Dado que praticamente quase todos os produtores de videojogos querem as suas criações no maior número de mercados possível, para assim atingir o nível máximo de rentabilização e criar um maior público da sua arte, a questão resume-se a apenas uma: "Que versão de um determinado videojogo devo comprar?" - tendo em conta que se possua mais do que uma plataforma em que o jogo se encontra disponível, como é claro.

O jogo em questão é Retro City Rampage: DX lançado para a Nintendo 3DS depois de já se encontrar disponível para PC e PlayStation 3 desde outubro de 2012, seguidos das versões Xbox 360 e Wii nos seus respetivos mercados no início de 2013. Porém, como o sistema da Nintendo se encontrava já em desuso, pela presença da Wii U nas lojas em todo o mundo, Brian Provinciano decidiu apostar numa nova versão para a Nintendo 3DS, que chegou à eShop no segundo mês de 2014. Como já era de esperar os jogadores que possuíam esta consola, assim como possivelmente o jogo num diferente hardware, ficaram certamente curiosos quando abriram a eShop e depararam-se com mais uma versão do jogo à venda.

Para quem não conhece o jogo, resumidamente, Retro City Rampage é uma grande paródia aos longos anos de cultura sobre videojogos que foi evoluindo com o passar do tempo. Se jogaram numa consola nos anos 80 ou 90 encontrarão facilmente referências a um dos vossos títulos que vos fez dar os primeiros passos nesta forma de entretenimento. Mas poderão confirmar cedo na aventura que foram construídas, igualmente, pequenas piadas a películas cinematográficas, banda desenhada e ao próprio jornalismo especializado em videojogos. As anedotas poderão não ser tão inteligentes ou discretas como em The Stanley Parable, mas não demorará até que Retro City Rampage vos consiga fazer esboçar um sorriso.

No seu âmago estamos perante uma obra que celebra e elogia o trabalho produzido pela Rockstar Games em Grand Theft Auto III. Brian Provinciano começou a trabalhar em Retro City Rampage, há mais de uma década, para uma versão modificada e personalizada, por ele próprio, de uma Nintendo Entertainment System. O projeto intitulava-se inicialmente Grand Theftendo, que depois veio a moldar-se no jogo aqui em análise. Isto vem deixar bem claro dois pontos. A primeira é referente aos controlos e mecânicas do jogo, controla-se de forma muito similar a Grand Theft Auto, mas em vez de a câmara estar em cima, temos uma visão na perspetiva isométrica - que faz mais sentido para podermos ter uma visão mais clara do mundo em que estamos. A segunda tem a ver com a o estilo artístico que quer simular o grafismo de uma NES em 8-bit, ou seja limitado a 256 cores.

A história está recheada de uma boa dose de loucura. Vocês controlam Player, um bandido que presta os seus serviços a contrato, que num certo dia tem o azar de viajar no tempo quando se tentou esconder da polícia após uma sucessão de crimes que não correram como planeado. De missão em missão - mais de sessenta - Player terá de recuperar um punhado de objetos para que Doc Choc (sim, uma referência a Regresso ao Futuro) consiga reparar a máquina do tempo e permitir que Player regresse à sua época. Como o referi anteriormente, o jogo funciona como um GTA de uma forma geral, misturado com pequenas alterações à jogabilidade em situações pontuais. Por vezes terão de jogar Retro City Rampage como um jogo de plataformas, de corridas ou de combate. Infelizmente, raramente como um jogo de puzzles. Ao longo da progressão a dificuldade evolui irregularmente. Serão servidos por momentos particularmente exigentes e frustrantes, como terão alguns níveis, inexplicavelmente, demasiado fáceis.

A jogabilidade é compreensível e funcional, mas não acrescenta grande valor à versão 3DS. Em comparação com as outras versões já disponíveis para outros sistemas, têm no ecrã inferior um mapa maior e de leitura imediata e a possibilidade de selecionarem a vossa arma mais rapidamente. Os controlos são confortáveis, porém, achei estranho mover a minha personagem com o botão deslizante - a cruz direcional faz muito mais sentido e menos confusão. A condução dos veículos requer alguma habituação e quando controlarem-nos como um verdadeiro piloto ainda vão se divertir ainda mais com alguns especiais que atingem velocidades alucinantes, ou que são verdadeiras máquinas de guerra. A joia deste jogo é o combate, nomeadamente as armas disponíveis. Ceifar vidas inocentes com a foice da Morte ou andarem a lutar com o escudo e espada como se habitassem o mundo de Zelda. Provinciano não se esqueceu de incluir o principal ataque da estrela da Nintendo, saltar em cima dos inimigos ou civis também serve de ataque.

Apesar de a história não ser complexa ou extremamente sentimental, como é moda nos últimos lançamentos no mercado das consolas e na cena indie no PC, o produtor introduziu inúmeras referências à cultura pop e aos videojogos numa aventura humorística. Sempre que não fico bloqueado numa determinada missão, ando à caça de indícios de videojogos quando estes não estão descaradamente apresentados. Os jogos mencionados são tantos que podia encher um bom parágrafo a enumerar cada um deles, mas a descoberta pessoal é mais recompensadora do que estar aqui a estragar-vos a surpresa.

Um dos aspetos mais bem conseguidos deste título é a forma como conseguiu evocar a nostalgia de títulos Nintendo, através dos seus visuais 8-bit. É incrível como o efeito foi tão bem executado. E se quiserem ainda podem brincar com as definições e dar o aspeto de outros sistemas, como um grafismo assente num filtro vermelho como se tivéssemos a jogar num Virtual Boy. O som também não foi esquecido de ser coberto com uma camada de nostalgia. Todos os efeitos sonoros, assim como a música de Retro City Rampage, colaboram na autenticidade do jogo, fazendo-nos crer que estamos a segurar um Game Boy Color, ou que estamos a jogar um título da Consola Virtual. E como as músicas são tão boas, aconselho-vos explorarem cada uma delas na estação de rádio incorporada no jogo enquanto dão uma volta por Theftropolis.

Esta trata-se da versão DX, algo que Provinciano sublinhou no anúncio do jogo para a 3DS. Mas o que significa? De uma forma geral este DX vem colocar uma questão aos jogadores para estarem atentos e curiosos para procurarem informação sobre o jogo, pois o que realmente significa é que esta versão foi aprimorada para o sistema a que se destina.

O que importa realmente é se este título deve ou não ser adquirido pelos jogadores. E estes podem dividir-se em dois grupos: os que nunca jogaram o título e os que já o jogaram mas têm dúvidas se esta versão contém algo de substancial que merece ter um novo investimento. A resposta é simples: se já jogaram Retro City Rampage não existe um grande motivo para o fazerem novamente; se nunca tiveram em mãos esta obra nostálgica então agora têm uma boa razão para o fazer por apenas €8,99. E não se deixem enganar pela quantidade mínima de blocos que ocupará no vosso cartão, aproximadamente 130, esta é uma grande paródia que consumirá dezenas de horas do vosso tempo livre para vos entregar uma boa dose de humor e diversão.