Filipe Urriça por - Mar 11, 2022

Sherlock Holmes: Crimes and Punishments (Switch) – Análise

Os policiais, nos videojogos, têm de fazer do jogador uma parte ativa do jogo. Caso contrário, quem joga vai ficar perdido e embater de frente nos limites impostos pelas mecânicas do jogo até obtermos exatamente o que o jogo quer de nós. Sherlock Holmes: Crimes and Punishments é uma aventura com o detetive criado pelo famoso escritor britânico, Sir Arthur Conan Doyle, com uma jogabilidade que dá uma certa liberdade ao jogador para tirar as suas próprias conclusões quanto aos casos que tem de resolver. Não é um jogo que chega ao nível de Her Story, no que toca à investigação, mas é uma muito boa proposta deste género.

Sherlock Holmes: Crimes and Punishments é, essencialmente, um jogo de apontar e clicar. Embora esta obra consiga disfarçar bem as suas origens, ninguém pode negar o facto que está perante um point’n’click. Se o jogo fosse bidimensional, talvez beneficiasse de uma direção artística mais clássica como o pixel art e aí já podíamos estar a falar de uma aventura gráfica. Neste caso em concreto, Crimes and Punishments entrega-nos Sherlock para controlarmos na primeira ou terceira pessoa, conforme nos der mais jeito, para quando nos aproximamos de um ponto de interesse, que faz parte da investigação (um cadáver, suspeito, ou possível prova) carregamos no botão A para interagirmos com este. Esta descrição é a interação básica de Crimes and Punishments, mas há bem mais para explorar.

É muito mais apelativo ser o jogador a fazer as suas próprias deduções do que ser o jogo a fazê-las por nós. Depois de um caso criminal ser aberto, quando a Scotland Yard vai bater à porta de Sherlock Holmes para lhe pedir emprestado o seu fabuloso intelecto, temos de reunir todas as provas possíveis e confrontar os suspeitos com os nossos achados. Às vezes pode nem ser um suspeito, mas uma pessoa com uma certa relevância para o caso, com informações cruciais para a sua resolução. E também não é só em provas que temos de mexer, há também objetos ou documentação que podem clarificar a identidade do criminoso.

O jogo não nos diz o que temos de fazer em específico, porém, coloca-nos notas no nosso caderno sobre o que temos de fazer de uma forma geral. A obra só nos dá espaço para pensar livremente nos momentos finais, quando as provas estão todas reunidas e analisadas, assim como já foram interrogadas todas as pessoas que tenham interesse para ocaso judicial. Para chegarmos a uma conclusão e sabermos quem sãos os indivíduos que podem ser devidamente acusados, basta-nos percorrer o cenário todo à procura de objetos, espaços ou pessoas que ficam sinalizados com uma lupa – símbolo que nos indica que há algo a ser investigado para para o processo judicial que está a decorrer. Se estivermos perdidos ou confusos, então temos de passar por alguém que já foi entrevistado ou um objeto que já foi analisado e se o símbolo da lupa ficar verde é sinal que já não há mais nenhuma informação a extrair daquele elemento, se ainda estiver branco é porque nos falta algum pormenor.

Quando interrogamos ou entrevistamos alguém, que possa ter informações fulcrais para a nossa investigação, é óbvio que não vão revelar tudo o que sabem. Primeiro, um agente da autoridade não é, propriamente, alguém com que qualquer pessoa se sinta à vontade para confidenciar detalhes da sua vida pessoal. Se o assunto for, sobretudo, de caráter íntimo ainda é mais provável alguém se fechar em copas sem nos dizer o que pode vir a ser importantíssimo para o caso ser resolvido o mais rápido possível. Portanto, é sempre bom saber que quem fez este jogo não se esqueceu destes pormenores. Quando iniciam uma conversa têm algumas opções de diálogo que vos vai revelar informação nova sobre o tema questionado, depois de esgotadas as opções de conversa, há mais duas mecânicas, ligadas às provas, que nos abrem mais oportunidades de acedemos a novas informações através do diálogo.

Curiosamente, uma das mecânicas permite-nos traçar um perfil psicológico após uma breve observação do sujeito do qual queremos retirar mais detalhes do crime que foi cometido. A câmara aproxima-se muito perto do indivíduo que estamos a interrogar, para depois assinalarmos características físicas que tenham algum interesse (como uma cicatriz, um rubor na cara ou o nível de hidratação da pele) ou um detalhe que seja digno de ser destacado (como a qualidade da roupa, uma aliança ou qualquer tipo de sujidade). A seguir a este rápido processo, temos acesso a mais uma ou duas questões para deixarmos o nosso sujeito desamparado com as nossas descobertas. Por vezes, a troca de informação põe em cheque os nossos suspeitos e mostram um comportamento mais agressivo ou defensivo, dando-lhes uma personalidade ainda mais rica.

Ainda em relação aos interrogatórios, em Crimes and Punishments quem é questionado pode tentar fugir do ponto sensível a que queremos chegar e, com as informações que temos, vamos obter várias hipóteses para o diálogo que force a pessoa a dizer o que queremos. Contrariamente à mecânica descrita no parágrafo anterior, esta é muito mais interessante porque cria tensão na trama, dado que estamos a pressionar um indivíduo de tal forma que quando nos revelam os seus segredos mais íntimos, também nos mostram as verdadeiras cores de sua personalidade. Isto pode ter uma enorme influência quando temos de decidir quem é o culpado do crime.

Pontualmente, no decorrer da investigação, temos de resolver pequenos quebra-cabeças para descobrirmos, pelos meios a que Sherlock Holmes tem acesso, mais provas que a polícia da Scotland Yard não consegue encontrar por si só. Por exemplo, um suspeito virou, propositadamente, tinta em cima de uma carta para não se conhecer o seu conteúdo. Sherlock terá de preparar uma substância química para remover essa tinta e revelar a mensagem escondida. E é precisamente a preparação dessa substância química que é o pequeno minijogo ao qual me referia, não é difícil mas é uma receita que temos de seguir por uma ordem lógica e com certas regras. Outro puzzle recorrente é abrir fechaduras alinhando um conjunto de retas desenhadas num cilindro. Caso sintam dificuldades em ultrapassar estes desafios, podem sempre carregar no botão para avançar esta secção, mas ficarão com a experiência manchada na vossa mente por terem saltado uma parte integral desta obra.

Por muito que uma prova nos diga o quê que aconteceu, esta não está livre de ser sujeita a uma interpretação. Uma bota do tamanho correto de uma pegada deixada num terreno lamacento só nos diz que a pessoa que tinha essa bota calçada esteve lá – só é apenas isso. Um calçado não nos indica as intenções e os motivos de uma pessoa. O conjunto de todas as provas, documentos, declarações e tudo o resto que é relevante para o caso a ser trabalhado é que nos vai dar uma imagem mais nítida de quem é o verdadeiro culpado do crime; uma prova isolada não serve de nada se não encaixar na história que todos os elementos do caso contam. No final, têm vários suspeitos e cabe-vos a vocês decidir quem é o criminoso e viver com essa escolha – por muito que este seja um jogo de Sherlock Holmes, os jogadores é que são os agentes da decisão. E é precisamente neste aspeto que Sherlock Holmes: Crimes and Punishments brilha.

Tecnicamente, Crimes and Punishments não é um título feio. Porém, um jogo que nos mostra uma Grã-Bretanha do século XIX tem uma certa beleza crua nos cenários que nos apresenta. Os modelos das personagens estão bem conseguidos, apesar de que alguns deles parecem ter vindo de um jogo feito para a PlayStation 2 – o que por si só não é uma má crítica, há jogos que foram criados para a consola da Sony e que continuam lindos – mas na generalidade do jogo, as personagem que têm pior aspeto são as que têm, também, animações menos conseguidas. Também devo salientar que as vocalizações estão muito bem executadas, todas as personagens parecem ter o sotaque correto da região onde vivem ou da classe social a que pertencem.

Para terminar, recomendo vivamente a quem gosta de clássicos de literatura policial, Sir Arthur Conan Doyle ficaria orgulhoso; Agatha Christie, Ellery Queen e Raymond Chandler ficariam cheios de inveja. Não é um jogo com as mecânicas mais refinadas de sempre, até porque este jogo oferece algumas facilidades. Contudo, este título fica perto de clássicos como Her Story ou os muitos outros point’n’click em que se inspira.

veredito

Uma aventura policial com o famoso e carismático detetive, que nos deixa espaço para deduzir o resultado das investigações. A narrativa é bastante interessante e tem um bom ritmo que vai em crescendo até à revelação final.
8 Ritmo do jogo. Personagens com boa vocalização. Mecânicas de recolha de provas. Facilitismos a mais.

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Sherlock Holmes: Crimes & Punishments

para PC, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360, Xbox One

Crimes & Punishments is an upcoming adventure game in the Adventures Of…

Lançado originalmente:

30 September 2014