Vivemos um constante e duradouro fascínio com o inferno, com as ininterruptas representações imaginativas a mando do entretenimento: filmes e videojogos enamorados. A literatura tem talvez a efusão mais interessante e mais completa: Dante Alighieri e a sua "Divina Comédia", poema de trabalho incalculável dá-nos o inferno, o purgatório e o paraíso. A primeira parte, inferno de nove círculos, é uma janela para a imaginação de Dante: sombria, retorcida e extremamente castigadora.

Já no plano dos videojogos: Dante's Inferno, uma das obras da Visceral, produtora conhecida pela série Dead Space, e que está prestes a terminar o trabalho em Battlefield Hardline. Sabemos o encanto que tem o inferno porque a sua representação é um pretexto para a criatividade não ter amarradas, não estar cingida à trivialidade do quotidiano que todos conhecemos de cor.

Agora é a vez da Volition levar a série Saints Row até lá. Saints Row: Gat out of Hell - expansão autónoma - combina a insanidade do argumento com a loucura do local e uma boa falange de jogadores agradecerá. Não é de estranhar: Saints Row IV tinha no exagero e no quebrar de cânones um dos seus pontos de venda, capaz de figurar em todos os postais de visita enviados de Steelport. Agora estamos de visita a New Hades, local incandescente mas não necessariamente interessante.

Estamos no inferno à moda da Volition, portanto. Depois da equipa brincar com um tabuleiro Ouija no dia de aniversário de Kinzie, o Presidente é transportado para o inferno e fica determinado pelo próprio diabo que Jezebel, a sua filha, terá que casar com ele. Contudo, além da própria Jezebel não estar de acordo com o compromisso arranjado, Gat e Kinzie também não estão e resolvem ir de encontro ao seu líder, salvando-o de um destino arranjado.

Mal chegados ao inferno, Vogel dá à dupla de personagens um halo com vários poderes, entre os quais está a grande alteração feita aos meandros da jogabilidade: um par de asas. Desta maneira, Gat ou Kinzie - são ambos personagens jogáveis - podem viajar e explorar o cenário com mais liberdade, desde que sejam respeitadas as regras básicas do voo: não podem voar devagar ou param e caem; não podem bater as asas por tempo indeterminado e, finalmente, este exercício gasta energia, ou seja, é perceptível o sentido de finitude. Ainda assim, é discutivelmente a novidade de maior monta.

Como seria de esperar numa expansão inserida na série, também aqui a espinha dorsal da jogabilidade são as várias habilidades e armas que vão tendo ao vosso dispor e, obviamente, o processo de as evoluir. Lembram-se da insanidade da "Dubstep Gun" de Saints Row IV? Gat out of Hell tem uma arma que lança sapos, tal como caçadeiras, metralhadoras, uma cadeira com miniguns nos braços e a Jester's Skull, uma arma que é pena fazer parte do bónus pré-reserva - tive oportunidade de a experimentar e andar com uma caveira em chamas pelo inferno é um ato tão natural que devia ser experimentado por todos.

Temos vários poderes "Arcane" que podemos desbloquear e usar, transformando Gat ou Kinzie em heróis nucleares ambulantes. Quatro são ativos: Blast, Summons, Stomp e Aura; outros são passivos, onde encontrarão o Super Sprint e o Flight. O Summons, por exemplo, permite fazer summon a Imps que lutam ao vosso lado. Contudo, além das atualizações temos também Elements para desbloquear.

E se deixarmos os "Arcane" de lado, temos ainda melhorias a fazer à energia, resistência, atividades, habilidades, armas, enfim, facilitismos como os colecionáveis ficarem destacados no mundo, um decréscimo na notoriedade, regeneração mais rápida da energia, aumento da energia, usar duas armas ao mesmo tempo, recarregamento instantâneo, enfim, uma montra de melhorias que tentam motivar o jogador a continuar.

Nada disto é uma novidade para quem experimentou outros títulos da série. E não tinha que ser, pois estamos a falar de uma expansão, ou seja, um alargamento e uma revisão da matéria dada. Quem quer um Saints Row novo e esgotou o IV completamente, verá as suas expetativas defraudadas nas primeiras horas, quando perceber que Gat out of Hell adocicará o palato de quem quer mais de Saints Row IV ou quem ainda não o experimentou.

Importa mencionar que a maneira como tudo se desenrola é um pouco diferente. O objetivo do jogo é chatear o diabo e fazê-lo a aparecer para uma luta final. Para tal, terão que ir completando atividades e encher um medidor que vai contabilizando a raiva do diablo.

O humor está assim um pouco mais espalhado e diluído. O que não sinónimo da ausência de uma escrita minimamente apurada e de vários devaneios, como a inclusão de Shakespeare e Vlad, o Empalador, e o recorrer a Jane Austen. Um dos momentos onde isso está espelhado é no curto número musical onde ficamos a perceber melhor o desarranjo familiar entre o diabo e Jezebel; onde percebemos qual é, afinal, a intenção da jovem de cornos pontiagudos, enquanto contracena com um diabo menos intimidante que o retratado pela Visceral em Dante's Inferno.

Apesar de ser um local novo, New Hades não impressiona graficamente. As texturas, a modelagem das personagens, os veículos que, mesmo aludindo ao tema, não têm muitos modelos que fiquem na memória dos jogadores - um Monster Truck e um camião de recolha do lixo que larga explosivos ficarão -, enfim, nada que o identifique como um cenário que inequivocamente está a ser apresentado graças a uma PlayStation 4. De salientar ainda a apresentação de algumas cenas como se fossem separadores entre capítulos de um livro infantil.

Saints Row: Gat out of Hell não é uma expansão fraca, desde que tenham as expectativas de acordo com a palavra "expansão". Não é um jogo novo, mas sim uma continuação, uma prolongação de Saints Row IV. Podem ver os créditos finais numa tarde de jogo, porém, precisarão de alguns dias para completar tudo. Um interlúdio entre o IV e o próximo título numerado, aqui têm Gat out of Hell.