Se Resident Evil 7 deu um novo fulgor à série da Capcom no início de 2017, Resident Evil 2 é uma jornada pela excelência dos seus primeiros passos sem o esforço para lidar com um departamento técnico datado. Publicado originalmente em 1998, este remake que chegará ao mercado no final da semana não só é uma recomendação fácil, é também a Capcom a mostrar que afinal percebe o legado que tem em mãos e que sabe como o revitalizar.

Tal como na versão original, os jogadores aventuram-se neste mundo de jogo graças a duas campanhas que são jogadas separadamente. Os dois protagonistas, Leon S. Kennedy e Claire Redfield, têm na sua sobrevivência pontos que se cruzam, o que desde logo dá vontade ao jogador para terminar as duas campanhas, curiosos para ver até onde vão as duas narrativas quando separadas e como é que é feita a aproximação dos dois pontos de vista.

Isto faz também com que a longevidade seja considerável. Percorrendo os recantos dos cenários e demorando o meu tempo nos diversos puzzles propostos, a sua combinação demorou-me aproximadamente 17 horas a terminar. E a questão é que são horas e horas muito bem passadas, enveredando por cenários que se cruzam, que vão desbloqueando portas para facilitar o acesso, que estão pejados de itens que podem ser usados noutras áreas, revitalizando trechos que pensávamos não voltar a ver até termos explorado a 100% cada divisão - um fascínio que continua tão vivo vinte anos depois.

Analisado friamente, Resident Evil 2 não tem muitos locais diferentes, contudo, cada cenário é um emaranhado de corredores e de passagens. A Capcom sabia-o bem e torna-se imprescindível o uso constante do mapa - na versão PlayStation 4 acessível através do Touchpad do DualShock 4, com as colunas do comando a serem também chamadas à ação para, por exemplo, sublinhar as aberturas de fechaduras. Para trás e para a frente, começam-se a ganhar certezas de onde estamos, perdendo-se momentaneamente a certeza do que temos para fazer.

Não é o caso de se estar perdido, mas sim de ir procurando pistas, itens, de compreender onde os colocar. São puzzles à moda antiga, examinando itens, resolvendo enigmas por fases - sim, incluindo arranjar pilhas para o detonador, uma forma de arrefecer um tubo de ensaio. São passos que não eram necessários, mas que enaltecem o facto de Resident Evil 2 não ser um corredor apenas com sustos fáceis. Por muito backtracking que haja, enquanto o fazemos somos quase sempre recompensados com algo diferente, uma ou outra nuance que nos faz ficar agradados com o tempo dedicado à situação.

Quando cheguei aos esgotos e ao laboratório, as minhas sessões de jogo em direção ao final foram tomadas por duas sensações: primeiro a de estar numa aventura que transmite ao jogador a sensação de estar a ir a algum lado. A segunda está ligada à primeira e é a sensação de edificação sobre o que vamos aprendendo. Depois de saber que temos que examinar os itens e que temos de estudar os papéis que vamos apanhando, torna-se a natureza de cada um dar estes passos sem que o jogo precise de grandes dicas visuais para tal.

É um dos grandes trunfos de Resident Evil 2 enquanto mistura terror e sobrevivência: parece feito de uma matéria espessa, que não quebra quando o jogador aprende os seus clichés. Claro que há alguns sustos inevitáveis, mas a Capcom parece ter sempre algum truque escondido na manga para quando pensamos “e agora vai acontecer isto”. No início - e numa secção que está presente na demo - isto é possível notar com o plano apertado do maxilar em decomposição do zombie. Quando esperamos um susto fácil, eis que somos “brindados” com tecido muscular deteriorado, o esplendor de não conseguirmos desviar o olhar da carne morta. Esta toada está presente ao longo da aventura, seja nas lutas contra bosses, seja na forma como somos perseguidos, seja ainda na forma como chegamos à estufa.

Todos os cenários, mesmo o nojo denso dos esgotos, têm em comum a excelente atmosfera. Parece que fica colada à pele, levando-nos de uma perseguição memorável em que fugimos a um crocodilo - sim, esse crocodilo - para o imaculado do laboratório, apenas para percebermos que é sol de pouca dura. Lembram-se quando eram miúdos e o jogo continuava no vosso pensamento em quase todos os momentos que estavam longe da consola ou do PC? Resident Evil 2 faz isso em 2019, faz isso com uma classe impecável.

Aventurem-se por terras da Umbrella usando e abusando da vossa arma e não vão longe. Não só as munições não abundam, como o espaço que têm para as transportar não é muito. Têm acesso a caixas de armazenamento e têm também a possibilidade de expandir esse espaço na vossa cintura com bolsas, mas as quadrículas não são propriamente generosas. Combinem itens para ajudar, descartem os que já não são necessários para a progressão, mas a progressão coloca agora no vosso caminho armas que ocupam mais do que apenas uma quadrícula.

Um bom exemplo é a Matilda, a pistola com que começam a aventura. Se forem resolvendo enigmas e conjugando itens para ir desbloqueando certas partes, acabam com um monstro de arma, que encaixa no ombro e consegue disparar automaticamente. O tamanho que ocupa também aumenta. O mesmo pode ser dito da caçadeira ou do recompensador lança-chamas. Este último foi desenvolvido pela Umbrella e sempre que o usam é acender um barbecue num ápice. Churrasco de zombie pode não soar muito apetitoso, mas isso não quer dizer que não proporcione um sorriso sentido.

Enquanto estamos a lidar com itens que podem ou não fazer falta, como munições ou ervas, pode ser fácil lidar com este espaço sempre reduzido. Contudo, o verdadeiro problema chega quando temos o inventário cheio de itens que nos fazem falta e/ou que não queremos mesmo desperdiçar e nos deparamos com um item crucial para o avançar narrativo, como por exemplo o Modulador de Sinal. É uma característica do jogo, claro, mas ocasionalmente esta obrigação de termos que percorrer cenário apenas devido a este constrangimento, pode quebrar o envolvimento momentaneamente, ou melhor, pode fazer torcer o nariz. Felizmente e graças a ter demorado o meu tempo a explorar a fundo os cenários, cheguei ao final do jogo com várias Hip Pouch descobertas, ou o caso seria bastante mais grave.

Portanto, Resident Evil 2 consegue misturar ação com terror, introduzindo puzzles nos cenários e de dedução, além de presentear os convidados com zombies que de genéricos têm muito pouco. Há alguns que são o tradicional, mas esperem até lutarem contra um Licker ou contra um cão. Esperem até os vossos reflexos serem testados até ao limite, segundos antes de perceberem que mesmo que fujam, é muito provável que o Licker continue no vosso encalço. As mãos continuam no comando, mas o coração bate uns centímetros acima do seu poiso natural. São encontros memoráveis, antes e depois de medirem forças contra os bosses.

Esta tensão está presente numa grande maioria do jogo, o que nos leva não só a apreciar quando encontramos munições ou melhorias para as armas, mas também a respirar de alívio depois de mais um trecho deixado para trás, depois de mais um bocado de progressão ter sido gravada na máquina de escrever mais próxima. Não são precisos muitos minutos até perceberem que a abordagem aos combates passará muito pela estratégia, ou melhor, passará muito mais pelo cuidado e calculismo do que pontapés nas portas e fé em John Rambo.

Adaptado aos tempos modernos, a câmara agora é dinâmica e a ação é vista de uma perspetiva por cima do ombro da personagem, o que é francamente melhor do que as câmaras fixas, algo que é claramente notório em Onimusha: Warlords, por exemplo. Talvez os maiores resquícios que ficaram das suas origens em 1998 são algumas linhas de diálogo e expressões. Entre Leon e Claire, claro, mas também quando Ada Wong está em cena. Não ajuda que a forma como algum desse diálogo é dito pelos atores fique ocasionalmente aquém - há aqui várias cenas em que as emoções são, ou deveriam ser, fortes.

O argumento de Resident Evil 2 não é a sua parte mais conseguida. Além do diálogo que às vezes tropeça em expressões vulgares e repetidas, a trama não prima por chegar a píncaros. Um vírus tomou conta de Raccoon City, com a Umbrella Corporation a estar na sua origem. Leon e Claire têm motivos diferentes para estar neste local a esta hora, mas o seu derradeiro objetivo passa a ser sobreviver, enquanto tentam perceber as origens do surto ou onde é que está outro membro da família.

Cada campanha tem pontos que se tocam, como já foi mencionado, tal como a partilha de vários locais, contudo, há personagens diferentes em cada uma delas, assim como ajustes feitos ao que desafia o jogador. É provável que durante a segunda campanha que experimentem, o jogo não vos atinja com tamanha surpresa e encanto, mas ainda assim nunca chega a ser uma obrigação, mas sim um saciar da curiosidade, tal como foi mencionado no início deste texto. E quando chegarem ao final das campanhas, terão direito a um New Game [2nd Run], onde as munições são ainda mais escassas e a dificuldade é, de uma forma geral, mais exigente. Além de tudo isto, há os modos bónus com Hunk e Tofu, prolongando ainda mais a longevidade do título.

Jogado numa PlayStation 4 Pro, as texturas dos cenários, a modelagem das personagens, os efeitos aplicados à forma como os corpos vão sendo deformados pelo chumbo que lhe vai acertando, faz com que Resident Evil 2 detenha inúmeros momentos memoráveis, confrontos em que se sente bem o que duas décadas fizeram aos videojogos tecnicamente. Mas todo este esplendor técnico - que conta também com uma excelente banda sonora, nunca é apenas montra, servindo para enaltecer o cerne da jogabilidade, dando-lhe um manto com a tal atmosfera mencionada.

Resident Evil 2 funciona tão bem porque permite aos jogadores mais velhos tentarem perceber o quê e o quanto é que mudou entre os dois lançamentos, mas resulta também como um videojogo de terror e sobrevivência lançado em 2019. Ou seja, tudo isto para escrever que a Capcom fez um trabalho notório, compreendendo perfeitamente bem o que deve ser um remake, dando um novo sopro de vida a um dos principais títulos da série. Se gostaram do original ou se gostaram da demo, a obra completa não vos vai dar descanso. Mesmo com falas aquém e uma história que não fará história, o cômputo geral de Resident Evil 2 é um absoluto triunfo.