Há jogos assim. Jogos que começam de forma algo inócua e desinspirada, que se vão finalmente revelando com o acumular de horas no relógio, concretizando tardiamente o seu potencial. Reverie, o título de ação e aventura da Rainbite Limited, é um desses jogos, uma obra que começa por nos captar a atenção graças ao seu estilo visual retro e tom pitoresco da aventura, mas que desde cedo nos vai dando sinais de ser uma experiência demasiado simplista, sem grande profundidade.

Esse é, aliás, o principal defeito deste título, isto é, as suas primeiras horas pouco memoráveis dão-nos uma falsa ideia sobre aquilo que a obra será capaz de nos proporcionar na segunda metade da sua campanha. É certo que Reverie nunca se torna uma experiência de elevada complexidade, mas também não é tão acessível e fácil de superar como por vezes parece. Sim, o combate é pouco exigente e, embora possam utilizar diferentes armas, conseguirão facilmente ultrapassar todos os inimigos - com exceção para os Bosses - através do martelar do botão de ataque, mas não é aí que o título mais brilha.

Reverie Imagens Analise

Não, o jogo está no seu melhor quando coloca o sentido de aventura no cerne da campanha. A história não assume um papel de grande destaque, pelo que é através da exploração do seu mundo de jogo e das suas masmorras que a obra melhor consegue oferecer essa sensação de que estamos numa aventura maior do que o tamanho do jovem que serve de protagonista à narrativa. Contudo, essa exploração apenas ganha mais importância quando o jogador desbloqueia os itens necessários para chegar a locais anteriormente inacessíveis.

Seja na exploração da ilha neozelandesa ou no interior das masmorras, Reverie tem neste sistema de progressão o principal motivador para o jogador. Descobrir todos colecionáveis espalhados pelo mapa, participar em atividades secundárias como um jogo de Air Hockey contra um microondas possuído ou tentar bater a pontuação máxima num jogo presente no salão de arcadas são pedaços de conteúdo opcional que ajudam a dar charme ao título que bebe inspiração em Earthbound e nos títulos primordiais de The Legend of Zelda.

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No entanto, é no interior das masmorras e na forma como o jogo utiliza a introdução de novos itens para ir progressivamente testando cada vez mais a massa cinzenta do jogador através dos quebra-cabeças que travam a sua progressão. Alvos para serem atingidos com dardos, blocos ou pedras para ativarem mecanismos de peso ou bloquear lasers, utilizar o ioiô para ativar alavancas mais longínquas, enfim, as possibilidades são muitas e mesmo que a fórmula se mantenha constante, isso não impede os quebra-cabeças de nos deixarem presos durante vários minutos a tentar descobrir como fazer com que todas estas peças encaixem numa solução.

É verdade que ficar preso demasiado tempo sem progredir nunca é divertido e provoca quebras no ritmo de jogo que são sempre de evitar, ainda assim, tendo em conta a falta de desafio em praticamente todos os restantes departamentos da obra, percebe-se que a produtora tenha optado por utilizar este puzzles para fazer suar um pouco os seus jogadores. Cada uma das masmorras termina também com uma batalha contra um Boss e também aqui o desafio assenta em descobrir a forma mais eficiente de provocar danos ao inimigo do que propriamente em evitar os seus ataques. São os momentos mais interessantes de combate, mas não esperem grandes picos de dificuldade.

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Como já referi, a história apesar de uma premissa interessante baseada no mito de Maui e do Giant Fish que explica como um semideus e seus irmãos pescaram uma ilha do fundo do oceano, nunca se transforma em algo de grande destaque. Amaldiçoada pelos espíritos daqueles que a pescaram, caberá ao jovem protagonista investigar a ilha e colocar os seus espíritos finalmente em paz. Essencialmente, é uma narrativa que serve sobretudo para dar contexto às nossas ações e pouco mais, o que é uma pena.

Relativamente ao departamento técnico, Reverie destaca-se sobretudo pelo seu estilo visual retro que faz lembrar os clássicos do passado, embora com um colorido bem mais vivo e diversificado. Os inimigos não são muitos, mas o seu design encaixa perfeitamente no tom da experiência. Por sua vez, a banda sonora, mesmo sem brilhar, faz mais do que suficiente para acompanhar de forma competente a aventura, adaptando-se à área da ilha ou masmorra em que nos encontramos.

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Reverie não é brilhante, nem tem a mesma magia dos títulos em que se inspira, mas é bastante mais interessante do que as primeiras horas deixavam antever. Jogado numa PlayStation Vita, este é de facto um jogo que assenta na perfeição numa portátil e que pode facilmente ser desfrutado através de curtas sessões de jogo. Os puzzles que caracterizam as suas masmorras, especialmente na segunda metade da campanha, são o principal de uma obra que peca por ser muitas vezes demasiado simplista.