Nos últimos dias fiz algo horrível. Por razões absolutamente egoístas, destruí várias gerações de uma única família. Ao longo de mais de 53 horas, treinei vários membros desta dinastia para superarem sucessivamente os seus antepassados e ficarem um passo mais próximo da conquista de um castelo que esconde enormes riquezas entre as suas paredes, mas do qual nenhum homem voltou vivo. Ainda assim, não desisti e continuei a minha obsessão pela conquista de todo o ouro. 231 gerações depois, o objetivo foi conseguido. Mas terá valido a pena? Sim, sem dúvida.

O parágrafo anterior descreve com precisão toda a minha experiência com Rogue Legacy, título da Cellar Door Games que chega agora às principais plataformas PlayStation, um ano após ter sido lançado no PC. Apesar de ser essencialmente um jogo de ação e plataformas, estamos perante uma obra que aplica vários conceitos únicos ao género em que se insere, afirmando-se como algo que homenageia os grandes clássicos do passado, sendo também uma lufada de ar fresco na indústria.

Assumindo o controlo de um cavaleiro, o jogador é incumbido com a missão de conquistar o castelo Hamson e todas as áreas que o rodeiam para recolher toda riqueza que este tem para oferecer. Mas não é só de ouro e outras recompensas que este castelo é constituído, todos os seus corredores e salas são habitados por misteriosas criaturas e inimigos que não hesitarão em colocar um ponto final na vossa aventura.

Aliás, essa é a única constante durante as largas horas que lhe dedicarão, isto é, o jogo está constantemente a tentar matar-vos e apenas a nossa capacidade de perseverança será capaz de levar o nosso protagonista a bom porto.

Tragicamente, o vosso primeiro cavaleiro não será capaz de oferecer grande resistência neste ambiente hostil e a morte é destino certo. No entanto, é aqui que reside a chama de Rogue Legacy. A morte não é um rude golpe nas aspirações do jogador, mas sim uma janela de oportunidade para melhorar e ganhar experiência, por muito cínico que possa parecer. Sempre que um cavaleiro morre, o seu filho, ou seja, o seu legado, é chamado à ação para vingar a morte do seu pai e vencer, onde o anterior sucumbiu.

A exploração é uma componente fulcral do título, uma vez que é através da mesma que conseguiremos amealhar o ouro presente no castelo. Toda a riqueza adquirida até à morte do cavaleiro é depois disponibilizada para fortalecer o seu herdeiro.

Desta forma, morrer não significa apenas ter de começar toda a aventura de novo, já que começaremos sempre a próxima tentativa necessariamente mais fortes do que na anterior. Como é óbvio, áreas mais difíceis escondem recompensas superiores, mas cabe ao jogador saber perceber se esse é um risco que vale ou não a pena correr.

Se ficaram apreensivos sobre o facto de terem de recomeçar a exploração cada vez que o vosso cavaleiro chega ao fim da linha, não precisam de se preocupar. O castelo vai sendo construído progressivamente, o que significa que nunca vão explorar dois castelos exatamente iguais durante a vossa aventura.

Isto não só impede que a experiência caia num tom demasiado repetitivo, como adiciona todo um elemento de imprevisibilidade à exploração que deixará o jogador sempre a questionar-se sobre o que poderá estar na próxima área. As únicas constantes do castelo é que a Torre Maya está no topo, a Floresta Abkhazia está à direita e a Land of Darkness está abaixo da porta de entrada.

No que diz respeito à jogabilidade, Rogue Legacy é extremamente simples e não requer um período de aprendizagem muito alongado. Saltar, atacar e os feitiços são as capacidades básicas do vosso protagonista. No entanto, cada cavaleiro possui o seu próprio feitiço, classe e caraterísticas pessoais e é graças a estes três pontos que a jogabilidade se mantém variada.

Todos estes elementos possuem vantagens e desvantagens, recaindo sobre jogador o trabalho de saber adaptar a sua estratégia a cada um deles e compreender quais resultam melhor com cada inimigo. A única falha da obra neste capítulo prende-se com a precisão dos seus controlos que por vezes deixam algo a desejar, especialmente em locais apertados.

As caraterísticas pessoais de cada cavaleiro, embora não tenham, na sua maioria, grande efeito sobre o combate, são de longe as que maior impacto têm na jogabilidade como um todo. Por exemplo, se a personagem for daltónica, todo o ecrã vai estar ausente de cor vivas.

Mas o verdadeiro desafio está em jogar com um cavaleiro que sofra de "vertigo", pois isso significa que todo o cenário estará literalmente de pernas para o ar. Ainda assim, a grande maioria destas caraterísticas são utilizadas mais como um efeito humorístico do que como uma componente indispensável para o sucesso.

Por outro lado, a classe e o feitiço são as caraterísticas vitais para adaptarem o vosso estilo de jogo ao vosso objetivo imediato. Isto é, se pretenderem recolher grandes quantidades de ouro, conseguindo combater contra inimigos mais poderosos, então a classe Barbarian é a melhor escolha pois é a que oferece uma barra de vida mais extensa, embora os seus ataques causem poucos danos.

Se a vossa vontade é simplesmente eliminar os obstáculos com rapidez sem perder muito tempo em combate, a escolha terá de recair sobre a classe Shinobi que desfere ataques poderosíssimos. Perceber todas estas nuances é uma das razões pelas quais Rogue Legacy nunca se torna cansativo e manterá a vossa atenção durante largas horas.

Cada uma das áreas do castelo é habitada por inimigos de dificuldade crescente e por um Boss que promete colocar à prova todo o vosso trabalho durante as últimas horas que utilizaram para se preparem para o confronto. Um dos grandes feitos deste título é que em momento algum sentimos que estamos a desperdiçar o nosso tempo, uma vez que a sensação de progresso é uma constante ao longo da experiência.

Não existe melhor prova das nossas evidentes melhorias do que derrotar sem produzir uma gota de suor os inimigos que nos trituraram sem dó nem piedade quando ainda estávamos a dar os primeiros passos. A variedade de inimigos é também assinalável e faz com que o jogador nunca se sinta extremamente seguro nos combates.

Apesar de já ter afirmado que o jogo está constantemente a tentar, de todas as formas e feitios, terminar a epopeia do nosso cavaleiro, não se pode dizer que Rogue Legacy seja uma obra extremamente difícil. O seu nível de dificuldade é absolutamente constante e a única variável é pura e simplesmente a capacidade do jogador e da sua personagem.

Os inimigos apenas se tornam mais fáceis porque o jogador já consegue antecipar os padrões de ataque dos inimigos e a sua personagem está consideravelmente mais forte do que quando começou. Esta é uma obra que não facilita a vida a quem o está a jogar, pedindo-lhe apenas a dedicação necessária para que este sinta o seu esforço recompensado.

As batalhas contra os Bosses são, nesse aspeto, os momentos altos de toda a experiência. Tudo aquilo para que trabalhamos durante as últimas horas, todo o ouro gasto em melhorias, todas as mortes que podiam ter sido evitadas se a ganância não fosse tanta, tudo isto é colocado à prova nestes combates épicos de exigência máxima e que requerem mestria por parte do jogador.

Como é óbvio, rapidamente perceberão que não estão sequer perto do nível em que precisam de estar para superar estes combates, regressando de cabisbaixo ao bloco de notas com as conclusões que retiraram da experiência falhada.

Perceber, com base no seus padrões de ataques, quais as classes e feitiços mais apropriados para utilizar, quais as melhorias em que devemos apostar ou se por outro lado devemos apostar na aquisição de habilidades especiais e de equipamentos mais poderosos, é essencial. A conjugação de todos estes fatores é vital para o sucesso e confere ao jogo um elemento de estratégia que enriquece a experiência.

Mais um exemplo, se pretenderem usufruir da enorme vida da classe Barbarian, então devem apostar em melhorias nos danos de ataque para contrabalançar a sua principal fraqueza. Desta forma estarão um passo mais perto da tão desejada conquista. É importante mencionar que, ao contrário de todos outros inimigos, os Bosses apenas precisam de ser derrotados uma única vez durante a aventura.

Graficamente, Rogue Legacy aposta no sempre popular estilo visual pixelizado que se apresenta como mais uma homenagem óbvia aos títulos clássicos que lhe serviram de inspiração. Os cenários não são muitos, mas são suficientes para suportar toda a obra. A sonoplastia transporta-nos também para as obras da era 8-bit e acompanham na perfeição a jogabilidade, embora pudesse ser mais diversificada.

Rogue Legacy é, sem qualquer tipo de dúvida, o melhor título, lançado este ano, que tive oportunidade de jogar até ao momento, independentemente de ser jogado na PlayStation 4 ou noutra plataforma. Apesar de ter chegado ao mercado em 2013, a obra da Cellar Door Games oferece uma experiência memorável que nos faz recordar aquilo que tornava os clássicos das primeiras consolas tão especiais: a jogabilidade.

Nem mesmo alguma falta de precisão dos controlos impede que este jogo seja uma compra absolutamente obrigatória para qualquer jogador. Ainda assim, recomendo, se tiverem oportunidade, que o joguem na PlayStation Vita, pois é nessa plataforma que este conceito assenta melhor.