Embora nunca se tenha afirmado como um colosso de vendas, a reimaginação da série Tomb Raider por parte da Crystal Dynamics tem mantido a atenção dos jogadores graças ao nome que ostenta na capa e à receção bastante positiva por parte da crítica especializada. Com Shadow of the Tomb Raider - obra a cargo da Eidos Montreal, mas ainda com a contribuição do estúdio original - prometia-se o final da trilogia focada nas origens de Lara Croft e a conclusão da transformação da jovem aventureira e sobrevivente na saqueadora de túmulos e guerreira que todos conhecem.

Se este título fosse julgado apenas pela forma como cumpre essa promessa, então estaríamos certamente perante uma experiência desapontante que volta a revelar problemas óbvios na forma como entrega a sua narrativa e caracteriza o mundo e as suas personagens. Felizmente, Shadow of the Tomb Raider é muito mais que isso. É um muito bom jogo de ação e aventura cujo combate, exploração e resolução de puzzles proporcionam um casamento quase perfeito que dificilmente se torna aborrecido.

No fundo, o terceiro capítulo desta trilogia é um espelho das valências e defeitos da mesma. O que já era excelente continua a sê-lo aqui e o que deixava a desejar continua a não corresponder. Não deixa de ser estranho que uma série que tem na missão de dar mais profundidade e personalidade a um dos mais icónicos nomes da indústria uma das suas principais características, falhe consistentemente na tarefa de entregar uma componente narrativa convincente e merecedora da nossa ininterrupta atenção.

Shadow of the Tomb Raider prometia a aventura mais negra da trilogia e a verdade é que esta arranca de forma bastante positiva, mostrando-nos um pouco da juventude de Lara Croft e levantando questões importantes em relação às suas ações e moralidade. No entanto, este início prometedor nunca se materializa numa aventura épica ou memorável. As questões levantadas rapidamente são esquecidas ou apenas tocadas ao de leve, os antagonistas não nos conseguem investir nas suas motivações e as personagens secundárias continuam com a densidade de uma folha de papel.

Para o que deveria ser uma conclusão de uma trilogia, a obra da Eidos Montreal entrega uma aventura que não tem o peso ou espetacularidade expectável de um momento destes. Lara Croft permanece como a única personagem interessante da série, mas a transformação que nos era prometida está longe de se verificar de sobremaneira. Tal como já era o caso em Rise of the Tomb Raider, o lore que serve de pano de fundo à campanha volta a ser melhor empregue nos documentos e relíquias à espera de serem encontrados no mundo de jogo do que pelo arco narrativo propriamente dito.

Esta abordagem tem também os seus pontos positivos e negativos. Por um lado, as atividades secundárias oferecem alguns dos melhores elementos da obra. Por outro lado, estas quebram por completo qualquer noção de ritmo e progressão na campanha, uma vez que a sensação de urgência da narrativa desaparece quando damos por nós a vasculhar o cenário à procura dos colecionáveis escondidos. Fica por vezes a ideia de que o jogo preocupa-se mais em rechear o seu mapa de pontos de interesse - que nem sempre são assim tão interessantes - do que em tentar apresentar o seu mundo de forma mais fascinante.

Existem alguns momentos em que o título perde um pouco de tempo para realçar a beleza e espetacularidade visual que nos apresenta, mas a experiência beneficiaria claramente em focar-se mais na oferta de uma maior sensação de mistério e descoberta durante a campanha. Mesmo nas próprias cinemáticas dedicadas à descodificação de pistas e análises históricas por parte da protagonista, o jogo apresenta-nos tudo isso através da simples exposição de informação, faltando quase sempre o entusiasmo que as descobertas em questão mereciam.

Dito isto, Shadow of the Tomb Raider é suportado pela mesma jogabilidade mecanicamente imaculada que fez as delícias daqueles que jogaram os dois lançamentos anteriores. A frequente exploração subaquática, a possibilidade de interagir com os habitantes dos locais que habitamos e receber missões dos mesmos são as principais novidades de uma experiência que se mantém praticamente inalterada em relação ao passado. A aplicação do arco e flecha continua perfeita, o design dos níveis volta a dar azo a diferentes abordagens, sejam estas mais furtivas ou de dedo preso no gatilho do princípio ao fim, e a exploração permanece interessante graças à quantidade de colecionáveis para encontrar.

Obviamente, continuam a haver habilidades para desbloquear, locais para revisitar após determinadas habilidades ou armas para serem obtidas e melhorias das mesmas para obter através do material encontrado no cenário e, claro está, da caça da fauna da selva peruana que serve de pano de fundo a esta aventura. Apesar das semelhanças com o que veio antes, Shadow of the Tomb Raider toma algumas decisões de design que o afastam ligeiramente dos antecessores.

Para além de um claro foco na ação furtiva graças à introdução de novas mecânicas, incluindo a possibilidade de se camuflarem utilizando lama, para vos oferecer um maior leque de possibilidades na altura de eliminar os inimigos silenciosamente, o que mais salta à vista nesta sequela é a redução significativa dos momentos de combate comparativamente a Tomb Raider ou Rise of the Tomb Raider. 

Este é um título muito mais focado na exploração do que no combate, o que agradará a uns e desagradará a outros, mas não deixa de ser uma opção curiosa quando o combate é um dos melhores elementos da série - embora fosse por vezes utilizado em excesso no passado. Perde-se um pouco no combate, ganha-se bastante nos túmulos. Shadow of the Tomb Raider possui alguns dos melhores túmulos de desafio - como são aqui denominados - desta trilogia, oferecendo uma mistura saudável entre jogabilidade de plataformas e quebra-cabeças capazes de exercitar a massa cinzenta. O combate surge desnecessariamente em algum deles, mas nada que os faça desviar do seu principal objetivo, isto é, de oferecer locais impressionantes, deslumbrantes e desafiantes.

Onde a nova entrada da série volta a não desiludir é no seu departamento visual. Depois dos cenários brancos e gelados de Rise of the Tomb Raider, Lara Croft viaja agora para paisagens verdejantes e mais ricas em vida do Peru. Graficamente poderoso e sem problemas técnicos de relevo, Shadow of the Tomb Raider utiliza com sucesso o contraste entre as majestosas paisagens naturais que estão à superfície e as impressionantes construções humanas esquecidas pelo tempo ou mantidas em segredo à espera de serem encontradas. Por sua vez, a banda sonora faz um bom trabalho no acompanhamento da aventura, embora nunca assuma um papel de grande destaque.

Ainda que não faça muito para evoluir a fórmula iniciada em Tomb Raider e cimentada em Rise of the Tomb Raider, Shadow of the Tomb Raider é um digno sucessor de duas excelentes obras de ação e aventura. A narrativa volta a ser uma desilusão e a sua campanha raramente consegue criar um mistério envolvente, contudo, o combate de qualidade, sobretudo na ação furtiva, a exploração e as diferentes atividades secundárias fazem mais do que suficiente para preservar o nosso interesse durante as quase duas dezenas de horas de duração. Ainda assim, enquanto conclusão de uma trilogia, acaba por deixar a desejar.