O início é inocente. Quem nunca jogou Shadow of the Colossus na PlayStation 2 e/ou na PlayStation 3 depara-se com um arranque como tantos outros, não sabendo que algumas horas depois estará agastado pela emoção de se ser simplesmente humano. Agora na PlayStation 4, essa dor dói tanto como antes, melhor ilustrada do que nunca.

Não sofremos todos da mesma forma, mas Fumito Ueda sabe transformar a aventura numa agulha bem afiada; uma agulha que espeta cirurgicamente a cada hora que passa, a cada colosso que vai ao chão. Uma, duas, dezasseis vezes até estarmos de joelhos como as criaturas que abatemos - e depois? Depois chega o tal final, a tal sequência em que o comando vai ao colo e os olhos perdem-se pelo ecrã.

Ico já tinha sido uma aventura que ainda hoje é recordada e The Last Guardian, depois de um espinhoso período de gestação que o levou a saltar da PlayStation 3 para a PlayStation 4 quando muitos pensavam que nunca veria a luz do dia, acabou por se revelar mais uma destilação da essência da empatia e da amizade. Shadow of the Colossus tem um lugar especial na elevação de Ueda a um dos criadores mais importantes na indústria dos videojogos, um dos mais sensíveis e uma das mentes mais necessárias para a afirmação dos videojogos como arte. 

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

Publicado originalmente em 2005 - chegou à Europa no início de 2006 -, vestimos a pele de Wander, um jovem que chega às Forbidden Lands apenas com uma vontade: ressuscitar uma rapariga chamada Mono. Esse desejo é concedido se o protagonista conseguir uma tarefa hercúlea - derrotar dezesseis colossos. E partimos a cavalo pelo desconhecido. E partimos no dorso do Agro para amealhar memórias que ficarão connosco durante muito, muito tempo.

Na sua posse, Wander tem a Ancient Sword, uma espada que Ueda subverte e não serve para defrontar hordas e hordas de inimigos, mas sim para apontar o caminho quando há luz solar disponível. Em frente a um Colosso, esta mecânica serve também para enaltecer os pontos a que temos que chegar no confronto que se avizinha. E é nestes confrontos que Shadow of the Colossus faz com que cada vitória seja, na verdade, uma derrota emocional.

De várias estirpes, temos que analisar os seus pontos fracos, pontos que brilham. Enterrar a espada na criatura, em alguns casos para a fazer mudar de posição, e nos derradeiros momentos para a fazer tombar. Dependendo do colosso que têm pela frente, esses pontos variam em quantidade e no local do corpo onde estão.

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

São na sua essência puzzles em que brilha o design. Principalmente nos colossos maiores, é um bailado enquanto se escala o seu dorso, enquanto ficamos metros acima do chão e do alto do seu ombro ou da sua cabeça interiorizamos que o seu final está próximo. Para evitar que a repetição se instale a meio da aventura, nota-se o cuidado nas diferenças do design e na colocação destes pontos de contacto em lugares diferentes. 

Inicialmente, pode-se pensar que são dezasseis confrontos de David contra Golias, o que não está totalmente errado. Contudo, a música que trago a ecoar nos tímpanos desde que cheguei ao final da versão PlayStation 4 enaltece a emoção. A câmara dá uma panorâmica afastada e vemos a sua queda; e em vez da alegria de matar um monstro ou um vilão, somos inundados pela mescla de dever cumprido com remorsos. Afinal, qual é a verdadeira culpa dos colossos e quem somos nós para os fazer tombar eternamente?

Há batalhas que duram mais de dez minutos, há batalhas em que Agro está presente. Um dos meus confrontos preferidos é o décimo terceiro, Phalanx. Não só porque mistura o chão e o ar, mas porque o seu design é simplesmente impressionante, deixando-nos percorrer o seu dorso enquanto voamos pelo cenário. Outras batalhas decorrem na água, como aquelas que nos opõem a Pelagia, o décimo segundo, ou Hydrus, o sétimo gigante a cair.

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

Além da espada, porém, Wander tem também à sua disposição um arco e flecha - crucial para alguns confrontos. E por muitos elogios merecidos que possa tecer a Shadow of the Colossus, é inegável que os controlos continuam rombos como nas versões anteriores. Sim, é também inegável que há um esquema “moderno”, porém, a câmara continua teimosa e preparem-se, pois serão várias as vezes que cairão de um colossos não tanto por inabilidade, mas sim porque os comandos decidiram não colaborar.

Isto é frustrante, obviamente. Há uma barra que mostra a energia do protagonista, mas há também uma segunda barra que exibe a sua força. Ou seja, comandos ocasionalmente rombos associados à sua perda de força para se agarrar, são a combinação para o recomeço da escalada por diversas vezes. Nesses momentos, é claro que a emoção e a sensibilidade dão lugar ao temporário franzir dos olhos e aos esgares.

A versão 2018 de Shadow of the Colossus podia correr o risco de ser apresentada como uma obra tão diferente, que a sua plástica não chegaria ao âmago dos fãs. Não é isso que acontece, não é isso que acontece de todo. A cargo da Bluepoint Games, não são precisos muitos minutos para se apontar ao seu carismático estilo gráfico, não são precisas muitas horas para se ter a certeza que o trabalho da produtora texana é fenomenal.

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

De uma ponta à outra, jogado numa PlayStation 4 Pro ligada a uma televisão 4K com HDR, sente-se o enorme trabalho que foi desenvolvido, afastando inquestionavelmente a obra da visão mais cínica que olhava para este remake como uma forma fácil de alimentar os cofres à custa da nostalgia e do amor que os fãs têm pela obra. Não é. Comprem ou não esta nova versão, podem ter a certeza que o trabalho é inquestionável e, sobretudo, inegável.

Não quero dizer que pareça um jogo criado de raíz para a mais recente consola caseira da Sony, contudo, desde as cenas de vídeo aos interiores, passando pelas vastas planícies deixadas à nossa vontade de explorar, a emulsão gráfica é colocada ao serviço dos olhos arregalados. E isto está intrinsecamente com a já mencionada emoção dos colossos propriamente ditos.

A modelagem está melhor, mas são as texturas e, sobretudo, o efeito do pêlo que lhes dão vida adicional, que os aproximam ainda mais do nosso coração. Há olhares que ficarão, há cenas com o Agro que arrepiam mais do que nunca - reparem, é o excelso trabalho visual da Bluepoint pensado para realçar, não mudar, o trabalho que já tinha sido feito pela equipa de Ueda.

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

Nota-se o cuidado no minúsculo e a atenção para as vistas macro saem melhoradas. Quem nunca jogou tem aqui um jogo atual e quem já é fã há várias iterações, tem aqui uma excelente forma de matar saudades, de encontrar memórias que pensavam já ter apagado. São momentos que não, não perdem impacto mesmo que já consigam antever a sua ocorrência.

Como o meu tempo com o jogo foi na consola mais potente da Sony, ao meu dispor tive a escolha do modo gráfico. Caso tenham o modelo original da consola, terão pela frente uma aventura a 30 fotogramas por segundo com uma resolução de 1080p. Neste modelo há dois modos: Cinemático, que apresenta uma resolução de 1440p, e o modo Performance, que sobe a framerate para 60 fotogramas por segundo. Optando pelo modo com mais resolução, não são notórias grandes quebras na performance.

Além das texturas e dos efeitos aplicadas às criaturas, uma chamada de atenção para o sistema de iluminação, que também ajuda a um jogo de sombras impressionante. Especialmente nas zonas de floresta e nas ruínas, tudo isto é conjugado para um sombrio inquietante, para uma atmosfera assinalável. O contraste, por exemplo, com as zonas de deserto têm ainda mais impacto em quem joga.

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

Antes de escrever sobre a sonoplastia, permitam-me um exemplo sobre esta atenção visual. Já no final do jogo é possível ver os seus corpos caídos. A atenção está na poeira que os cobre, como se fosse o mais próximo que temos do seu enterro, como se o jogo estivesse a deixar-nos despedir uma última vez deles. Na sua essência, é um passar em revista do que foi a nossa aventura por Forbidden Lands; na prática é um colocar na linha da frente a emoção que não se esgota quando se joga - e se escreve sobre - Shadow of the Colossus.

Os sons do jogo complementam de forma idílica a ação que decorre no ecrã. Não é só a qualidade da banda sonora, mas o ritmo e a curação dos temas para cada momento. Já escrevi sobre o tema que acompanha a queda dos colossos, mas cada batalha fica tão vincada em parte pela coreografia entre o visual e o sonoro. Os coros, especificamente, arrepiam e entranham-se.

A versão PlayStation 4 tem um modo de fotografia, que é um bónus interessante, e há o modo contrarrelógio e o New Game + depois de terminarem o jogo a primeira vez. Como seria de esperar, há também uma galeria que permite matar saudades pouco depois de as começarem a ter. São complementos, nada mais. O modo de fotografia, porém, permite explorar ainda mais estas melhorias técnicas.

Imagens Analise Shadow of the Colossus PS4

Shadow of the Colossus já tinha um lugar especial na minha memória, um lugar que agora ficou ainda mais fácil de encontrar. A tristeza e a alegria estão cá todas, mas com um estofo técnico a condizer. Sim, os comandos dão algumas dores de cabeça, mas, tal como em The Last Guardian, daqui a alguns anos, quando recordar o jogo de Ueda, o turbilhão de sentimentos será tanto que esses desentendimentos momentâneos não pesarão nada. 

Há obras assim. Sabia que me ia incomodar quando o comecei a jogar há alguns dias e mesmo assim não podia esperar. Desconfio que sei porquê. Porque enquanto me incomodo estou a viver. As memórias, boas ou más, somos nós cristalizados no nosso próprio âmbar. Estas emoções, estas quedas dos colossos, esta história de amor, é um videojogo a fazer-me viver, ou melhor, a misturar-se no meu viver. E quando isso acontece, a obra em questão não é menos do que excelente.