Este jogo germânico, produzido por dois irmãos, Resolutiion, não mostra abertamente as suas potencialidades, tanto na narrativa como na jogabilidade. A obra da Monolith of Minds, disponível para PC e Switch, tem implícita uma forte mensagem que transmite um idealismo autoritarista, o que nos leva a questionar a natureza da nossa missão. O jogo também nos sugere se devemos ou não ser misericordiosos com os nossos inimigos, visto só morrerem após um último golpe depois de os termos deixados incapacitados.

Resolutiion é uma obra complicada de decifrar. O próprio jogo só começa quando desistem de dar pontapés numa bola de futebol para dar termo à partida que estavam a realizar com os amigos da personagem que controlam. Desistir é fácil, visto que não existe grande interatividade para além da bola para pontapear quando passam, simplesmente, por ela. Ao seguirem por um outro caminho, vão descobrir um mundo com muros e sinais decorados por uma simbologia indecifrável, com a qual é possível interagir e, por isso, é necessário alguma astúcia para perceber a mensagem que o jogo quer transmitir.

Uma vez entendido o que Resolutiion quer de nós, porque perceber uma linguagem que se revela tão ambígua - tanto nos diálogos em inglês, como nos símbolos hieroglíficos - é como tentar encaixar as peças  de um enorme puzzle nos sítios corretos. Vão ter de passar o jogo a pente fino para descobrir a verdade nos segredos que esconde. E após inspecionar uma grande quantidade de itens, diálogos, personagens e as próprias mecânicas do jogo fiquei com algumas questões filosóficas que ainda permaneceram sem resposta. Contudo, apesar  de Resolutiion querer ser inteligente e irreverente, na forma como coloca as suas questões, é na jogabilidade metroidvania que se encontra o grande divertimento desta obra alemã.

Este título independente, jogado na consola híbrida da casa de Quioto, é um jogo cheio de estilo. A movimentação e todos os outros dinamismos fluídos da nossa personagem, juntamente com uma linda direção artística, que utilizou a técnica pixel art, faz-nos recordar títulos como Superbrothers: Sword & Sworcery EP, Below e Hyper Light Drifter. Porém, não deixa de ir buscar inspirações a diversas partes da cultura popular para criar uma atmosfera única. Vê-se um mundo pós-apocalíptico em ruínas que está, lentamente, a ser reconstruído numa distopia cyberpunk; cada centímetro emana um futuro preocupante, onde reina um anarquismo que engoliu um passado com toda a violência possível. 

As personagens do jogo variam entre monges budistas embrenhados no seu trabalho, assim como animais que foram sujeitos a uma personificação que os coloca a conversar connosco, para serem um veículo de uma mensagem anti-imperialista. As criaturas inimigas têm um design simples e curioso, sem lhes faltar um estilo muito próprio. Por exemplo, num deserto inóspito há um gato que nos persegue debaixo da areia como se fosse um autêntico tubarão, escondendo as suas feições de felino adorável, que só revela quando emerge da areia para nos atacar. Há outra criatura, que também revela ter um aspeto simpático, que parece uma serpente amarela com cabeça de Pac-Man. Este estilo acaba por contrastar com o ambiente desolador do jogo para que nos mantenhemos curiosos com o que Resolutiion tem escondido.

Existem locais, como um arranha-céus em ruínas no fundo do mar ou uma floresta misteriosa, onde o vosso mapa não funciona, que apresentam uma familiaridade que reconhecemos dos metroidvania. Resolutiion abre-se ao jogadores em intervalos regulares, concedendo-lhe novas formas de jogar e outros locais para explorar. Infelizmente, temos sempre uma sensação de estarmos perdidos e é difícil sabermos para onde ir, mesmo quando vemos que há locais onde se percebe que é precisa uma certa habilidade para os abrir.

 

Saber como avançar é um autêntico quebra-cabeças por si só, contudo, à primeira vez que se sente esta dificuldade, nem sabemos que é um desafio para a nossa massa cinzenta. Alguns desses puzzles são resolvidos com uma simples observação empírica, enquanto outros têm uma solução que só é encontrada por mero acaso e é precisamente isto que nos leva à frustração. É nesta falta de comunicação, ou de claridade na mensagem transmitida, que o jogo falha redondamente. A ambiguidade não pode fazer parte da jogabilidade, quando esta nos bloqueia totalmente. 

O combate tem uma característica muito peculiar, já mencionada no início deste texto, que vos leva a serem vocês a decidir se os vossos oponentes merecem ou não morrer com um último golpe. Antes dos vossos inimigos morrerem definitivamente eles tombam, exceto se forem bosses, imóveis sem poderem mexer um único músculo. Este conceito da jogabilidade coloca-vos a questionar as vossas ações, se a balança da vossa moralidade tem algum peso relevante na narrativa. Infelizmente, como o jogo não é claro com as suas intenções, a consequência de matar um inimigo fica perdida na ambiguidade que os autores do jogo quiseram assumir. Por isso, acaba por ser irrelevante deixar viver os vossos inimigos, ou acabar com o sofrimento de quem sucumbiu aos vossos golpes. 

Há ideias e conceitos bem interessantes nesta obra alemã. Pode-se ver e sentir que houve cuidado e tato na hora de entregar um jogo que quer colocar alguma retórica filosófica. Infelizmente, aceder e apreciar esta parte do jogo é bastante complicado. Assim, o impacto que Resolutiion poderia ter, para se diferenciar da concorrência, acaba por não funcionar. Contudo, se tiverem a paciência suficiente para chegar onde Resolutiion vos quer levar, a experiência pode vir a ser interessante com uma frustração pontual.