River City Girls consegue atingir o seu propósito: levar os jogadores a sentirem-se de volta aos salões de arcada. A WayForward assina assim um jogo de luta que se presta bem à partilha e que constrói um mapa em cima de um sistema de combate que, mesmo sem fazer escola, vai evoluindo com o tempo dedicado ao título.

Sem perder grande tempo no que a arcos narrativos diz respeito, o jogo começa com Kyoko e Misako, as suas protagonistas, de castigo na escola. Recebendo uma mensagem a informar que os seus namorados foram raptados, a dupla parte à conquista do mapa, realizando inúmeras missões que revelam pistas sobre o paradeiro dos namorados.

Durante a minha travessia dos vários distritos da cidade, deixei para trás incontáveis inimigos, com algumas das áreas a serem bloqueadas até que todos os inimigos sejam derrotados. Sente-se um esforço para que o leque de obstáculos seja variado, desde polícias a rapazes de fato e gravata, passando por um adversário numa missão secundária que nos mata com um golpe ou por raparigas que usam e abusam do seu chicote ou por homens musculosos numa clara caricatura de Arnold Schwarzenegger.

Não é só a sua aparência que é diferente, os ataques também são e exigem atenção e adaptação por parte do jogador. Há inimigos assentes nos ataques pesados, enquanto outro são esguios e muito mais difíceis de atacar. Durante estas incontáveis lutas é colocada em evidência uma das mecânicas que vale a pena ser mencionada: ocasionalmente, quando estão prestes a morrer, alguns inimigos pedem misericórdia. Se não os matarem eles fazem parte da vossa equipa temporariamente e podem ser chamados em situações de emergência, acertando um ou dois golpes e saindo de cena.

Para defrontar estas hordas de inimigos, as heroínas têm inicialmente um ataque rápido, um ataque mais pesado, assim como a possibilidade de atacar a correr e depois de saltar. Todavia, River City Girls conta com um sistema idêntico a um Role Playing Game, ou seja, além do dinheiro conquistado nos confrontos, há também experiência que, eventualmente, serve para subir de nível. A experiência chega também, por exemplo, quando se realizam tarefas secundárias, como destruir carros, derrotar membros Yakuza ou encontrar umas chaves no meio do lixo, entre outras.

Sem grande surpresa, com a subida de alguns níveis chegam também novos movimentos que podem ser aprendidos visitando o Dojo. Depois de desbloqueado é preciso, porém, aceder ao telemóvel e consultar a lista de movimentos para saberem como o fazer. O jogador que quiser metralhar apenas um botão, poderá certamente fazê-lo, mas entre ataques convencionais, aéreos e especiais, River City Girls apresenta uma lista de movimentos que evita que o cansaço se instale precocemente.

Podem - e devem - estar atentos às várias lojas espalhadas pela cidade, pois é aqui que, além de conhecerem algumas das personagens mais pitorescas da obra, podem também comprar itens e até comida que evitam que o jogo se torne demasiado complicado. É um esquema que força os jogadores a não seguirem sempre em frente, explorando a cidade enquanto se deslocam em várias direções.

Acessórios como kits de maquilhagem (mais 5% de dano quando lutam contra inimigas), leitor de música (mais 10% de dano quando uma música da NOIZE [uma personagem da obra, que se apresenta como boss na sua recta final] está a tocar) ou uma bolsa para as moedas (5% de hipótese de receberem dinheiro a duplicar de cada inimigo), entre muitos outros, são variantes que quando somadas fazem a diferença. Obviamente, terão que saber fazer a sua conjugação, uma vez que não podem equipar todas ao mesmo tempo.

Outras lojas servem várias iguarias que depois de compradas podem ser adquiridas de imediato, caso precisem de mais energia no momento, por exemplo, ou armazenadas para consumo em momento mais oportuno. Por exemplo, contra os bosses, ajuda que tenham vários alimentos armazenados, especialmente se tivermos em consideração que são confrontos por fases. Uma quiche, por exemplo, recupera 45% da energia. Se forem preparados com meia dúzia, é fácil perceber que a gestão do dano sofrido pode ser feita com muito mais fôlego.

Tal como nos movimentos que usam, também nos itens que compram sente-se que a produtora quis colocar nas nossas mãos várias oportunidades e a responsabilidade de experimentar até decidirmos qual é a melhor combinação para o nosso estilo de jogo. A exploração da cidade também fica a nosso cargo, ou seja, para retirar o máximo da obra é preciso estudar o mapa, participar em missões secundárias e ter vontade para explorar as diferentes áreas.

Ainda que os inimigos voltem a aparecer em cada secção, sente-se um pouco um backtracking excessivo, ficando a sensação que o posicionamento de certos objectivos foi pensado para aumentar artificialmente a longevidade da obra que, importa mencionar, apresenta o tal cenário explorável que engloba várias partes da cidade, mas não é assim tão grande quanto a teoria pode inicialmente fazer parecer. É, todavia, generoso para uma proposta deste género.

Como provavelmente já tiveram oportunidade de perceber graças às imagens que acompanham este texto, River City Girls é uma obra em duas dimensões. Graças a isto, algumas mecânicas são rombas. Por exemplo, quando jogado em modo cooperativo local, quando um dos participantes morre, a sua alma sai lentamente do corpo. Durante esses segundos, o segundo jogador pode evitar a morte se pressionar repetidamente o triângulo. Há um problema: o triângulo é também usado como parte da lista de movimentos de ataque.

Há também cenas que decorrem inevitavelmente junto dos extremos do ecrã, com o botão para sair da área a ser também usado nos movimentos, o que promove algumas saídas breves de cena. Não é nada que mine por completo o que se retira do jogo, mas é verdade que estes comportamentos involuntários repetidos incontáveis vezes acabam por se tornar irritantes. Tal como é, por exemplo, uma área cheia de inimigos obrigatórios logo a seguir a um boss - num momento em que estamos cheios de dinheiro e que se morrermos perdemos uma boa percentagem. Parece uma tentativa injusta de fazer o jogador ver parte dos despojos acabados de conquistar desaparecer.

Mas um dos maiores problemas que me afetou o tempo dedicado a River City Girls está relacionado com o seu departamento técnico. Enquanto jogava, vi a versão PlayStation 4 ser assolada por um ecrã azul, enviando-me para o menu da consola e corrompendo o ficheiro com o progresso feito até então. Posteriormente, a obra tornou a apresentar um erro com ecrã azul, ainda que desta vez o ficheiro tenha ficado intacto. Isto é grave, pois além de mostrar fragilidades, mina a confiança que o jogador tem na obra, nunca sabendo se e quando a obra vai ser encerrada.

Este departamento técnico, porém, tem também direito a um destaque positivo, uma vez que o grafismo e a banda sonora são assinaláveis. Os cenários pixelizados têm carisma e dão uma identidade própria à obra. As montras, por exemplo, apresentam detalhes no que vendem, servindo de fundo às batalhas. Há uma breve visita a um areal, onde podemos aniquilar inimigos com um peixe, mas passamos também por jardins com cerejeiras em flor e cenas onde o lixo se vai acumulando.

No fundo, são cenários pensados desde o primeiro momento com segurança e com uma sensibilidade notável no que ao design e aos pormenores diz respeito. Mesmo as personagens são interessantes, fazendo-nos parar para admirar as intrincadas camadas visuais na modelagem dos inimigos e, ainda mais veemente, dos bosses.

É uma atenção incansável aos detalhes que se prolonga aos confrontos contra os bosses. São lutas em que temos que estudar os movimentos do adversário, aprendendo-lhe os truques que tornam cada cena memorável e diferente do confronto anterior. Por exemplo, o combate contra NOIZE decorre durante um dos seus concertos e pelo meio há uma cena que faz lembrar Guitar Hero, mas onde temos que nos desviar das partes em movimento em vez de lhes acertar.

A banda sonora contribui bem para o tema juvenil, ficando apenas aquém no número de músicas diferentes que oferece. Ainda assim, os temas que oferece são memoráveis e enquadram-se bastante bem nas cenas de ação. Além disso, a vocalização faz um trabalho assertivo, mesmo quando está a dar vida a personagens que tiram a paciência a um santo, tanto nas frases que dizem, como na forma como as mesmas são verbalizadas.

Quem tiver disposto a dedicar algum do tempo passado com River City Girls a aprender o jogo como um todo retirará algumas horas memoráveis do jogo de luta, especialmente se tiverem um amigo ou familiar com quem possam partilhar a experiência localmente. A espinha é o combate, que graças a inúmeras atualizações não apresenta tudo o que sabe nos momentos iniciais. Tenham apenas ateção ao vosso ficheiro de gravação, não vá a obra resolver obliterá-lo.