Até que ponto pode uma obra de entretenimento retirar inspiração de uma outra experiência sem que acabe por se transformar num clone ou cópia de algo produzido no passado? A resposta a esta pergunta é mais complexa do que pode aparentar numa primeira fase, mas independentemente da vossa postura relativamente a esta questão, é inegável que Salt & Sanctuary, título da Ska Studios, foi buscar muitos dos conceitos fundamentais da sua jogabilidade às aclamadas obras da From Software.

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Felizmente, após quase duas dezenas de horas depositados no jogo, fica claro que a produtora independente não se limitou simplesmente a produzir um clone de Dark Souls ou Bloodborne, mas sim a disponibilizar uma obra que não só poderia ser um spin-off da série desenvolvida pelo estúdio nipónico, como não tem quaisquer problemas em rivalizar com a qualidade dos títulos a que foi beber inspiração, apresentando-se como uma alternativa ou adição bastante válida ao género de experiências desafiantes e castigadoras que ganharam enorme popularidade nos últimos anos.

Na sua essência, Salt & Sanctuary é um título de ação e plataformas em duas dimensões que coloca bastante ênfase no seu combate altamente exigente e estratégico, bem como na evolução e progressão da vossa personagem. Na verdade, para além de uns curtos parágrafos nos primeiros segundos da campanha, a história é praticamente inexistente, sendo que o único objetivo passa por eliminar os inimigos provenientes das trevas que arruinaram e destruíram este mundo.

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Ao bom estilo das obras em que se inspira, a morte será um destino bastante comum durante as vossas expedições, contudo, este desfecho raramente se traduz num sentimento de frustração ou de injustiça. Cada vez que morrerem estarão a aprender algo novo, seja sobre o tipo de ataques ou poderio dos inimigos que vos pretendem barrar o caminho até ao próximo boss, o mais acessível ou mais rápido percurso até ao Santuário seguinte, entre outras componentes intrínsecas à experiência oferecida.

Sim, é certo que o título deixa-vos completamente à deriva durante as primeiras horas mas, de uma forma geral, essa fase de desconhecimento e aprendizagem favorece sempre a experiência, pois força o jogador a dedicar toda a sua atenção e concentração na assimilação de todas as mecânicas da jogabilidade até chegar ao momento de satisfação máxima, ou seja, o momento em que têm total domínio sobre a obra e as suas idiossincrasias e passam a estar munidos de todas as ferramentas para atacar sem piedade tudo o que jogo colocar no vosso caminho.

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Significa isto que uma boa parte do vosso tempo com Salt & Sanctuary será passado a tentar compreender as suas várias componentes, sejam elas o propósito que cada um do gigantesco número de itens que vão recolhendo do corpo de inimigos, os quais podem passar por regeneração de saúde, adicionar um efeito aos ataques da nossa arma ou teletransporte para um Santuário, ou o padrão de ataques e fraquezas dos bosses, sendo que alguns deles podem levar a momentos de frustração devido ao número de ataques consecutivos que realizam e à pequena janela de oportunidade que dão ao jogador para contra-atacar, especialmente na segunda metade da batalha.

No entanto, não se percebe a necessidade de num jogo já por si só bastante complicado, adicionar-lhe igualmente um sistema de elevação de nível que é confuso e nem sempre deixa claro os benefícios que nos fornece. Dependendo da classe que escolher no início da aventura, o jogador deve focar-se numa área específica da árvore de habilidades, ainda assim, não faz qualquer sentido melhorias a características como Destreza, Força, Resistência e Endurance estarem associadas ao desbloqueio de armas de níveis superiores que até um determinado ponto da campanha podem nem precisar.

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No que diz respeito ao combate, o protagonista pode saltar, utilizar itens, evadir ataques, usar o escudo para se proteger e a arma para desferir ataques. Sem grandes surpresas, Salt & Sanctuary premeia sobretudo uma postura cautelosa na abordagem aos inimigos, o que significa que, se começarem a martelar desenfreadamente o botão de ataque, o desfecho será certamente negativo. O facto de o título contar com uma variedade agradável de inimigos e dos seus bosses envolverem diferentes estratégias, ajuda a que o combate nunca se torne repetitivo, mas a satisfação relativamente ao mesmo estará sempre dependente da vossa persistência e capacidade de lidar com o fracasso.

As semelhanças com as obras da From Software são especialmente notórias quando começamos a compreender o processo de evolução da nossa personagem e o método como o nosso progresso vai sendo medido ao longo da aventura. Matar inimigos dá-nos Sal que pode depois ser utilizado para subir de nível nos Santuários, locais que servem como postos de controlo e aos quais regressarão sempre que morrerem. Nestas situações, todo o vosso Sal amealhado e ainda por gastar será perdido e terão de derrotar o inimigo que vos derrubou para recuperar esse Sal.

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Subir de nível significa obter um ponto de habilidade que pode depois ser gasto na já mencionada e confusa árvore de habilidades do título, enquanto que o Sal recolhido pode também ser utilizado, em conjunto com outros itens, para melhorar as vossas armas e armaduras, elemento que será vital para conseguirem fazer frente aos bosses mais exigentes. Nos Santuários podem também utilizar itens como oferendas aos deuses que desbloquearão nesse local a possibilidade de viajar para outros Santuários, melhorar e adquirir armas, adquirir itens, iniciar o modo cooperativo local, entre outras possibilidades.

Relativamente ao departamento técnico, Salt & Sanctuary brilha na componente gráfica, mas deixa bastante a desejar no que à sonoplastia diz respeito. Se os visuais que misturam ambientes desoladores e desbotados com inimigos desenhados à mão combinam na perfeição com a impiedade e exigência do combate, bem como o teor tenebroso e castigador do mundo em questão, a banda sonora passa completamente despercebida durante a maioria da experiência, não tendo qualquer tipo de impacto na mesma ou no jogador ao longo da aventura. Para além disso, convém mencionar que a localização para português do título é absolutamente atroz.

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Em suma, a obra da Ska Studios é um excelente título de ação e plataformas que converte com sucesso as mecânicas desafiantes e castigadoras das obras da série Souls a uma perspetiva de duas dimensões, adicionando a capacidade de o protagonista saltar ao leque de opções na abordagem aos inimigos durante os momentos de combate. Alguns bosses podem ser bastante frustrantes, a árvore de habilidade é desnecessariamente confusa e a banda sonora é uma nulidade, mas todos estes defeitos estão longe de ser o suficiente para abafar a qualidade da experiência como um todo.

Nota: É de notar que, embora o título não sofra de problemas técnicos de maior, a minha experiência com a versão PlayStation 4 ficou manchada pelo facto do jogo, na única vez em que crashou, ter corrompido os meus dados guardados, o que se traduziu numa perda de uma tarde inteira de progresso, ou seja, de quase seis horas de evolução do nível da personagem, das armas e do número de bosses derrotados, o que numa obra deste género, que grava automaticamente e não permite criar múltiplos ficheiros de gravação, tem um efeito incrivelmente negativo na vontade do jogador para realizar tudo de novo.