Quando ficamos absorvidos num jogo é porque existe algo bem feito, ou praticamente tudo está num patamar que conquista o nosso foco. Gosto de jogos de cartas, desde a clássica "Sueca" a Uno (para jogar numa mesa), passando por Magic: The Gathering ou Hearthstone (se quiser jogar numa consola ou no PC) , assim como o simples Reigns (para partidas rápidas no telemóvel).

E agora tenho de juntar a esta lista Slay the Spire, um excelente jogo de cartas que tem a sua própria abordagem ao género dos jogos de cartas, que inclui elementos roguelike e dungeon crawler muito bem implementados para se diferenciar da extensa oferta existente no mercado e, sobretudo, entregar uma experiência estratégica de grande valor. 

Dada a sua estrutura, tal como eu, inúmeros jogadores vão gostar de perder horas, provavelmente na ordem das centenas, a jogar Slay the Spire. São tantas as nuances e detalhes para explorar que haverá quase sempre algo novo a fazer. Seja numa daily run, numa nova tentativa de avançar com uma personagem diferente ou na tentativa de encontrar novas combinações de cartas que vos permitam desequilibrar as regras do jogo a vosso favor. 

Esta obra norte-americana, criada pela MegaCrit e publicada pela Humble Bundle, é um jogo de coleccionismo de cartas, porém, é muito diferente dos jogos da Blizzard ou da Wizards of the Coast mencionados na abertura do texto. Vocês escolhem uma personagem para partir à aventura pelas masmorras recheadas de monstros, as cartas que vão utilizar estão associadas a cada uma destas personagens. Por exemplo, um guerreiro, onde o combate físico é a sua forma principal de encarar os adversários, não vai ter habilidades mágicas, tal como um feiticeiro não vai empunhar um enorme machado para provocar dano. 

Como disse no parágrafo anterior, há coleccionismo de cartas, mas Slay the Spire tem mais elementos dos típicos dungeon crawler do que dos habituais jogos CCG (Collectible Card Game). À medida que vencem encontros, nas salas nas quais decidiram avançar, é-vos oferecida uma recompensa: ouro, poções, relíquias e, o mais importante, mais cartas para adicionar ao vosso baralho. Nos confrontos seguintes, as cartas ganhas aparecem nas cartas que vos são distribuídas em cada jogada. E é precisamente aí que têm de começar a aprender como é estas novas cartas se comportam com as cartas que já têm na vossa mão. 

Começam a jornada escolhendo primeiro a personagem e, de seguida, o caminho que vão fazer pelo mapa até ao Boss final. Cada paragem é uma sala onde pode haver vários tipos de eventos. Há combates com monstros de dificuldade normal, outros de dificuldade mais acentuada, uma fogueira onde podem recuperar saúde ou melhorar cartas, existem também locais marcados com um ponto de interrogação com eventos aleatórios. Vocês é que optam o caminho que mais se adequa às vossas habilidades e também à possibilidade que têm de arriscar alguns pontos de saúde. 

Este título não é para chegar ao objetivo final, pois chegar ao cimo do mapa, onde está o Boss, é só uma parte da diversão. O grande apelo do jogo é melhorar a nossa forma de jogar com as cartas, de escolher as que queremos receber, manter ou descartar. Jogar com as poções e relíquias, com diversos efeitos é também uma opção viável para atingir o objetivo. E se são muito competitivos, as competições diárias são boas para treinar o manejo das cartas. 

As primeiras salas são bastante fáceis de ultrapassar, chegar aos Bosses mais exigentes e complicados, cheios de buffs e debuffs (aplicados à nossa personagem), é o que dá gosto para testar finalmente aquela combinação de cartas que treinamos até lá chegar. É óbvio que falhei inúmeras vezes o meu objectivo, contudo, foi quando aprendi com os meus erros e comecei a olhar seriamente para o meu jogo de cartas, e não apenas para o Boss lá ao longe, é que melhorei consideravelmente a minha forma de jogar e, consequentemente, consegui alcançar patamares cada vez mais elevados. 

É um autêntico quebra-cabeças descobrir como é que se pode ganhar em todas as vezes com que nos deparamos com dificuldades, todavia, é assim que se retira diversão de Slay the Spire, é assim com que nos sentimos bem a fazer fluir sangue pelos vasos sanguíneos do nosso cérebro a tentar encontrar uma solução para os diversos problemas que nos são colocados. Isto tudo consegue-se para uma só personagem. Agora imaginem fazê-lo para três, que têm estilos de luta completamente diferentes.

O design de Slay the Spire é a razão deste ser tão bom: as combinações de cartas são tantas que se víssemos outra pessoa a jogar, era como se tivessemos a ver uma partida de xadrez com cartas, tantas são as possibilidades que o jogo oferece. Defender não é sinónimo de acanhar-se perante o inimigo, mas uma estratégia muito válida se tiverem a carta Body Slam, que desfere um ataque de valor igual à vossa defesa. Contudo, atacar sem se precaverem primeiro poderá ser fatal na próxima próxima jogada, principalmente se for um inimmigo da classe Elite.

Slay the Spire não é um portento gráfico mas, apesar das animações pobres, faz jus ao que se propõe a oferecer, com inimigos muito variados, de diferentes tamanhos e cores. No entanto, nenhum jogo vive apenas para o trabalho gráfico que foi feito, uns dependem mais ou menos desta qualidade, mas um dungeon crawler com elementos roguelike quer-se com um design imaculado e Slay the Spire tem esta qualidade tão necessária para se recomendar. Pessoalmente, é sem dúvida alguma um dos melhores jogos do ano até agora.