As mitocôndrias e as células eucarióticas vivem numa concisa relação simbiótica. Enquanto que a célula eucariótica fornece à mitocôndria um local seguro e alimento para viver, a mitocôndria, por sua vez, fornece energia à célula sob a forma de ATP. Este é apenas um mero exemplo de simbiose, a principal força motora de Reus, um novo título em que assumimos o papel de Deus.

A Abbey Games, produtora holandesa, esteve aproximadamente um ano a desenvolver Reus, inspirando-se em grandes clássicos como Black & White, Civilization e ainda Populous, em que vestimos o papel da Mãe Natureza, Deus ou um de um ser divinal, para comandar os habitantes de um território. Foi uma grande surpresa saber que este género ainda não foi esquecido, porque há um certo prazer quando temos o poder de criar vida e decidir o seu rumo. From Dust foi último título desta categoria que experimentei e, finalmente, agora poderei voltar a saciar a minha vontade de poder ser uma divindade e poder fazer evoluir o meu povo através do tempo.

Reus - que significa gigante em holandês - é jogado numa perspetiva bidimensional, com a circunferência do nosso planeta no plano de jogo, ou seja esta é a área onde iremos alterar e criar fauna e flora ao nosso bom gosto. Temos ao nosso dispor quatro gigantes, cada um com um aspeto dos elementos naturais que controlam: existe uma espécie de árvore que controla a vegetação; uma montanha que controla os minerais; um monstro lodoso que tem o poder associado a tudo que é tóxico e exótico na natureza como também plantas e animais dos pântanos; e por último, um caranguejo que detém o domínio da água e dos animais de consumo doméstico. Cada um deles pode, e deve, invocar um dos três diferentes tipos de terreno (desertos, florestas e pântanos) - à exceção do caranguejo que só cria oceanos - para que sejam instituídas as condições para três cidades diferentes entre si.

Reus é um título que é para ser saboreado lentamente e a cada nova sessão iniciada, a sua intensidade e duração aumentam à medida que são atingidos objetivos. Este título é centrado na conclusão de metas, que consequentemente nos dão acesso a novos e refinados poderes para possamos chegar a novos patamares de experiência. Comecei a escrita desta análise com a explicação de uma simples simbiose, porque esta será a mecânica mais útil do jogo se quiserem que os vossos aldeamentos progridam e se transformem em grandes cidades. Na prática isto funciona da seguinte forma: à medida que vão ocupando terreno com plantas, animais ou minerais, deverão sempre ter em atenção com que tipo de relação simbiótica é que efetuam. Uma vez conhecida e cumprida esta função, os terrenos tornar-se-ão mais fertéis produzindo uma maior quantidade de recursos.

Sempre que encetamos uma nova partida e a nossa primeira aldeia é estabelecida, as gentes que povoam estas localidades constroem monumentos ou edifícios com propriedades especiais e, como é vosso dever como ser todo poderoso, têm de fazer com que esses projetos atinjam a sua conclusão no tempo pré-definido para que possam usufruir das suas funcionalidades. Pode não ser fácil chegar ao seu fim, mas quando o conseguirem, através da mistura das várias habilidades dos gigantes, terão uma cidade mais próspera e com um crescimento mais acelerado. No entanto, quando as cidades são um pouco pequenas ao início, às vezes damos por nós a eliminar determinados tipos de recursos em detrimento de outros que são necessários nesse preciso momento, que mais tarde serão igualmente necessários para o desenvolvimento das metrópoles. Isto faz com que por vezes cheguemos a um ponto de saturação, pois precisamos de bastante comida para para alargar os limites das localidades, fazendo com que as aldeias crescem a um ritmo demasiado lento.

Quando temos as mecânicas bem sabidas, que são muito bem ensinadas por um capítulo introdutório, Reus joga-se com muita fluidez e com poucos momentos mortos. Em qualquer altura podemos iniciar uma partida com tempo infinito, mas é preferível que seja apreciada quando já tivermos acesso a novas tecnologias e poderes dos gigantes para esta ser o mais variada possível.

No domínio gráfico, a Abbey Games fez uma boa escolha ao enveredar por visuais que nos fazem lembrar uma pintura colorida. Estes comportam-se muito bem, sem exigir muitos recursos do computador, podendo ser assim experienciado por um maior número de jogadores. Quanto ao capítulo da sonoplastia, não será por esta componente que terão vontade de voltar a Reus. Aqui foram apenas cumpridos os requisitos mínimos com uma música ambiente que põe um tom calmo ao jogo.

Reus é uma boa entrega na categoria dos "God Games". Há muito tempo que os jogadores não podiam pôr as mãos num título deste género, o que acaba por ser bastante gratificante por si só. Aqui está, provavelmente, um concorrente sério a Godus, o aguardado sucessor espiritual de Populous, criado por Peter Molyneux, em produção na 22 Cans. Talvez assim a produtora britânica sinta a necessidade de se esmerar e produzir algo nunca antes visto. Se comprarem Reus, por apenas 9,99 euros, não ficarão insatisfeitos, há diversão que chegue para umas boas dezenas de horas.