O amor é um assunto complicado de abordar. Não importa que este esteja presente em praticamente todos os momentos do nosso quotidiano, o amor permanece como um dos sentimentos com os quais o ser humano mais dificuldade tem em lidar. Serena é a prova disso mesmo. Produzido pela Senscape, que chegou ao radar da indústria graças ao sucesso conseguido no Kickstarter com Asylum, este pequeno título dá-nos uma perspetiva diferente, mas igualmente real, em relação ao amor, mais concretamente, o amor enquanto doença.

Serena é uma curta aventura Point & Click jogado totalmente na primeira pessoa e que se foca quase inteiramente na história que tem para nos contar e nas personagens que lhe dão vida. Toda a narrativa do título tem lugar numa pequena cabana situada num local remoto rodeado apenas pela natureza e completamente desligado da civilização. Assumindo o controlo de um homem sem qualquer tipo de memória relativa a acontecimentos recentes e que aguarda ansiosamente pelo regresso da sua amada mulher, Serena, o jogador tem como tarefa interagir com os vários objetos espalhados pelo espaço e que vão evocando memórias ao protagonista, permitindo assim que possamos ter uma melhor ideia do que aconteceu durante o período em que este perdeu a memória.

Para conseguir avançar na história, o jogador terá de explorar a cabana por diversas vezes, algo que, embora possa parecer extremamente repetitivo, nunca o é, pois a perceção dos objetos está constantemente a mudar à medida que novas memórias vão sendo relembradas. É absolutamente imperial ouvir tudo o que protagonista tem para dizer sobre cada objeto, o que poderá implicar clicar mais que uma vez nele até que as falas se voltem a repetir. Não deixa de ser um pouco estranho que um título tão centrado neste aspeto não possua uma mecanismo que nos indique quando não existe mais nada a saber em relação a determinado objeto. Ainda assim, o maior problema da sua narrativa acaba por ser mesmo a sua conclusão. Não por que seja fraca ou até mesmo insuficiente, mas sim por ser bastante previsível. Desde uma fase precoce no jogo que o vosso cérebro será capaz de deduzir a revelação final, o que acaba por ser uma pena.

Se a história é o foco principal de Serena, esta não teria sequer metade do seu impacto se a atmosfera criada pelos produtores não fosse nada menos do que brilhante. Ouvir o canto melodioso dos pássaros no exterior, o assobio do vento por entre as árvores e ver a luz entrar pelas janelas totalmente deterioradas, transmitem uma sensação de paz absoluta que contrasta de forma óbvia com o interior da cabana. Dentro do espaço em que nos deslocamos durante a aventura, o ambiente é completamente desolador. Aquilo que deveria ser uma espécie de símbolo de amor entre duas pessoas, rapidamente nos transmite uma sensação de que existe algo de muito errado neste espaço.

Para oferecer à cabana um aspeto mais realista, destaca-se a forma como os objetos estão distribuídos e arrumados, ajudando a transmitir uma ideia de que vivem de facto ali duas pessoas. No entanto, o aspeto em que Serena mais brilha é mesmo na maneira como joga com o significado de objeto mundanos. Como disse anteriormente, à medida que as memórias vão sendo desbloqueadas no cérebro do nosso protagonista, os itens vão adquirindo significados diferentes e revelam de forma decisiva o quanto a nossa experiência pode alterar a perceção que temos deles. Um exemplo óbvio disso mesmo é o relógio que nunca para de contar os segundos e que passa de um símbolo de amor, adquirido em conjunto pelo protagonista e a sua mulher quando se mudaram para a cabana, para um símbolo de raiva e ódio por o impedir de se concentrar e dormir e que apenas continua no local por desejo de Serena.

As vozes que dão vida ao protagonista e ao seu amor são igualmente excelentes, conseguindo entregar algo sem o qual o jogo não seria capaz de sobreviver, ou seja, emoção. Ouvir a voz do protagonista é mais do que suficiente para identificar facilmente o sentimento que o domina, bem como as suas variações de humor. A música que acompanha a experiência também está à altura dos acontecimentos, sendo maioritariamente suave e calma, mas conseguindo ao mesmo tempo elevar a tensão e o mistério que envolve a exploração para níveis elevadíssimos, aproveitando todos os momentos para nos deixar arrepiados.

Serena é um daqueles caso de jogos que terá sempre um receção mista entre os jogadores, aqueles que adoram a narrativa e a atmosfera criada e aqueles que se aborrecerão com o ritmo lento e falta de ação do mesmo. Mesmo assim, afirmo com toda a segurança que este é um título que merece ser jogado por qualquer pessoa. Aliás, não existe nenhuma razão para não o fazerem, uma vez que o título está disponível gratuitamente no Steam e tem uma duração de apenas uma hora. O jogo não possui qualquer tipo de menus, o que significa que assim que o iniciarem, estarão também a iniciar a narrativa e apenas se libertarão dela quando a terminarem. Nem mesmo alguns problemas técnicos são suficientes para afetar a qualidade do produto no seu todo.