Apesar de ser uma série com já vários anos e inúmeras entradas no seu currículo, Shiren The Wanderer tem um histórico muito irregular e inconstante no que diz respeito à sua presença e relevância no mercado ocidental. A última iteração da série nipónica a dar o salto para o lado contrário do Oceano Pacífico data já de 2010 e desde então mais um par de lançamentos deste dungeon-crawler tiveram lugar no Japão sem que nenhum deles tenha sido considerado merecedor de uma adaptação para o Ocidente.

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Agora, oito anos volvidos desde o lançamento da série na Nintendo Wii, a Aksys Games decidiu localizar o remake da quinta entrada de Shiren The Wanderer, com o longo subtítulo de The Tower of Fortune and the Dice of Fate, para o disponibilizar aos jogadores ocidentais que morderam o isco e adquiriram a cada vez mais defunta portátil da Sony, a PlayStation Vita. Sendo a primeira obra da série a ser lançada numa consola da gigante japonesa, é provável que venha também a ser a primeira exposição de muitos jogadores a uma experiência que está muito longe de ser acessível ou simpática para os menos familiarizados com o género.

Tal como nos títulos anteriores, o protagonista Shiren faz-se acompanhar pelo furão Koopa e embarca em busca da sua próxima aventura. Após fazer uma paragem numa vila, o duo dá por si envolvido numa história de amor entre uma rapariga às portas da morte e um rapaz que decide partir em busca do Dice of Fate para o entregar a Reeva, deusa do destino, no topo da Tower of Fortune numa tentativa desesperada de alterar o destino da sua amada. Como tantas vezes acontece, a narrativa serve mais para oferecer contexto às nossas ações do que para contar uma história interessante, sendo provável que não percam grande tempo a pensar nas motivações das personagens.

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Focando-se assim naquilo que mais interessa, a jogabilidade, Shiren The Wanderer pode ser descrita como uma mescla de vários géneros muitas vezes utilizados em conjunto para se diferenciarem entre si. RPG, rogue-like e dungeon-crawler são todas descrições válidas para o título em questão, um título que brilha precisamente pela qualidade da sua jogabilidade e pela forma como conjuga todos estes elementos de forma a produzir uma experiência interessante e satisfatória.

Como não poderia deixar de ser, as masmorras são um dos elementos de maior importância do jogo e, embora a diversidade de cenários seja escassa, a imprevisibilidade dos seus interiores inerente ao facto de cada um deles ser procedimentalmente gerado garante que o jogador nunca esteja preparado para aquilo que lhe surgirá pela frente. Sim, existem padrões que podem ser antecipados, mas para além dos tipos de inimigos que poderão surgir no vosso caminho, tudo o resto é praticamente impossível de prever, impedindo por isso que possamos memorizar a disposição das dungeons e dessa forma antecipar obstáculos.

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Recheadas de armadilhas, inimigos e itens para recolher, as masmorras compõe praticamente 100% do vosso tempo com o título, sendo por isso responsáveis pelos momentos de maior brilhantismo e de maior frustração provocados ao longo da aventura. Embora não aparente, o combate e a movimentação é realizada por turnos, ou seja, os inimigos apenas se movimentam quando jogador realiza uma ação, oferecendo assim tempo para planearmos as nossas abordagens e conferindo uma maior componente estratégica à jogabilidade.

É uma pena, portanto, que a obra faça um trabalho bastante pobre em explicar todas as suas mecânicas aos que apenas agora se estreiam na série. A vila onde iniciam a aventura contém uma área para realizarem um tutorial opcional, mas os desafios que apresenta estão muito longe de serem representativos das dificuldades que encontrarão nas masmorras. Para além dos elementos mais básicos da experiência como a ingestão de alimentos para evitar a perda de saúde e maleitas negativas que afetam o desempenho do protagonista, o tutorial não só é pouco prestável, como acaba por se arrastar por demasiado tempo caso queiram cumpri-lo na totalidade.

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A gestão do inventário é especialmente problemática porque, ao contrário do que é habitual, as masmorras estão recheadas de itens que preencherão o vosso inventário bastante rápido. Percebe-se que o objetivo da produtora é incentivar a utilizar os itens no imediato ao invés de os guardarem para necessidades futuras, mas o jogo explica muito mal a utilidade de cada um deles, obrigando-nos a parar a aventura e percorrer os poucos intuitivos menus para ler as suas descrições e para descobrir quais as armas e equipamentos mais poderosos. No fundo, Shiren The Wanderer torna a gestão do inventário extremamente cansativa e fastidiosa, quebrando demasiadas vezes o ritmo da ação.

Ainda assim, o elemento mais divisivo do título é a forma como gere a progressão do protagonista e castiga os vossos fracassos. De uma forma sucinta, sempre que morrerem perderão todo os vossos itens, o nível da personagem, o equipamento e o dinheiro, tendo, essencialmente, de iniciar o jogo de novo. Na verdade, até quando concluem uma masmorra com sucesso perdem o vosso nível, sendo que a manutenção dos itens e dinheiro é a vossa única recompensa. Aqui se definirá se o jogo será ou não uma experiência agradável para vocês, a dificuldade é absolutamente brutal e, embora não tenham de repetir masmorras previamente concluídas, ter de regressar à vila inicial e começar do zero a evolução do protagonista pode ser incrivelmente frustrante para muitos jogadores.

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É certo que, caso consigam concluir uma masmorra, podem guardar na vila algum dinheiro e equipamento para vos precaver caso a próxima aventura pelas dungeons termine de forma precoce. No entanto, como as oportunidades para colocar estes itens de reserva na vila são escassas, caso morram várias vezes na mesma masmorra, acabarão por dar por vocês a ter de trabalhar bastante até conseguirem ultrapassar o obstáculo que vos têm destruído vezes sem conta. Shiren The Wanderer é um título onde poderão jogar inúmeras horas sem realizarem qualquer tipo de progresso considerável, algo que, dependendo das vossas preferências, poderá tornar-se numa experiência pouco satisfatória.

Posto isto, o título conta ainda com a possibilidade de contratar companheiros para atacar as masmorras, contudo e sem grande surpresa, a sua utilidade é bastante questionável e nem sempre se traduz num investimento inteligente. Os seus ataques provocam danos significativos, o problema é que raramente o fazem e após várias horas com o jogo continuo sem perceber qual o critério segundo o qual estes decidem atacar ou não. Claro que o facto de se colocarem sempre na nossa retaguarda não ajuda, anda assim, foram inúmeras as situações delicadas em que me encontrei sem que estes esboçassem qualquer tentativa de me ajudar.

Por último, resta mencionar a existência de um ciclo dia e noite que confere uma ainda maior imprevisibilidade às masmorras. Obviamente, a noite traz consigo inimigos muito mais fortes e capazes de vos destruir com um único ataque e que apenas podem ser destruídos com feitiços e não pelas armas tradicionais. Porque aparentemente a dificuldade já não estava suficientemente elevada, as masmorras noturnas são apenas mais uma razão para fazer tremer os dedos dos jogadores e para os levarem ao desespero.

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Graficamente, The Tower of Fortune and the Dice of Fate segue o estilo visual a que a série nos tem habituado, optando por uma arte a duas dimensões a fazer lembrar clássicos do passado. Como já referi, o grafismo é interessante, sobretudo no que diz respeito ao design dos inimigos e dos equipamentos, mas deixa bastante a desejar na variedade de cenários que oferece nas suas masmorras, uma vez que estas acabam por se tornar bastante semelhantes entre si. Por outro lado, a banda sonora acompanha de forma agradável a experiência, conferindo-lhe um tom pitoresco e de aventura.

Em suma, Shiren The Wanderer: The Tower of Fortune and the Dice of Fate é uma sólida entrada de uma série que certamente dividirá opiniões devido à sua dificuldade considerável e à forma como castiga os erros e fracassos dos jogadores. Se gostam deste género de experiências, então Shiren The Wanderer será certamente uma obra da qual poderão retirar muitas dezenas de horas. Se, pelo contrário, preferirem uma obra mais recompensadora e capaz de oferecer uma maior sensação de progresso, duvido seriamente que retirem grande prazer do que este título tem para vos oferecer. Independentemente disso, existem problemas claros que prejudicam a experiência e a impedem de atingir patamares superiores de qualidade.