A Nintendo Switch tem a sorte de ter recebido no seu lançamento um dos melhores títulos multiplataformas de sempre. Um jogo onde nos é possível acreditar que a indústria de videojogos está a tomar o rumo certo, que o Kickstarter é uma via de comunicação entre produtores e consumidores para construir uma relação de confiança. Por isso, tal como a própria Nintendo, a Yacht Club Games aproveita esta nova consola japonesa para a utilizar como um meio de mudança; uma forma de evoluir Shovel Knight para aquilo que merece ser. 

Assim, a alteração mais evidente está no título: Shovel Knight: Treasure Trove. Treasure Trove é a edição original completa, mas mais cara, com um acréscimo notável no seu preço. Já têm a versão original numa outra plataforma? Então não se preocupem que os prometidos conteúdos gratuitos continuarão a não exigir dinheiro extra por campanhas inteiras como Plague of Shadows e, agora, Specter of Torment. A Yacht Club Games mantém a promessa que fizeram na sua campanha Kickstarter. Desta forma levam, Shovel Knight: Shovel of Hope (a aventura original), Shovel Knight: Plague of Shadows e Shovel Knight: Specter of Torment à consola do momento: a Nintendo Switch. A nova campanha de King Knight e um modo de batalha serão entregues ainda este ano, sem custos adicionais. 

Imagens Analise Treasure Trove

Shovel Knight foi a razão pela qual a produtora californiana pediu fundos no Kickstarter. Com sucesso, angariaram mais de trezentos mil dólares. E ainda hoje é um dos exemplos notáveis de como se deve fazer um título com fundos vindos de doações públicas. O cavaleiro Shovel Knight é a personagem principal, que o jogador controla, de uma narrativa de amizade. Porém, o foco é a jogabilidade que tantos jogadores sentem saudades da era da NES. 

Shovel of Hope coloca-nos na demanda de terminar com a Order of No Quarter e com os planos da Feiticeira maléfica. Porém, nem tudo é preto no branco, há motivações por descobrir, mistérios prévios por desvendar e personagens fabulosas por conhecer. A jogabilidade deste capítulo é divinal, sem nunca estar refém da qualidade dos títulos dos quais se inspira, Shovel Knight tem píncaros de jogos NES como Ducktales, Super Mario Bros. 3, Mega Man, Castlevania e Zelda II: The Adventure of Link. Desta inspiração foi possível criar algo original com carácter e com mecânicas meticulosamente afinadas tal e qual um relógio suíço, onde tudo serve para dar uma experiência única a quem joga. 

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Eliminar inimigos é uma atividade muito própria, onde cada sucesso sente-se ser merecido e cada insucesso não nos pune arbitrariamente mas oferece uma oportunidade de aprender com os erros. O mesmo se pode dizer da navegação pelas plataformas do nível, uma vez que quando chegamos aos níveis mais avançados temos perante nós autênticos puzzles, onde é posta à prova o que nos foi ensinado desde o início do jogo. 

No capítulo de Shovel of Hope é onde a jogabilidade está mais equilibrada entre a dificuldade e as técnicas que nos são exigidas para ultrapassar obstáculos, bosses e plataformas através de movimentações especiais. O mesmo já não se pode dizer das duas expansões; Plague of Shadows é definitivamente a campanha que sofre de um maior desequilíbrio, dada a enorme dificuldade em dominar a sua peculiar movimentação. 

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Porém, a primeira expansão de Shovel Knight, Plague of Shadows, está longe de ser má. A narrativa deste capítulo explora a personagem Plague Knight, um dos oito cavaleiros da ordem real da Feiticeira maléfica - a Order of No Quarter. Com a sua vida inteiramente dedicada ao estudo da Ciência, Plague Knight descobriu uma forma de se tornar ainda mais poderoso do que já é. E para isso, o alquimista terá de elaborar uma fórmula com um fragmento de um material comum a todos os cavaleiros da ordem. O que diferencia todas as personagens é o instrumento utilizado para o combate; Plague Knight faz da sua profissão o meio para produzir as suas bombas. Estas podem variar conforme as suas características (fusível, formato da bomba e pólvora) e serem adaptadas à forma do jogador se sentir mais confortável e às exigências do nível em si. 

Saltar para plataformas mais elevadas, que requerem mais impulso que um simples salto, pode ser uma tarefa por vezes complicada, principalmente em situações em que a vida de Plague Knight está em perigo. A mecânica é esta: lancem uma bomba, mantenham pressionado o botão utilizado para executar esta ação e quando o largarem é-nos permitido dar um salto com uma impulsão considerável. Podem até combinar este salto com o básico, para assim chegar a lugares que eram inalcançáveis. A dificuldade desta técnica de salto reside na localização do próprio botão que gera confusão, visto esse botão ser utilizado para ataque e existir outro para o salto básico. Caí, inevitavelmente, na confusão, na troca de botões ou de timing errado. 

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No seu cômputo geral, Plague of Shadows é muito bom uma vez ultrapassada esta barreira de dificuldade. É claro que quem joga tem que ter a predisposição necessária para aprender com os erros, embora estes não sejam cometidos uma dezena de vezes ou mais, em todos os níveis. Se Shovel of Hope é adequado para todo o tipo de jogadores, Plague of Shadows é recomendado para mãos de jogadores mais avançados. 

O terceiro e mais recente capítulo da saga Shovel Knight, Specter of Torment, funciona como uma prequela de Shovel of Hope. Aqui é-nos dado a conhecer a história de Specter Knight, o cavaleiro que ficou responsável pelo recrutamento de todos os membros da Order of No Quarter a mando da Feiticeira maléfica. E é aqui que se levantam questões como: “Porquê que ficou este cavaleiro incumbido com esta tarefa?”, “Quais são as motivações de Specter Knight?” out até “Como é que esta personagem se tornou em Specter Knight?”. São perguntas e dúvidas que ficam esclarecidas ao longo da campanha, onde descobrimos mistérios, desvendamos segredos e ficamos a conhecer melhor a personagem protagonista deste capítulo. 

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A jogabilidade continua a ser o elemento mais importante do novo capítulo de Shovel Knight. Specter of Torment precisava de ser muito bem equilibrado, pois como boss de Shovel of Hope a sua poderosa foice ocupava uma boa parte do cenário quando esta era lançada contra Shovel Knight. Este ataque poderia fazer desta personagem uma força devastadora, por isso foi curioso perceber como é que a adaptação iria ser feita. Felizmente a moldagem da personagem de boss a protagonista controlado pelo jogador correu da melhor forma. 

Tal como qualquer personagem que protagoniza Shovel Knight nos seus diferentes capítulos o que as distingue de cada um são os seus ataques. A foice de Specter Knight permite não só atacar, mas também oferecer uma movimentação diagonal muito própria. Além de conseguir dar alguns passos pelas paredes, como se este cavaleiro fosse um entendido em parkour, consegue ganhar um impulso diagonal, ascendente ou descendente, ao atacar com a sua foice. Esta mecânica obrigou os produtores a modificar completamente os níveis de Shovel Knight, sem lhes remover a sua graça estética. 

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No entanto, esta possibilidade de atacar na diagonal e manter-se no ar facilita muito o confronto com alguns dos vários bosses. O melhor deste capítulo é, claramente, a forma como o protagonista se desloca pelo cenário. A alteração do mundo foi a melhor decisão que aconteceu. Adaptado em especial para esta personagem, a deslocação quer-se rápida, desafiante e divertida; a Yacht Club Games conseguiu consagrar todos estas características para a movimentação de  Specter Knight.

Shovel Knight: Treasure Trove é um excelente compêndio para se iniciarem naquela que é, francamente, a melhor campanha Kickstarter de sempre. É mais caro, mas também ninguém vos obriga a terem que pagar novamente este título, mas caso não o tenham é um jogo que vale cada cêntimo investido.