A grande surpresa de Skelattack, um jogo da Ukuza, que também já lançou Epic Loon na Switch, é que foi publicado pela Konami. A empresa nipónica, que outrora era considerada uma gigante no mercado dos videojogos, acordou finalmente para perceber que os jogos independentes podem ser um bom negócio para faturar os milhões que outros conseguem.

Criar uma marca como a Square Enix Collective, que apoiou a produção de jogos incríveis, deveria ter sido o caminho a tomar, para a audiência não fazer a ligação com as séries do catálogo da Konami que já não tem interesse em renovar. Contudo, Skelattack pode muito bem ser o ponto de partida para um plano bem trabalhado, que possa colocar novamente a produtora de Silent Hill nas luzes da ribalta.

Undervale é um refúgio para espíritos, é um lugar calmo e tranquilo para relaxar numa vida após a morte, contudo, a maioria dos habitantes são esqueletos, tal como se fosse um paraíso inspirado pela cultura popular mexicana. Para o nosso herói, Skully, Undervale é onde deseja estar, mas não pode simplesmente relaxar e ficar sem preocupações durante toda a eternidade. Os mortos de Undervale têm eventualmente de superar uma prova, intitulada de The Remembrance, uma espécie de aventura numa masmorra onde os mortos enfrentam o seu passado, algo que os falecidos esquecem quando chegam a Undervale.

Skully e o seu amigo Imber, um morcego amável, estão mais que prontos para participar na cerimónia, assim como os jogadores: este é uma perspectiva interessante que podeia ser o início de uma aventura memorável. Os humanos, os seres vivos que não se contentam com a vida pacífica dos mortos, preferem acreditar que após a morte haverá um vazio, onde todo o significado termina. Assim, os humanos decidem invadir Undervale para uma exterminação completa de todos os que lá vivem. Mesmo com esta ameaça, Skully não vacila perante o perigo, afinal é o protagonista desta história, e decide salvar o ancião da aldeia e recuperar uma chama azul que tem poderes mágicos para ajudar todos os que tiverem de passar pela prova The Remembrance.

Skelattack é um jogo de plataformas puro e duro - bastante duro. Contudo, há alguns elementos de ação e de exploração à mistura, sem alterar a verdadeira essência de um jogo de plataformas que a obra da Ukuza emana. Quando perceberem para que lado é que as engrenagens do jogo rodam, vão entender que Skelattack é um jogo onde grande parte da atividade passa pelo atravessar de vários níveis que envolvem precisão, um bom timing e saber o que é que vos pode matar instantaneamente.

Ao longo de um determinado nível vão encontrar checkpoints para que possam regressar a uma parte mais avançada do local onde estão, mas estes estão espalhados de forma arbitrária. Ou seja, os checkpoints tanto podem estar perto de onde começaram a percorrer o nível, como mais longe. Ou pior: às vezes estão no fim de uma secção bastante complicada de atravessar, uma vez que há desafios típicos de um jogo de plataformas bem difíceis. Não é por acaso que há uma personagem em Undervale que regista o número de vezes que morremos, um número que chega facilmente à classe das centenas.

Skully movimenta-se muito bem nesta aventura, além de correr e saltar ainda pode fazer saltos entre paredes e ter a ajuda de Imber para planar para certos locais, em espaços muito específicos, visto ser necessário uma corrente de ar para tirar proveito desta mecânica. Quanto ao ataque podemos brandir uma espada de dimensões generosas, assim como atirar um bumerangue muito útil, para complementar o bom design dos níveis.

É pena que em Skelattack estejamos quase sempre no fio da navalha, porque não é raro morrermos ao mínimo erro. Há um nível que é um excelente exemplo do quão frustrante Skelattack é: temos de usar Imber para sobrevoar um local cheio de espigões e de vapor de ar quente, onde temos de estar constantemente a subir e descer a uma velocidade demasiado elevada para alguém conseguir passar este nível à primeira tentativa. Se os Joy-Con não estivessem agarrados à consola, era muito provável que já os tivesse atirado ao chão.

Visualmente, Skelattack é bonito de se ver. Um jogo de plataformas tão exigente como este disfarça a sua natureza implacável com um grafismo desenhado à mão, muito similar a Cuphead, mas sem o brilhantismo da fluidez e dinamismo do jogo da Studio MDHR. Os modelos das personagens, tal como os cenários estão muito bem desenhados, o único ponto menos bem conseguido é a animação um bocado rígida das personagens. Infelizmente, o jogo também sofre com alguns solavancos quando há muito movimento no ecrã, sobretudo quando não é só Skully que se está a movimentar.

Em suma, Skelattack é um jogo de plataformas decente, tem a longevidade adequada, que se estende com a grande dificuldade, e ainda é complementado com uma narrativa peculiar, apesar de descartável. O papel da Konami vai ser preponderante para fazer com que Skelattack venda mais do que se a Uzuka se mantivesse independente. Porém, um jogo não vende só com uma grande marca a apoiá-lo e a Konami, infelizmente, já não é a produtora e editora que era sinónimo de grandes jogos. Por isso, a Uzuka terá de salientar as valências da sua obra que apesar de ter traços de bom design, é uma experiência mais frustrante do que precisaria de ser.