Filipe Urriça por - Jan 14, 2022

Shin Megami Tensei V – Análise

Falar da dificuldade de mais um Shin Megami Tensei é, absolutamente, redundante. Shin Megami Tensei V é um Role Playing Game com combates por turnos que é, no mínimo, brilhante, quanto à jogabilidade que entrega. Por isso, é pena que a Atlus dê sobretudo importância a Persona, uma série spin-off de Shin Megami Tensei. Enfim, apesar da Nintendo ter, raramente, direito a um lançamento da série Persona, os fãs de marca de Quioto podem ficar satisfeitos por terem recebido dois títulos da série Shin Megami Tensei num único ano: Shin Megami Tensel III: Nocturne HD Remaster e, o título aqui em análise, Shin Megami Tensei V.

Um jogo destes exige-vos tempo e dedicação para terminá-lo, porque há conteúdo em quantidades generosas, assim como é necessário um período de habituação à exigente jogabilidade. Uma das imagens que vão ver com mais frequência, caso não estejam familiarizados com o que esta série vos pede, é o ecrã de Game Over. Isto pode ser incrivelmente frustrante, até mesmo se fizerem o descarregamento da dificuldade mais fácil. Quando perceberem que o grinding para evoluir é essencial para enfrentar bosses, vão ficar satisfeitos por este existir de tão bem desenhado que está. Apesar da dificuldade, Shin Megami Tensei V é único, porque consegue ultrapassar a exigência dos combates graças ao fantástico e fascinante ciclo de jogabilidade – que poucos RPG têm.

A narrativa de Shin Megami Tensei V abre com um protagonista mudo que vai para a escola como inúmeros outros miúdos. Depois das aulas, este nosso indivíduo, juntamente com outros colegas de turma, vai ter, acidentalmente, a uma versão de Tóquio em ruínas – um autêntico cenário pós-apocalíptico. Esta versão da cidade japonesa, onde os arranha-céus e toda a urbanização circundante da cidade estão soterrados em areia; sem darmos conta passamos de um mundo aparentemente normal para outro que está repleto de demónios, criaturas que não vão hesitar em atacar-vos ou dar dois dedos de conversa. É um mundo onde está a decorrer uma guerra aberta entre anjos e demónios – para assim não termos dúvidas que estaremos a lidar com uma temática claramente religiosa ou metafísica.

Por isso, o protagonista que está ao nosso controlo terá, obrigatoriamente, de se envolver neste conflito. Visto que este acontecimento tem tanta importância para o futuro da humanidade, um ser benevolente, o Aogami, juntar-se-á a nós para travarmos uma luta que não nos diz respeito, transformando-nos no Nahobino, um messias profético que tem como propósito pôr fim a esta situação e, como tal, salvar a humanidade durante o processo. É nesta forma não humana, em Nahobino, que não é anjo nem demónio, que que termos aprender a lutar e a descobrir um mundo mergulhado na destruição, uma realidade alternativa da capital do Japão.

A maior parte do jogo passa-se em quatro áreas deste submundo – a tal realidade alternativa ou universo paralelo onde temos uma versão pós-apocalíptica de Tóquio. Talvez por haver uma guerra interminável entre anjos e demónios, o mundo tem um aspeto estéril, sem vida, onde predomina uma paisagem formada por inúmeras dunas a cobrir a cidade. O design gráfico dos cenários de Shin Megami Tensei V vai ficando cada vez mais enfadonho, dado que temos de passar imenso tempo a explorar todos os recantos das diferentes áreas, para realizar as várias atividades que fazem parte da jogabilidade. Felizmente, todas as mecânicas e processos que compõem a jogabilidade fazem desta obra um jogo que se recomenda, por tão aprazível que acaba por ser, mesmo que tenha a tendência a ser repetitiva.

Neste RPG da nipónica Atlus, vocês controlam o vosso herói na terceira pessoa e têm de explorar o mundo fechado onde se encontram. Por vezes, temos a impressão de estarmos num jogo open-world, mas tudo não passa de uma mera ilusão, para o jogo parecer maior do que realmente é. Temos um objetivo assinalado no mapa e ao nos deslocarmos até ao seu local, vamo-nos cruzar, inevitavelmente, com vários demónios, de várias formas e feitios. Sempre que tocamos num inimigo, ou se formos tocados por ele, começa-se uma nova batalha por turnos. Nestas batalhas temos uma de três hipóteses: derrotar o monstro, fugir ou recrutá-lo.

Gosto muito de comparar Shin Megami Tensei a Pokémon, dado que são, realmente, bastante similares. Como é óbvio um é bem melhor do que o outro, por ter uma jogabilidade desafiante e com mecânicas mais cativantes, apesar de, novamente serem muito parecidos um com o outro. Na obra da Atlus, o sistema de adquirir novos demónios é muito mais apelativo do que apanhar os homólogos dos jogos da Game Freak. O combate, em Shin Megami Tensei V, é exponencialmente mais recompensador do que em qualquer outro título da série RPG de Pokémon. Porém, alguns jogadores poderão ficar de pé atrás com a obra da Atlus, porque podemos considerar que o grinding exigido possa ser o calcanhar de Aquiles deste exigente RPG com combates por turnos. Evoluir é uma parte essencial de Shin Megami Tensei V, porque para a nossa equipa atingir as suas capacidades de combate necessárias para avançar contra um boss fortíssimo, temos que combater vezes sem conta contra inimigos vulgares. No entanto, este grinding não é tão penoso como pode parecer, pelo simples facto de ser entusiasmante querermos adquirir novos demónios para revigorar a nossa party.

O gameplay loop de Shin Megami Tensei V é o que o faz ser tão bom, mesmo que este seja frequentemente interrompido por um ecrã de Game Over. Um dos elementos mais curiosos deste ciclo de mecanismos que constituem a jogabilidade é a aquisição de demónios, que pode ser feita de várias formas. O processo mais comum e barato de obtenção de demónios é a conversar com eles – sim, começar um diálogo com uma criatura é o equivalente a atirar uma Poké Ball nos jogos da Game Freak. Quando começa uma nova batalha, em vez de atacar ou defender, escolhe-se a opção “talk” para dar início ao diálogo entre o Nahobino e o demónio pretendido. Normalmente, a conversa acaba por ter traços cómicos, pois as criaturas costumam provocar e nós só temos de decidir como é que vamos responder da melhor forma para que o nosso adversário venha para a nossa equipa. Caso o demónio fique convencido com as nossas respostas, basta depois dar-lhe o que deseja, dinheiro ou itens aleatórios (mas há alguns que gostam de “comer” da nossa barra de energia ou de pontos de magia), para nos acompanhar na nossa aventura.

À medida que vamos aumentando de nível, recebemos a permissão para fundir cada vez mais demónios para ser criado um outro mais forte. Porém, para poderem fazer uma fusão terão de ter, primeiro, o nível que é exigido e os demónios necessários para se iniciar o processo. Caso não tenham o nível pedido para a fusão ser realizada, terão de voltar ao grinding das batalhas até estarem aptos para fazer a fusão que querem – nem que estas sejam feitas num processo quase automático. Uma vez atingido o nível de experiência que vos foi pedido, já podem fazer a fusão que tanto queriam e obter o demónio com as capacidades necessárias para revitalizar a vossa equipa, para assim já serem capazes de enfrentar o boss que vos bloqueia a progressão. No entanto, se não tiverem os demónios pedidos para a realização de uma fusão, podem ir por outro processo que vos permite pagar com os vossos Maccas (unidade monetária do jogo) para compensar pelo demónio em falta. Enfim, não vão haver grandes entraves se, na área onde se encontram, não houver a criatura pretendida.

As criaturas que estão ao nosso lado, servem um propósito, aumentar as nossas hipóteses de sobrevivência nos vários combates que temos, obrigatoriamente, de travar. O sistema de combate, por turnos não é inovador (com um sistema de fraquezas e vantagens para ser explorado), mas funciona perfeitamente bem e tem algumas particularidades únicas que nos incentivam a descobri-las para conseguirmos estar, sempre que possível, em vantagem perante o inimigo. Conforme vamos saindo vitoriosos das batalhas, enche-se uma barra de energia que, quando estiver cheia, permite utilizar uma técnica que faz com que todos os ataques, dos membros da nossa equipa, inflijam um dano crítico, ou seja um acréscimo significativo ao dano normal. Contudo, também convém saber quais são as fraquezas dos vossos adversários e utilizar isso a vosso favor, até porque assim conseguem ganhar turnos adicionais e podem aniquilar monstros antes destes terem sequer oportunidade de atacar.

Resumindo, o combate é divertido e tem muito para explorar nem que percam horas sem avançar praticamente nada, de tal modo que se fica embrenhado no grinding que vos é exigido para continuar e conseguirem ultrapassar inimigos mais complicados. Os bosses também são uma parte fantástica de Shin Megami Tensei V, pois são estes que nos farão ver o tão frustrante ecrã de Game Over. Por isso, é vital fazerem gravações pontuais, nomeadamente, antes de entrarem numa área com inimigos fortes, antes de enfrentar um temível boss ou depois de terem passado por algum grinding para não perdem o nível que atingiram.

Em Shin Megami Tensei V os bosses são difíceis por dois motivos: têm uma barra de saúde enorme, são mais inteligentes (aproveitam melhor as nossas fraquezas) e têm ataques devastadores. É claro que podem e devem tomar as devidas precauções, contudo, se forem desleixados estão a pôr-se a jeito para levarem com um ataque tão forte que arruma com a vossa party de demónios num instante. Portanto, todo o cuidado é pouco apesar da derrota ser uma parte fulcral da experiência Shin Megami Tensei. Não é por acaso que há uma dificuldade ainda mais elevada para se poder escolher.

Graficamente, o jogo da Atlus peca por nos dar áreas de exploração vazias e sem vida. No outro lado do espetro, temos modelos de demónios surpreendentes, é aqui que foi depositada grande parte da criatividade da direção artística do jogo. As músicas também são bastante inspiradas, com temas que sobressaem principalmente nas batalhas de tão enérgicas que são. Shin Megami Tensei V impressiona nas questões técnicas mas, por vezes, surpreende-nos pela negativa com os seus cenários tão insípidos.

Depois de inúmeras horas a jogar este RPG nipónico, que exige paciência a quem joga, fiquei fascinado com o que foi oferecido. O design dos demónios é brilhante, o combate é desafiante (mais do que qualquer outro jogo do género) e o colecionismo de criaturas demoníacas é cativante, ainda mais do que em Pokémon. Não é um jogo para todos, porque bater de frente contra um boss, vezes sem conta, é algo complicado de ultrapassar, mas quando suplantado, a sensação de recompensa é enorme. Joguem este título da Atlus, é o auge da afinação de mecânicas de combates por turnos.

veredito

A obra da Atlus é um dos melhores RPG nipónicos a chegar à Nintendo Switch. A sua dificuldade pode afastar alguns jogadores, mas quem fica sabe que será recompensado com um jogo fantástico e com um combate bem afinado.
9 Sistema de combate. Design dos inimigos. Mecânicas para adquirir novos demónios. Jogabilidade desafiante.

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para Nintendo Switch

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Lançado originalmente:

12 de novembro, 2021