É comum no mundo do entretenimento muitos projetos ficarem aquém das expectativas ou entregarem produtos finais bastante diferentes daqueles originalmente idealizados pelos seus criadores. Períodos de produção atribulados e recheados de problemas de bastidores que raramente são tornados públicos dão muitas vezes origem a obras torturadas que, ou acabam canceladas sem apelo nem agravo, ou então se arrastam a muito custo para chegar ao mercado apenas para serem recebidos com a deceção característica de algo que poderia ser muito mais.

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Slain! é um desses casos. Um título que tinha potencial para ser algo especial, uma homenagem aos clássicos, mas que acaba por não ser mais do que um perfeito exemplo daquilo que um lançamento apressado e mal preparado pode significar para o seu sucesso. Lançado no início do ano no PC, o jogo independente chegou ao Steam recheado de problemas técnicos e até de bugs que o tornavam praticamente impossível de jogar. Vários meses depois, a produtora, que tentou sempre responder às críticas, lançou uma atualização gigantesca que prometia corrigir todos os problemas do título, tendo aproveitado a ocasião para disponibilizar simultaneamente a versão atualizada nas consolas.

Depois de passadas algumas horas com Slain: Back From Hell, nome completamente apropriado para a temática do título e para o seu historial, percebe-se facilmente que os problemas da obra vão muito para além dos erros técnicos que assolaram o seu lançamento. Apesar de ir buscar inspiração aos sítios correctos, mais concretamente a Castlevania, Slain! nunca se consegue sequer aproximar dos altos atingidos pelas melhores obras do género em que se insere e acaba por se transformar rapidamente num exercício de repetição e frustração que não mata, mas mói bastante.

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A narrativa vê o jogador assumir o controlo de Bathyron, um herói de longos cabelos brancos em busca de libertar seis reinos amaldiçoados dos seis poderosos overlords que os controlam. Sem grande surpresa, o arco narrativo está longe de ser o foco central da obra e serve apenas para dar algum contexto e motivação às ações que vamos realizando durante a campanha. É uma história bastante básica e os inimigos estão longe de ser memoráveis, mas ainda assim este não é o principal problema da obra.

Sabia-se de antemão que Slain: Back From Hell pretendia oferecer um desafio exigente aos jogadores que se atrevessem a tentar superá-lo, contudo, a dificuldade do título nunca consegue gerir aquela ténue linha que separa o desafio recompensador da exigência frustrante. Slain! é sem dúvida difícil, mas quando se tem uma jogabilidade que carece de diversidade e que raramente consegue oferecer momentos de real satisfação, rapidamente começam a surgir os momentos de frustração e irritação que ameaçam o bem-estar do comando.

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A variedade de inimigos é assinalável e as batalhas com os bosses que assinalam o final de cada área do jogo são, de uma forma geral, agradável, o problema é que o jogo não sabe fazer o melhor uso, limitando-se a preencher de forma quase aleatória os cenários com inimigos que em determinadas combinações se tornam mais um teste à paciência do que à habilidade do jogador. Ataques normais, ataques mágicos, deflexões de projéteis e bloqueios são as habilidades ao nosso dispor e cada uma delas tem um diferente grau de dificuldade consoante o inimigo.

Se em alguns momentos as batalhas parecem construídas com o intuito de testar a nossa capacidade para utilizar o arsenal de movimentos e ataques do protagonista, em outras ocasiões o título limita-se a atirar ao jogador um panóplia de inimigos que envolvem o uso de diferentes estratégias em simultâneo e que não só são irritantes, como parecem existir apenas para retardar a progressão do jogador. Os cenários são um misto relativamente equilibrado de combate e segmentos de plataformas recheados de armadilhas, sendo que é de salientar a qualidade e precisão dos controlos nestes momentos.

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Tecnicamente, como já foi referido, os problemas foram todos corrigidos depois daquele desastroso lançamento, pelo que resta apenas mencionar o seu bastante apelativo estilo visual retro e extremamente pixelizado que apenas serve para fortalecer as comparações com os clássicos do passado, apresentando um design diversificado nos seus inimigos e bosses, bem como nos diferentes cenários que caracterizam as várias áreas do jogo. Para além disso, a banda sonora de heavy metal acompanha na perfeição a jogabilidade e dá aquela injeção sempre importante de adrenalina que apazigua a frustração das mortes consecutivas.

Slain: Back From Hell não é um mau jogo, mas também está longe de ser bom. A jogabilidade tinha potencial e o título apresenta alguns momentos de real inspiração, sendo apenas de lamentar o facto desses momentos serem escassos quando comparados com as inúmeras situações de frustração provocadas por uma dificuldade claramente exagerada e muitas vezes pouco equilibrada. Ao ser incapaz de proporcionar a satisfação necessária para disfarçar a frustração, Slain! é uma obra que promete testar a vossa paciência, mas que, muito sinceramente, não oferece o suficiente para ser merecedora de tal esforço.