Já se passaram alguns meses desde a sua chegada ao mercado, mas Sekiro: Shadows Die Twice, a nova propriedade intelectual da produtora responsável por Dark Souls e Bloodborne, permanece incrivelmente relevante no panorama atual da indústria. Isso é um testamento não só à qualidade da obra, mas também do muito que tem para oferecer aos jogadores que decidirem embarcar nesta aventura, sendo que o seu tempo de jogo dependerá não só da habilidade do próprio, mas também da sua persistência e vontade para continuar a abrir caminho pelas terras de Ashina.

Muito já se escreveu - incluindo por nós próprios - sobre Sekiro e a sua elevada dificuldade, mas encarar o título como apenas mais uma experiência que se parece divertir em fazer o jogador chocar contra uma parede de forma incessante é extremamente redutor. Sim, a obra da From Software é difícil, exigente e, por vezes, até implacável, contudo, esse elemento do jogo é suportado por uma solidez de mecânicas e mestria de design que faz um excelente trabalho em relembrar-nos que o seu objetivo não é travar a nossa progressão durante largos períodos de tempo, mas sim obrigar-nos a utilizar tudo o que este coloca à nossa disposição para chegar ao momento de exultação providenciado pelo sucesso.

Tal como os títulos anteriores do estúdio nipónico liderado por Hidetaka Miyazaki, a resistência que oferece ao avanço do jogador e a forma como utiliza os sucessivos fracassos como método de ensino para a tentativa seguinte continuam a ser parte fulcral da experiência. Ainda assim, a aventura protagonizada por Wolf, um Shinobi equipado com um braço prostético e com o Dragon’s Blood a correr-lhe nas veias que lhe permitem ressuscitar após cada morte, adiciona uma nova camada de complexidade à fórmula bem oleada da produtora graças a uma maior variedade de abordagens aos inimigos.

Aliás, é através desta diversidade de opções que Sekiro: Shadows Die Twice se diferencia dos seus antecessores e consegue criar uma experiência que incentiva a experimentação, capaz de entregar diferentes inimigos que requerem a adoção de estratégias distintas e a exploração ao máximo de todas as ferramentas em nossa posse. Para além disso, isto proporciona que jogadores com diferentes estilos de jogo tenham maior facilidade em encontrar a tática que os coloca mais perto da vitória. Obviamente que o jogo encontra formas de vos forçar a adaptarem-se perante as circunstâncias, impedindo assim que se acomodem a uma mesma estratégia e que os combates se tornem repetitivos.

A introdução da ação furtiva é fulcral neste aspeto, pois garante aos mais pacientes uma forma de abrir caminho pelas áreas do jogo sem entrar em demasiados confrontos abertos que possam resultar na perda de saúde e na utilização do número finito de itens de regeneração da mesma entre cada visita, ou regresso, aos Sculptor Idols - locais que funcionam um pouco como as Bonfires de Dark Souls. Não pensem, contudo, que podem servir-se da abordagem furtiva para ultrapassarem todos os obstáculos, já que todos os mini Bosses e Bosses requerem que pelo menos uma parte da batalha seja feita em confronto direto.

E é nesse momento que o combate dinâmico e variado de Sekiro mostra todos os seus trunfos. Graças ao seu braço prostético e às melhorias e diferentes arsenais de habilidades que podem obter ao longo da vossa aventura por Ashina, testar o que é mais eficaz contra determinado Boss faz parte do desafio. Por exemplo, a Firecracker Prosthetic é bastante útil contra bestas, ou seja, contra inimigos raivosos - animais, de uma forma geral -, enquanto a Shiruken Prosthetic tem na sua capacidade de atacar inimigos à distância, por exemplo para os atrair até vocês e separá-los de um grupo mais alargado de oponentes, e na possibilidade de colocar travão em alguns padrões de ataque as suas principais vantagens.

Depois há também a possibilidade de utilizar o braço como uma espécie de lança-chamas para incendiar momentaneamente um inimigo ou então de conferir um dano venenoso aos nossos ataques. Cada um destes exemplos - e os restantes que não mencionei - podem depois ser melhorados com materiais encontrados no cenário ou obtidos do corpo dos inimigos derrotados. Dito isto, o uso destas habilidades é limitado pelo número máximo de Spirit Emblems que transportam com vocês em qualquer momento. Claro que podem gastar pontos de habilidade para aumentar essa quantidade, mas a utilização terá sempre de ser criteriosa, aproveitando os momentos oportunos para deixar os inimigos vulneráveis à nossa espada.

No entanto, é durante a permanente colisão entre espadas que esta experiência de samurais se torna mais interessante e, claro está, desafiante. Isto deve-se ao facto de Sekiro colocar o foco naquilo a que chama de Posture. Essencialmente, a Posture representa a vossa resistência a sucessivos ataques dos inimigos. Quando esta barra atingir o limite, ficam momentaneamente indefesos e completamente vulneráveis a ataques que são, muitas vezes, mortais. A mesma lógica aplica-se aos inimigos e, dependendo do adversário em questão, será frequentemente mais proveitoso apostar em quebrar a sua Posture do que tentar, de forma bastante lenta, ir reduzindo a barra de saúde.

Como é óbvio, os dois elementos andam de mãos dadas, isto é, quando mais reduzida estiver a vossa saúde ou a do vosso oponente, mais rapidamente a Posture atinge o limite máximo. Perceber a forma como a saúde e a postura variam entre inimigos é fundamental para definir a estratégia de abordagem de ataque. Existem inimigos que causam enorme dano à nossa postura com poucos ataques e que por isso requerem a manutenção de uma maior distância durante o combate, enquanto outros permitem, ao realizarem vários ataques sucessivos aos quais podem fazer parry, que a sua postura seja facilmente destruída, abrindo assim caminho para um Deathblow.

Ainda que praticamente todos os Bosses e mini Bosses precisem de dois Deathblows para serem superados, importa não esquecer que alguns deles permitem que um desses desses ataques mortais seja efetuado de forma furtiva, facilitando assim o processo. Aprimorar o timing para transformar o nossos bloqueios em parrys, perceber quando é imperativo esquivar porque o ataque não pode ser bloqueado e quais os momentos certos para contra-atacar são os fundamentos de todos os combates mais exigentes da obra e a solução para os mesmos raramente é a mesma.

Finalmente, há ainda a ter em conta as características únicas de determinados inimigos que potenciam a utilização de determinados itens que aumentam o vosso poder de ataque, a vossa defesa, a vossa postura, itens que eliminam ilusões, que curam veneno, que criam bloqueiam momentaneamente os oponentes, entre outros, bem como as diferentes habilidades que podem desbloquear nas várias árvores de habilidades, que incluem ataques especiais e, por exemplo, a possibilidade de penetrar a mente de um inimigo após um Deathblow para o fazer atacar os seus pares. Sekiro: Shadows Die Twice é rico em possibilidades e também por aí se explica a forma como se mantém interessante depois de inúmeros fracassos e várias dezenas de horas de jogo.

Embora existam alguns motivos que podem levar a um pouco grinding, nomeadamente o facto de perderem metade da vossa experiência e do vosso dinheiro sempre que sucumbem a um oponente, algo que poderá obrigar-vos a selecionar um local para acumular pontos de experiência para adquirir novas habilidades e dinheiro para comprar melhorias e determinados itens, a obra da From Software faz um bom trabalho para evitar que isso se torne uma prática recorrente graças à quantidade de conteúdo opcional à espera de ser realizado e onde podem ir buscar esses pontos de experiência e moedas - desde que não morram com demasiada frequência.

De uma forma geral, Sekiro é pautado por vários confrontos memoráveis - Guardian Ape é um dos Bosses que mais prazer me deu derrotar em qualquer videojogo -, e por um combate recheado de nuances e desafios prontos para provocarem um influxo de dopamina no cérebro do jogador após a sua superação. Ainda assim, existem problemas que merecem ser mencionados. Um deles é já bem conhecido para os fãs das obras da From Software, isto é, a câmara. Não se verifica em todas as batalhas, mas sempre que dão por vocês encurralados em espaços mais fechados, esta parece ganhar vida própria e raramente é para vos mostrar o lado mais interessante do que está acontecer no cenário.

A framerate é também um problema, sobretudo nas áreas finais da obra - pelo menos quando jogado numa PlayStation 4 original. E depois há, como não poderia deixar de ser, a frustração quando as tentativas falhadas começam a atingir números catastróficos. Ainda assim, nenhum destes problemas é suficiente para manchar o que de muito bom o título oferece. De referir ainda que, no último terço da aventura, o jogo começa a reutilizar alguns Mini Bosses o que acaba por ser algo desapontante e parece ser uma forma algo desnecessária de prolongar a duração da obra. 

Ao contrário das empreitadas anteriores da produtora, Sekiro: Shadows Die Twice conta uma história nos moldes tradicionais, acompanhando a aventura de Wolf na sua missão de proteger o Divine Heir daqueles que pretendem obter o Dragon’s Blood e a imortalidade que concede para si. Apesar de contar com algumas interações interessantes e de colocar na mão dos jogadores o seu desfecho, a história nunca consegue ter grande impacto emocional, acabando por servir meramente como um pano de fundo à ação. O facto de o protagonista ser parco em emoções ou personalidade também não ajuda.

Graficamente, não estamos certamente perante a obra visualmente mais poderosa a agraciar esta geração de consolas, no entanto, o estilo visual da From Software continua bastante apurado, criando paisagens e horizontes imponentes, bem como ambientes bonitos e que convidam a exploração. A framerate nem sempre é segura, como já referi, mas o título apresenta um departamento técnico sólido que não coloca entraves à jogabilidade. A banda sonora mostra-se igualmente competente a enaltecer os diferentes momentos da ação e da própria narrativa.

Para ser sincero, não há melhor prova da qualidade de Sekiro: Shadows Die Twice do que o tempo que esta análise demorou a ser publicada. Acreditem que se o jogo não me tivesse cativado ao ponto de me fazer regressar constantemente para derrotar mais um Boss até ultrapassar as seis dezenas de horas, este análise já tinha sido publicada há algum tempo. Por isso, resta apenas dizer que o novo esforço da From Software é uma obra de excelente qualidade e uma evolução inteligente da fórmula de Dark Souls. No fundo, é um dos jogos do ano.