Shovel Knight: Treasure Trove terminou com o lançamento simultâneo de King of Cards e Showdown. E King of Cards vem provar que ainda se pode fazer muito no mundo idealizado pela Yacht Club Games. Uma simples troca de personagem muda tudo, King Knight altera pela terceira vez como se joga o título de plataformas da produtora californiana.

A Yacht Club Games colocou sempre uma maior importância nas capacidades de movimentação da personagem com a qual estava a trabalhar, do que focar-se na sua aptidão para combater. Isto fez com que o jogo se tornasse genial, visto terem construído tudo em prol do que, neste caso, King Knight é capaz de fazer.

Se já não tivesse visto os vídeos promocionais de Shovel Knight: King of Cards, a primeira dúvida seria sobre a forma como King Knight se desloca pelo cenário. Andar para a esquerda e para a direita é um dado empírico da minha experiência com inúmeros videojogos deste género. A grande revelação seria quando King Knight tivesse de saltar para uma plataforma mais alta do que o seu salto básico.

O movimento fundamental de King Knight é um encontrão. Este movimento impulsiona o seu corpo para a frente, com uma ligeira inclinação, onde o ombro é a parte que vai embater primeiro no obstáculo mais próximo. Os obstáculos do jogo não são só os inimigos, pois há diversos objetos e paredes que servem para nós embatermos e passarmos ao passo seguinte dos movimentos singulares de King Knight.

Depois de um embate realizado com sucesso, King Knight salta novamente, atingindo uma maior altura, enquanto rodopia como uma autêntica bailarina de uma academia russa. O encontrão seguido do salto a rodopiar são os dois movimentos mais básicos nos quais a produtora americana construiu o resto do jogo. A totalidade do design - seja dos níveis, dos inimigos, assim como o do grafismo - foi pensada para colocar a jogabilidade em destaque.

O resultado é um jogo sublime que aproveita todos os detalhes da movimentação mais básica da King Knight, tornando-a mais complexa à medida que nos afastamos do nível inicial. Por vezes, Shovel Knight: King of Cards é um jogo bastante difícil, sem nunca ser intransponível, o que resulta em frustração, mesmo que estejamos cientes que a culpa é da nossa falta de habilidade ou de atenção aos pormenores. Basta que um novo elemento, como por exemplo o vento, seja introduzido para que isto signifique morrer vezes sem conta, até termos finalmente aprendido o que a produtora quer de nós.

King of Cards, tal como tudo o que está incluído em Treasure Trove (o jogo completo com todas as expansões), não é injusto e é muito divertido. Temos sempre uma sensação recompensadora ao ultrapassar cada um dos níveis que constituem a aventura de King Knight. Aliás, a própria forma do jogo continua divertida e detentora de uma narrativa cómica com personagens realmente únicas. As garagalhadas não vêm sempre do suplantar das plataformas - apesar de que este aspeto já seria mais que suficiente. Há um novo jogo de cartas: Joustus.

Jogar cartas em King of Cards é uma agradável pausa nos difíceis níveis de plataformas. Com cento e trinta e cinco cartas disponíveis, podemos jogar partidas de cartas bem elaboradas. A base do jogo é muito simples: cada jogador coloca, um de cada vez, cartas no tabuleiro de forma a conseguirem amealhar a maior quantidade de pedras preciosas que lá se encontram.

Contudo, há um senão: não podem colocar as cartas diretamente em cima das pedras preciosas, têm de empurrar as cartas que já estão na mesa para as poderem apanhar. O jogo termina quando já não houver espaço para colocar cartas, momento que serve para averiguar quem tem as cartas nos locais onde estão as pedras preciosas.

Joustus é bastante divertido e vai aumentando a sua complexidade, dado que vão aparecendo novos tabuleiros com características únicas, assim como cartas com novas funcionalidades. À medida que se ganha, apanham-se novas cartas para depois juntá-las ao nosso baralho e assim melhorar o nosso desempenho nos próximos embates.

Apesar de ser bastante divertido, assim como ser uma boa adição ao mundo de Shovel Knight, o jogo de cartas Joustus tem algumas falhas. Obviamente vão amealhar vitórias tal como derrotas. Todavia, quando perdem, o adversário tem a oportunidade de vos tirar uma carta do vosso baralho que foi colocada no tabuleiro de jogo. Esta particularidade do jogo, apesar de ser justa, representa uma grande inconveniência.

Obviamente que é possível recuperar a carta que acabaram de perder, se ganharem ao mesmo oponente numa nova partida, todavia é preciso que este a jogue no tabuleiro. Caso não consigam recuperá-la - existem partidas bastante complicadas -, podem sempre dirigir-se a uma personagem que vos deixa retomar o que era vosso a troco de uma certa quantia monetária.

Pagar para recuperar cartas não é que seja mau de todo, mas não é a melhor solução quando temos oportunidades para investir em novas habilidades, técnicas ou armaduras. Visto que a campanha se foca mais nos clássicos níveis de plataformas, tentar recuperar o que perdemos no Joustus é um autêntico desperdício de dinheiro.

O aspecto técnico é outro dos pontos fortes de King of Cards. Quem aprecia pixel art ao estilo dos jogos SNES e de música chiptune vai ficar maravilhado com o que foi feito nesta expansão. Jake Kaufman volta a assinar a composição da banda sonora original de mais uma expansão depois de tê-lo feito no jogo original e em todas as expansões lançadas até agora. É um grafismo e uma sonoridade que estão renovados, sem nunca deixarem de serem familiares a quem já viu, por exemplo, por três vezes o covil da Enchantress.

Acabar a campanha principal, que são cerca de quinze horas, não significa ver tudo o que o jogo tem para oferecer. Há, para quem gosta, achievements para desbloquear e ainda desafios específicos para ultrapassar. O que não falta são motivos para permanecerem no mundo de Shovel Knight até que Shovel Knight Dig chegue ao mercado.

King of Cards fecha Treasure Trove com chave de ouro. É uma adição gratuita para quem comprou Shovel Knight: Treasure Trove, mas se preferirem adquirir a expansão separadamente, está também disponível por um preço bastante acessível. O único ponto mais fragilizado é Joustus, contudo, ainda conseguem retirar bastante diversão deste modo. No seu cômputo geral, King of Cards é um excelente jogo de plataformas, mais acessível do que Plague of Shadows, mas bem mais difícil do que a expansão anterior, Spectre of Torment. Mesmo que paguem os dez euros pelo jogo, é um muito bom investimento.