a sua liberdade. É um conceito curioso que funciona como um filme interessante, mas que como videojogo resulta numa experiência bastante morna.

O título da Camouflaj joga-se a duas velocidades: ou estamos a usar as câmaras de vigilância e a abrir portas para a personagem passar em segurança, ou estamos a controlar Hope para que esta possa ir de um ponto ao outro a correr, andar, a rastejar para passar despercebida pelos guardas. Num qualquer outro jogo na terceira pessoa controlaríamos tudo ao mesmo tempo (e fazíamos tudo numa perspetiva fixa junto à heroína), mas aqui estamos condenados às perspetivas das diferentes câmaras espalhadas pelo edifício onde se encontra Hope. Entende-se o porquê de République ter esta divisão de mecânicas, visto que não deveríamos ter controlo nenhum sobre Hope (deveríamos ser só uma ajuda externa), mas na realidade acaba por nos deixar confusos com a constante mudança de perspetivas.

O jogador tem várias ferramentas ao seu dispor para prestar auxílio a Hope. Visto que as câmaras de vigilância são os nossos olhos para ver a ação do jogo, a nossa preocupação são os guardas que estão a fazer a sua ronda. Podemos ultrapassar os seguranças de várias formas, a mais difícil é sermos uma autêntica sombra indetetável, mas para isso temos de ser pacientes e estudar bem os seus movimentos e comportamentos. Caso a paciência não seja algo que apreciem num jogo, podem sempre atordoar os vossos oponentes com gás pimenta ou deixá-los sem sentidos com o taser. Estes itens não são infinitos e alguns inimigos têm resistência a estes ataques, portanto convém poupar estes recursos para ocasiões mais complicadas e casos que podem ser efetivamente usados.

Como é evidente, a Camouflaj fez bem em aproveitar o ecrã tátil da Nintendo Switch. Não é que percorrer os menus através dos botões e analógicos dos Joy-Con seja complicado, jogar e navegar pelo menu de République através do ecrã tátil é muito mais confortável e rápido do que pelo método tradicional de uma consola. E dado que o jogo é bastante pausado, porque se estamos a piratear sistemas de segurança não podemos estar a mover a personagem ao mesmo tempo, não nos faltam hipóteses de tornar Hope numa boa agente furtiva. Só somos apanhados pelos seguranças se formos muito distraídos ou se arriscarmos demasiado.

Tecnicamente, République: Anniversary Edition é uma obra com um grafismo datado, a escolha da direção artística não lhe cai bem. Além de rostos com expressões rígidas, as próprias animações dos corpos são quase equiparáveis a um jogo lançado no início deste milénio, faltou um certo cuidado para dar vida às personagens desta distopia. Já a vocalização está num patamar bem mais elevado que contrasta bastante com o pobre grafismo, Jennifer Hale é um dos nomes mais conhecidos do conjunto de atores que dão a sua voz às personagens da obra financiada no Kickstarter.

République: Anniversary Edition é um bom jogo, mas que poderia estar em condições muito melhores para um título que foi reeditado. Assim, a celebração dos dez anos de uma produtora que parece ter um futuro minimamente promissor fica manchado com um jogo que podia ter um brio que faltou. Esta obra tem bastante valor na temática que aborda na narrativa, inspirada nos trabalhos literários de George Orwell, porque a interpreta e representa tão bem. Infelizmente, as mecânicas em torno das câmaras e de todo o hacking, deixam-nos mais confusos do que o desejado e é uma pena que assim seja.

veredito

Um jogo que vai buscar a inspiração certa, mas aplica-lhe uma jogabilidade frustrante e confusa.
6 Narrativa inspirada em 1984. Jogabilidade tosca. Navegação nos menus. Grafismo desinspirado.

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REPUBLIQUE: Anniversary Edition

para Nintendo Switch, PlayStation 4

Aventura furtiva que aborda a vigilância governamental na era da internet.

Lançado originalmente:

10 de março, 2022