Foi um árduo e atribulado caminho aquele que Rise of the Tomb Raider teve de percorrer até chegar à consola da Sony. Exclusividades mal explicadas levaram à ira de muitos jogadores e voltaram a fazer da Microsoft a vilã da história, quando o objetivo era precisamente o contrário, ou seja, tornar a Xbox One um local mais apelativo para aqueles que ainda não tinham sido convencidos a adquirir a consola. Aclamado pela crítica aquando da sua chegada ao mercado no final de 2015, o título da Crystal Dynamics chega agora à PlayStation 4, bem a tempo de celebrar o seu 20º aniversário.

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Independentemente da qualidade, ou falta dela, dos inúmeros títulos que chegaram a ameaçar o seu futuro e obrigaram a produtora a um reboot total da série, Lara Croft conseguiu sempre conservar o seu estatuto de ícone da indústria dos videojogos, muito graças ao facto de ter sido uma das primeiras personagens do sexo feminino a protagonizar uma série de enorme popularidade. Rejuvenecida e, discutivelmente, melhor do alguma vez tinha conseguido ser no passado, Tomb Raider volta agora a ser sinónimo de qualidade e de experiências capazes de elevarem o género em que se incluem a patamares mais elevados.

Seguindo novamente a nossa antropóloga favorita - desculpa "Bones" -, a sequela do excelente título de 2013 volta a colocar Lara Croft em maus lençóis, abandonando a ilha amaldiçoada de Yamatai pelo ambiente gelado e pouco convidativo da Sibéria. Motivada pela vontade de limpar o nome do seu pai e comprovar a veracidade das suas afirmações, a protagonista parte em busca da cidade perdida de Kitezh e da Fonte Divina, um artefacto do qual se diz ser capaz de garantir a imortalidade daqueles que entrem em contacto com o mesmo.

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Sem grandes surpresas, para além das condições meteorológicas adversas, a missão de Lara contará com vários obstáculos, incluindo Trinity, uma sociedade secreta liderada por Konstantin e que procura utilizar os poderes do artefacto para liderar um exército imortal capaz de fazer frente a qualquer oponente. Com a ajuda de alguns aliados pelo caminho, a aventura da protagonista está recheada de peripécias e reviravoltas que prometem manter o jogador investido na narrativa, mesmo quando esta falha em praticamente todos os departamentos.

Tal como o seu antecessor, a narrativa de Rise of the Tomb Raider sobrevive muito à custa de Lara Croft, uma protagonista de qualidade e com a qual o jogador se pode identificar, mas que, mais uma vez, volta a ser a única personagem interessante e digna desse estatuto em todo o jogo. O vilão volta a ser um aglomerado de estereótipos com motivações fracas e objetivos ridículos que quebram por completo a abordagem mais realista que estas duas obras procuram dar às aventuras da protagonista. A escrita deixa igualmente a desejar nos seus diálogos, com várias linhas pouco inspiradas, e no próprio desenrolar dos acontecimentos, com reviravoltas previsíveis, personagens secundárias que apenas servem para avançar a narrativa e um recorrer em demasia aos clichés habituais deste género de histórias.

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Com todas estas deficiências no departamento narrativo, não deixa de ser curioso o facto do título contar histórias bastante interessantes através dos seus colecionáveis - mais de duas centenas - espalhados pelas várias áreas que compõem o mundo de jogo. Seja relíquias de uma civilização passada, diários de áudio de várias personagens, algumas das quais nunca chegam a ter tempo de ecrã, e outros documentos que fornecem mais informações sobre o mistério em questão, Rise of the Tomb Raider tem nos seus colecionáveis - todos eles, felizmente, vocalizados - os momentos de maior inspiração para aqueles que procuram uma narrativa mais condizente com a qualidade dos restantes departamentos da obra.

Se a escrita volta a ficar aquém das expectativas, a jogabilidade da nova versão de Tomb Raider criada pela Crystal Dynamics permanece imaculada e uma das experiências mais satisfatórias e divertidas de se jogar na atualidade. Em vez de reinventar a roda, Rise of the Tomb Raider preocupa-se em trabalhar os elementos de eficácia comprovada até à perfeição para que, quando todos estiverem a trabalhar em conjunto, o resultado final apresente a elevada qualidade que lhe é esperada.

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Mais uma vez equipa com o seu fiel arco e flecha e com várias armas de fogo, Lara Croft voltará a participar assiduamente em situações de combate, sejam eles momentos de ação furtiva com recurso ao arco e flecha, combate corpo-a-corpo brutal com a ajuda da picareta que auxilia os vossos momentos de escalada ou tiroteios com uso de cobertura. Mas mais do que a qualidade individual de cada um destes elementos, é nos momentos em que somos forçados a utilizar as três tácticas de forma sequencial que se percebe o quão satisfatório é qualquer uma das abordagens aos inimigos.

Para além disso, Rise of the Tomb Raider coloca também um foco maior no crafting de munições e de medicamentos para restabelecer a saúde de Lara durante o combate. Através da recolha de madeira e plantas medicinais presentes no cenário, o jogador poderá produzir, com o premir de um único botão, mais flechas e medicamentos caso necessitem. O mesmo serve para o aproveitamento de garrafas de vidro e latas para a produção de cocktails molotov, granadas explosivas ou granadas de fumo. Caso não tenham os recursos necessários para produzir estas armas, podem sempre utilizá-los como distrações sonoras aos inimigos.

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Ainda no combate, as novidades não se ficam por aqui, uma vez que Lara Croft está agora equipada com diferentes tipos de munições, sejam elas capazes de libertar gás venenoso, provocar explosões consideráveis ou incendiar os alvos. Habilidades como estas vão sendo desbloqueadas através do progresso na campanha ou através da sua aquisição na extensa árvore de habilidades que volta a estar dividida em três categorias: Sobrevivência, Caçador e Lutador. Será difícil, senão mesmo impossível, amealhar pontos de experiência suficientes para adquirir todas as habilidades antes de concluir a aventura, pelo que é importante escolherem aquelas que representarão uma maior ajuda ao longo do título.

Mas como não só de combate se faz um bom título da série Tomb Raider, pelo que a exploração, as plataformas e os puzzles regressam para garantir que a jogabilidade nunca se torne repetitiva e que seja capaz de variar o seu ritmo para oferecer momentos de maior acalmia. Embora se apresente como uma experiência linear, a grande dimensão das áreas exploráveis e o número gigantesco de segredos para desvendar, incluindo os túmulos opcionais onde se concentram praticamente todos os quebra-cabeças da obra, faz com que a exploração seja altamente satisfatória e recompensadora. Os já mencionados colecionáveis são interessantes e motivam o jogador a fugir ao caminho pré-definido para a próxima missão principal da narrativa. Como seria de esperar, existem zonas que estão barradas por obstáculos aos quais terão de regressar mais tarde e fazer uso de novas habilidades entretanto adquiridas.

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Como compensação pelo atraso de um ano na chegada à PlayStation 4, a nova versão de Rise of the Tomb Raider conta com todos os pacotes de conteúdo adicional lançados para a obra durante este último ano, incluindo a bastante interessante missão de história que explora a veracidade do mito de Baba Yaga. Croft Manor, conteúdo narrativo que pode inclusivamente ser jogado com o PlayStation VR, oferece uma experiência completamente diferente do resto do título, focando-se numa história contada totalmente através de documentos e relíquias. Ainda à vossa disposição têm o modo de desafios Endurance, que pode ser jogado em modo cooperativo, e ainda uma curta missão que coloca Lara contra zombies que invadiram a Croft Manor.

No departamento gráfico, Rise of the Tomb Raider é um jogo extremamente bonito que, apesar de não apresentar o mesmo poderio na PlayStation 4 que demonstrou quando chegou em exclusivo à Xbox One, produz inúmeros momentos de enorme beleza e com uma diversidade assinalável de cenários. Sim, o jogo não se fica por ambientes gélidos e pelos escuros túmulos à espera de serem saqueados.

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Os modelos das personagens são outro dos pontos altos do departamento técnico da obra, embora o fraco sincronismo das linhas de diálogo e do movimento dos lábios seja por vezes demasiado notório para ser ignorado. Já a banda sonora orquestral possui a qualidade que seria de esperar de um título desta dimensão, sendo capaz de se adaptar com eficácia aos diferentes momentos do jogo e ritmo da ação.

Em suma, Rise of the Tomb Raider é um dos melhores títulos de ação e aventura dos últimos anos e tem a sua presença claramente assegurada na lista das obras de maior qualidade da atual geração de consolas. Pode não fazer muito para revolucionar a jogabilidade que apresentou no reboot de 2013, mas faz o suficiente para assegurar que todos os momentos de ação e que todos os elementos que compõem a jogabilidade funcionam na perfeição e mantêm o jogador interessado e motivado para continuar a jogador. A escrita volta a ser um problema desta versão repensada das aventuras de Lara Croft, um problema que merece ser corrigido, tendo em conta o potencial para histórias interessantes que evitem os clichés em que a Crystal Dynamics teima em cair.