Depois de publicar Year Walk e Device 6, a produtora sueca Simogo volta a brindar o mercado dos videojogos com algo disposto a romper expectativas. Sayonara Wild Hearts mistura vários géneros, mas acima de tudo é uma experiência que arrebata os sentidos dos jogadores, propondo-lhes uma viagem os estimula e que os faz estar investidos do princípio ao fim.

O arco narrativo da obra conta-nos uma história de alguém, uma rapariga, que está a sofrer emocionalmente com o coração partido. Este é o arranque de uma viagem que vai fazendo a protagonista aceitar o que lhe aconteceu, mostrando-lhe - e aos jogadores - o sarar e a compreensão de que a vida também é isso. Derradeiramente, a obra mostra que é possível continuar a viver depois de uma temporada triste.

É uma história emocional e emocionante, contudo, não esperem grandes explicações nem grandes detalhes. Ou seja, Sayonara Wild Hearts permite que cada jogador, se assim quiser, se reveja em diferentes pontos da viagem. Ao apresentar um argumento tão aberto à interpretação, a Simogo abre o livro e permite que existam mais pontos onde o paralelismo com a vida de cada um seja possível.

Importa ainda assim destacar os momentos finais, onde há um revisitar das várias personagens com que nos fomos cruzando. É aqui que há o aceitar dos acontecimentos pela protagonista e é também onde a ponta da mensagem é mais afiada, mais certeira. Ajuda bastante que esta mensagem seja emulsionada por uma apresentação imaculada e que ganhe ainda mais força pelo grafismo e pela sonoplastia, pontos que como terão oportunidade de ler elevam Sayonara Wild Hearts a um novo patamar.

Com uma jogabilidade fácil de compreender, mas difícil de dominar, Sayonara Wild Hearts é uma compilação de géneros. Ao longo de mais de duas dezenas de curtos níveis, há trechos de ritmo, há outros em que o jogo é um atirador, e há até um breve momento em que conduzimos um carro. Desviamo-nos de objectos, arrecadamos corações, quase tudo colocado no televisor a uma velocidade estonteante, que chega a ser complicada de acompanhar nas primeiras tentativas.

Quanto maior a classificação no final de cada nível, melhor é a medalha. Contudo, a produtora não quer deixar de ninguém de fora e é possível desbloquear o nível seguinte, mesmo que não cheguem sequer ao bronze. É também possível passar certas partes à frente, se quiserem - o jogo pergunta-vos quando falham o mesmo trecho várias vezes seguidas.

Cada jogador ficará com a sua parte favorita, como uma parte em que subimos escadas de moto, um rodopio vertiginoso; ou um nível em que vamos saltando entre os planos de diferentes realidades; ou ainda um em que o cenário vai pulsando ao som da música na floresta. A Simogo mostra toda a sua experiência em não prolongar estas cenas em demasia, ou seja, mesmo que se sintam confusos ou que não gostem de determinado momento, há uma temporização impecável para que ninguém se sinta frustrado.

Sayonara Wild Hearts é curto, mas recompensa isso de certa forma colocando à disposição um elevado valor de repetição, especialmente se quiserem obter a melhor medalha em todos os níveis. E quando chegarem ao final desbloqueiam o modo Album Arcade, onde não há intervalos entre as músicas. Durante a longevidade em que está em cena, não só o ritmo de jogo é frenético, como a apresentação de novas ideias e conceitos não fica nada atrás.

São vinte e três níveis, curtos, como já foi dito. Contudo, diz muito sobre a cadência de novas mecânicas quando já perto do cair do pano a produtora resolve apresentar um arco, modificando novamente a sua obra, que durante estes momentos funciona como Panzer Dragoon Orta. E ainda assim nunca se sente que há uma desconexão entre mecânicas, até porque muitas vezes há etapas em que usamos mais do que uma em simultâneo.

Quando estamos envolvidos em tudo isto, Sayonara Wild Hearts ganha enquanto videojogo. Ao surpreender o jogador, por exemplo, com trechos na primeira pessoa, a Simogo está a mostrar que vale a pena continuar a jogar, continuar atento, pois mesmo que não se saiba o que será apresentado no próximo nível, sabemos que será algo que foi pensado para renovar novamente o nosso interesse. Há um nível que decorre no visor de um kit de Realidade Virtual, sublinhando o facto de não haver barreiras para a criatividade desta equipa. E sim, o nível funciona bastante bem.

Essencialmente, Sayonara Wild Hearts é uma obra pela qual é muito fácil o jogador apaixonar-se, uma paixão que é renovada pelo estilo gráfico. Texturas prolongadas, quase sempre ilustrativas de cores berrantes, rosas, roxos, brancos, vários níveis em que vemos apenas as linhas principais dos cenários. Na teoria pode parecer que estamos perante uma obra minimalista, mas tudo isso é usado como uma vantagem, pois é estilizado com uma precisão e um sentido de lugar que não deixa ninguém indiferente.

Há cenários que nos levam até à cidade, outros até à floresta, como já foi escrito, mas raramente há a sensação de estarmos a jogar sempre no mesmo local, uma vez que os diferentes processos da jogabilidade refrescam a proposta em mãos, apresentando-a de um ângulo diferente. Também aqui há o cuidado da produtora, que não tem quaisquer problemas em detonar os seus próprios cenários e deixar o jogador experienciar as ruínas.

Se o grafismo impressiona, a banda sonora não fica nada atrás. Descrito muitas vezes como um “álbum musical jogável”, estamos perante um título que injecta as músicas no grafismo e na jogabilidade. É uma obra que arranca com Claire de Lune, por exemplo, mas que estende a passadeira a batidas elétricas, animadas, que se transmutam quando ouvidas separadamente. Um tema como Doki Doki Rush, quase parece um elaborado toque para telemóvel, mas que ganha uma força descomunal no contexto do jogo.

Sayonara Wild Hearts demorou aproximadamente quatro anos a ser terminado pela produtora. Posso escrever que é possível chegar ao fim da obra numa tarde, contudo, ainda que fique com vontade de ainda mais conteúdo original, são horas atestadas de criatividade, de diversos estilos entrelaçados, de uma velocidade que não dá descanso ao jogador, e de uma viagem emocionante. O jogo parece destinado a inspirar cosplay, a despertar paixões pelas suas personagens, enfim, Sayonara Wild Hearts tem a qualidade para ser uma homenagem e ele próprio parte da cultura popular. É um trabalho formidável que só poderá ser verdadeiramente apreciado quando experienciado na primeira pessoa.