Filipe Urriça por - Apr 5, 2022

River City Girls Zero (Switch) – Análise

Os jogos de luta, especificamente os que são do estilo beat’em up, como os clássicos da série Double Dragon, onde têm de combater incessantemente inimigos que aparecem pelos lados do ecrã, na época em que reinavam a NES e a Master System, eram jogos difíceis que divertiram o suficiente para uma tarde bem passada com amigos. Com o regresso de Streets of Rage, a quarta entrada na série trouxe esperança para o género, abrindo a janela para um horizonte promissor para quem queira criar jogos similares. Por muito que seja louvável trazer para o presente jogos de um pretérito estrangeiro, River City Girls Zero só esteve disponível no Japão com a nomenclatura Shin Nekketsu Kōha: Kunio-tachi no Banka, se as mecânicas não forem atualizadas os jogadores vão acabar por sofrer com as mesmas frustrações do passado.

A WayForward adaptou um jogo com bastante valor histórico, até porque é a primeira vez que River City Girls Zero sai da sua terra natal. A produtora da série Shantae fez um excelente trabalho de localização, onde até mantiveram uma linguagem que possa ser considerada ofensiva. É curioso que, caso o pretendam, podem escolher a linguagem original com todas as expressões e termos que possam ofender, assim como podem optar por uma tradução mais limpa, sem o vocabulário e conjuntos de palavras que hoje são considerados uma ofensa para uma geração que se sensibiliza sem procurar perceber o contexto ou a cultura do país de origem do jogo. Por isso, o trabalho desenvolvido pela produtora norte-americana em ter este cuidado na tradução, ou melhor, na localização, é de louvar.

O jogo tem uma narrativa que nos faz sentir desconfortáveis de tão estranha que é, pois temos jovens angustiados e que se enervam com pouco e que procuram vingança por razões irrisórias. Nota-se e muito bem que estamos perante um trabalho nipónico, porque estão lá muitas das características típicas das narrativas vindas do país do sol nascente. Um par de rapazes delinquentes foram injustamente condenados para passarem alguns meses num estabelecimento prisional, por isso fogem e regressam à escola para descobrirem quem lhes tramou a vida.

A vingança destes dois amigos vai ser servida à força de murros e pontapés, ou não fosse este um beat’em up old school. Nós vamos controlar um destes dois rapazes, ou uma das suas respetivas namoradas, para levar os verdadeiros responsáveis pela condenação dos nossos heróis à justiça e voltarem, finalmente, a serem os arruaceiros rebeldes que sempre foram. No fundo, esta narrativa tem interesse pelo seu contexto nostálgico, onde os heróis eram crianças que agiam como autênticos adultos com uma imaturidade evidente.

Como seria de esperar, esta obra é um beat’em up com multijogador local. Sinceramente, é muito mais divertido jogar River City Girls Zero com amigos do que sozinho, porque assim podemos partilhar as nossas frustrações com alguém e já não temos de sofrer na solidão. Este jogo da WayForward é frustrante, a enorme repetição das ações de qualquer uma das personagens é motivo suficiente para sofrermos frustração dado que estamos demasiado limitados, até para um jogo antigo como este. É uma obra que perde por ser demasiado arcaica no que toca à jogabilidade. Os nossos golpes principais resumem-se a murros e pontapés e a dois ataques especiais efetuados com pressionar do botão L e com um dos botões que nos permitem atacar com as mãos ou os pés. Estes ataques especiais conseguem ser uma salvação para sair de situações mais perigosas, visto que é muito frequente ficarmos encurralados por dois ou mais inimigos. Embora estes golpes adicionais introduzam alguma variedade, não são estes que vão salvar a experiência da repetição.

Durante qualquer altura do jogo, podemos trocar instantaneamente de personagem, apesar de não haver nada de muito significativo que os diferencie para fazermos uma troca com o intuito de variar a jogabilidade ou, porventura, podermos utilizar uma nova tática que nos permita ter uma nova abordagem no combate conforme os inimigos que aparecem. Jogar com uma personagem ou com outra vai dar ao mesmo, porém, convém efetuar uma troca quando a barra de saúde está a chegar ao fim. Esta é o único motivo e utilidade para a troca ser feita.

Caso não façam a troca de lutador atempadamente perdem e têm de recomeçar a partida desde o último ponto de gravação automático do jogo – felizmente nunca são feitos muito longe de onde sucumbiram. Por isso, quando virem que a personagem que estão a utilizar está prestes a falecer, troquem para outra com a barra de saúde cheia e continuam, sem problemas, a vossa aventura. Portanto, ter quatro personagens disponíveis, neste jogo da WayForward, é como ter uma barra de saúde quatro vezes maior do que o que parece, mas que tem que ser bem aproveitada, o que se traduz em sessões que não podem envolver grandes riscos.

Além do ato de combater ser muito repetitivo, infelizmente não há mecânicas que deem a frescura e o vigor que o jogo tanto necessita, os modelos dos inimigos são todos muito parecidos uns com os outros. Ao longo de um determinado nível, quando estamos a combater contra os membros de um gangue qualquer, parece que o grupo de malfeitores é formado única e exclusivamente por clones com um boss que os lidera. Como este jogo rege-se por um arcaísmo atroz ao nível das mecânicas, os bosses também não configuram um desafio empolgante.

Os bosses têm uma estrutura corporal semelhante aos seus lacaios, mas conseguem aguentar muito mais pancada até caírem e ficarem no chão sem forças para se levantarem para nos importunarem mais alguns minutos. Na sua essência, tal como manda a escola clássica de design de videojogos, os bosses são um momento de superação para os jogadores, onde aplicam tudo o que aprenderam até chegar lá para derrotá-lo e passar à fase seguinte. É pena que o seu design não transmita esta mesma sensação de estarmos perante um grande desafio, pelo contrário, dá-nos a certeza que temos de conseguir ter mais uns minutos de paciência.

River City Girls Zero poderia ser um jogo recomendável para toda a gente, tal como Streets of Rage 4 o foi. Tenho de admitir que a arte do jogo está bem conseguida e replica bem os jogos das consola de 8-bit que se faziam no final dos anos oitenta. Infelizmente, falha redondamente na hora em que nos queremos divertir. Depois de experimentarmos todos os golpes e de lutarmos com meia dúzia de inimigos, ficamos com uma boa ideia daquilo que nos espera nas horas seguintes. O pior é que a obra adaptada pela WayForward dilui-se com o tempo, sem oferecer nada de realmente relevante após o primeiro terço do jogo. Podia-se ter feito tanto para além de uma simples adaptação que acaba por ser triste comparar este jogo a outros infinitamente melhores. Se gostam de uma experiência clássica e crua, por terem saudades das dificuldades de outrora, então têm aqui o jogo perfeito para vocês.

veredito

Um clássico dos jogos de luta chega finalmente ao ocidente, porém, com todas as frustrações que um jogo dos anos noventa tem. Destaca-se aqui um exímio trabalho na localização do jogo.
6 Bom para jogar com amigos. Muito repetitivo. Combate enfadonho. Narrativa descartável.

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Lançado originalmente:

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