por - Jan 30, 2017

Resident Evil 7 – Análise

É de olhos baixos que relembro alguns dos momentos de Resident Evil 7. Sabia o que todos sabem: ninguém começa um videojogo desta índole à espera de um arco-íris e de campos floridos, de um sol de sorriso rasgado, mas ainda assim remembrar o que passei com a mais recente entrada na série é enveredar por caminhos obscuros, que atestam o psicopata e o louco. Os meus olhos consternados pensam nas mentes de onde tudo isto saiu. 

Começar Resident Evil 7 é ativar no subconsciente o interruptor do susto, não me preparando para o que há-de vir, mas mentalizando-me que isto não será bonito, que saltar na cadeira é corriqueiro, tão natural como engolir em seco perante o abismo – que é como quem escreve perante o corredor escuro. A Capcom sabia que a sua série estava estagnada e resolveu abanar a colmeia, agitar as águas. Correu um risco e está a colher os louros: Resident Evil 7 é o regresso, não à boa forma, mas a uma excelente forma.

Olho a Spencer Mansion do seu portão fechado, como se o terror tivesse um habitat natural e eu quisesse uma visita não-guiada. É precisamente isso que quero. Por aqui respira-se o ar de Dulvey, Louisiana. Vestimos a pele de Ethan Winters, um homem que inicialmente se pensa simples, à procura de alguém querido – Mia, a sua mulher, desapareceu misteriosamente. Deixou para trás a carta de condução e umas mensagens misteriosas no computador portátil.

Imagens Analise Resident Evil 7

Ethan está disposto a quase tudo para a encontrar, ou seja, na sua essência, a narrativa de Resident Evil 7 acaba por ser uma demonstração de amor. Claro que o protagonista descobre que a mansão não está abandonada. A adorável família Baker tem ali o seu lar onde vive uma realidade muito – muito! – distorcida. Nas suas mãos, Ethan é um joguete, uma distração que alimenta um nocivo jogo do gato e do rato que depressa passa para as redondezas da mansão.

Sem grande surpresa, os elementos da família Baker não estão num estado de espírito que lhes permita dar as boas-vindas a Ethan, apesar de nos sentarem à mesa, alimentando-nos com uma deliciosa refeição. O inevitável confronto é menos interessante do que a perseguição, a forma como transcende a mansão e vai-se mutando pelos locais adjacentes. O jogador tem uma ideia daquilo que vai ter oportunidade de explorar, mas não pensem que as primeiras horas da aventura revelam todos os locais, pois há um acontecimento – uma escolha – que nos transporta para fora do bairro onde está a casa dos Baker.

Somos sempre persona non grata, uma intromissão no seio daquela família que não tem problemas em abrir a cabeça de um polícia a meio, aliás, que sente gozo em fazê-lo. A sua intenção, independentemente do membro que vos persegue, é sempre aniquilar a vossa presença. Isto faz com que a exploração de cada divisão da mansão e dos locais adjacentes seja sempre feita com desconfiança, com a clara consciência que a qualquer momento o edifício poderá ser usado para nos engolir – o alastrar da contaminação que adopta a forma de algo semelhante a crude não ajuda.

Imagens Analise Resident Evil 7

Os puzzles e a gestão dos itens no inventário acabam por ser o mais convencional numa jogabilidade que adota agora uma perspetiva na primeira pessoa. Há divisões onde podemos esvaziar o inventário e gravar o jogo, há várias partes do mapa para ir recolhendo e consultando, há incontáveis itens para serem recolhidos, usados, combinados. Chaves, por exemplo. Ou keycards para aceder a uma nova área. Herbs, claro.

Ou seja, não pensem que a Capcom está a renunciar ao seu passado investido na série. Pensem sim que está a reformular a fórmula, a arriscar no aprimorar da identidade. Na teoria, isto tinha quase tudo para ser um obra descaracterizada, mas na prática, depois de dedicar horas e horas a esta realidade, é sim uma aposta vencedora e capaz de nos fazer sentir que estamos a jogar um Resident Evil, mas um Resident Evil que sacode a estagnação e nos convida a ir com a série para o século XXI.

O maior problema de Resident Evil 7 é o seu ritmo. Ou melhor, apesar de nunca se arrastar perigosamente, nota-se que há zonas de impacto máximo e algumas secções muito mais comedidas, o que torna a exploração mais relaxada. Enquanto jogava, comentei várias vezes com a equipa que o jogo tinha perdido o ritmo cardíaco, apenas para alguns momentos depois acrescentar que tinha recuperado o batimento. 

Imagens Analise Resident Evil 7

Francamente, o arranque é um choque pegado. Até estarmos sentados à mesa, o coração não para de saltar. Claro que não podia estar dez, onze, doze, treze horas nesta agitação. A Capcom sabe-o bem. Contudo, a execução, ainda que nunca seja um desastre, parece não saber gerir muito bem o oito e o oitenta, como comprova a exploração de um barco encalhado que, sem entrar em spoilers, reduz os sustos e a tensão, ainda que alargando o elenco. Fica a clara sensação que a produtora pensou que para darmos valor a uma cara nova não podíamos estar em posição fetal com um comando nas mãos.

Por outro lado, quando resulta – e resulta na maior parte das vezes -, Resident Evil 7, recorrendo à combinação de grafismo, design e sonoplastia, faz-nos duvidar de tudo e de todos. Em determinado momento, quando estava a correr atrás e à frente dos intentos de Lucas, o jogo ficou quase em silêncio. Mesmo sem atirar nada contra o ecrã, a minha mente estava desassoreada com o pensamento preso ao raciocínio de o jogo estar demasiado calado. Quando o jogador tem este receio, então o jogo já ganhou.

Notei um aproximar de Resident Evil às obras de terror que fizeram furor nos últimos tempos, como Outlast. O choque imediato é usado de forma inteligente pela Capcom, não fazendo escudo atrás do susto fácil e eficaz. Tal como escrevi no parágrafo anterior, há momentos que ficam na memória pela tensão, não pelo desfecho. Isto é uma forma de aterrorizar quem joga, dando-lhe um descanso que o cérebro, prestando atenção às dicas sonoras e visuais, não consegue entender como tal.

Imagens Analise Resident Evil 7

Mas o terror do jogo é também cru, é esse o melhor adjetivo. É cru e sujo, arrastando-nos para uma espiral de uma violência gráfica que justifica bem a sua classificação. Quando não nos está a assustar, a Capcom aproveita para nos enojar, para nos fazer entoar um sonoro “a sério?” em conjunto. Membros cortados, bosses cortados a meio ou com o interior exposto marcam presença, fazendo-me, por diversas ocasiões, desejar o rápido alívio do susto imediato em detrimento deste somatório asqueroso.

Enquanto progridem atrás do que aconteceu a Mia – prometo que a história explica as mensagens iniciais – vamos participando em vários puzzles que, convém acrescentar, nunca me fizeram ficar preso no cenário a questionar o QI. Um dos mais interessantes envolve: um palhaço, o dedo da edição de colecionador, um bolo de aniversário e uma tatuagem feita a sangue frio no braço de Ethan. Isto resulta porque é um puzzle com várias camadas, algo que, sinceramente, faz alguma falta a Resident Evil 7. Não era preciso ser The Witness para oferecer mais algum desafio à massa cinzenta. Esse mesmo puzzle, porém, tem no seu cerne uma vela. 

Isto para escrever que quem está à espera de desafios cognitivos desafiantes dificilmente os encontrará aqui. Parece, por diversas vezes, que os puzzles presentes no jogo são apenas uma das formas encontradas pela Capcom de relembrar os tempos idos da série, algo que não quis deixar para trás. Acredito na sua inclusão, defendendo aliás o seu expandir em futuros DLC. É um desafio que os fãs mais veteranos da série certamente sentirão falta.

Imagens Analise Resident Evil 7

Todo o meu tempo dedicado a Resident Evil 7 foi feito numa PlayStation 4 Pro, pelo que tive oportunidade de experimentar também o seu valor no PlayStation VR. Aceder a este modo é tão simples como ligar o acessório de Realidade Virtual da Sony, podendo afirmar que é um esforço louvável da Capcom. Não é, todavia, um modo para todos os jogadores.

Tal como já tinha escrito aquando da chegada do VR ao ecossistema da Sony, com o acessório na cabeça o terror é muito mais vívido, a tensão ainda mais palpável, os sustos muito mais incontroláveis. É como se tudo o que escrevi até aqui fosse ampliado por uma lupa, ou seja, vestindo um pouco mais de perto a pele de com quem estamos a jogar, é tudo mais rente à pele. O grande destaque é a possibilidade de podermos controlar a visão do protagonista com a nossa cabeça, destilando um pouco mais a barreira entre realidades.

A perda gráfica não é muito grave. Notam-se, pelo menos segundo a minha experiência, algumas linhas de píxeis que não deveriam ser visíveis, mas o quadro geral é, surpreendentemente, bom. Mesmo gostando deste género, passar uma dezena de horas a viver uma experiência deste calibre parece-me exagerado. Não me interpretem mal: este modo é válido e deverá ser experimentado por todos, mas sente-se uma exigência maior ao jogador, tanto pela tensão densa, como pelo simples facto de estarmos lá sem grande filtro. 

Imagens Analise Resident Evil 7

E por falar em grafismo, reparem que esta é uma obra bastante competente. Mais do que escrever sobre a qualidade das texturas ou das sombras ou da modelagem das personagens, Resident Evil 7 retira partido da conjugação de tudo isto para o revirar de olhos dos jogadores, para o espera lá, aquilo estava ali, para estarmos todos atentos a tudo o que nos rodeia. Esta fidelidade gráfica, todavia, torna as cenas mais gráficas ainda mais realistas, seja um corpo cortado a meio, uma mão decepada, os dois ingredientes necessários para criar o syrum, seja a Mia, que nos aproxima de um exorcismo jogável.

Na sonoplastia nota-se muito mais o ambiente, os seus sons e a suas ausências, do que propriamente a vocalização dos protagonistas. Seria interessante termos um Ethan e uma Mia mais profundos, mas aguerridos. Não é o caso, com o destaque a ser a composição dos vários membros da família Baker, as suas atrocidades, enfim, tudo aquilo que já foi escrito. Porém, a produtora usa irrepreensivelmente o som para lançar o caos, não no cenário, na nossa imaginação. 

Imagens Analise Resident Evil 7

Mesmo com os seus variados problemas, Resident Evil 7: Biohazard é uma recomendação fácil, porque no seu cômputo geral é uma sólida experiência e uma forma da Capcom rejuvenescer uma das suas séries mais queridas. Os fãs da série e do género mereciam um jogo assim, capaz de os fazerem voltar a colocar a série no topo de um género que ajudou a criar. Bem-vindo de volta, Resident Evil. Assustaste-me e enojaste-me, mas é por isso que gosto de ti, porque acima de tudo deste-me uma experiência para mais tarde recordar. Agora o desafio é pensarem numa cassete VHS sem se lembrarem dos Baker, de Ethan e de Mia. Boa sorte.

veredito

Quebrando com muitas das suas amarras, Resident Evil 7 volta a dar destaque à série, proporcionando momentos genuínos de terror, enojando noutros momentos, mas acima de tudo devolvendo o prestígio ao nome que começou a ser ecoado em 1996. 
8 Funciona muito bem na Realidade Virtual. Alguns momentos de genuíno terror. Grafismo e sonoplastia intrinsecamente ligados. Ritmo nem sempre é o mais indicado para manter o jogador interessado.

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Resident Evil 7: Biohazard

para PC, PlayStation 4, Xbox One

Resident Evil returns to its horror roots in a new first-person experience.

Lançado originalmente:

24 January 2017