Sniper Elite 4 não quer ser um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial. A nova proposta da Rebellion leva-nos novamente até esse cenário, mas é peremptória a mistura laivos da realidade com a sensação de sermos um grande herói, de sermos, aliás, o herói; aquele que é capaz de levar todas as vontades às costas. Mas quando cai o pano, as vontades são as dos jogadores, que aqui brilham como um sniper destemido.

Desta vez somos levados até Itália, somos levados a vestir a pele a Karl Fairburne, que sem grande surpresa é um destemido aniquilador de Nazis. Sniper Elite 4 é, na sua essência, um atirador na terceira pessoa com uma forte componente de ação furtiva. Podem tentar investir contra a frente inimiga com armas de curto alcance, mas é claro que este tipo de armas está no jogo para ser quase sempre um último recurso. Primariamente - e até porque está no seu título - o jogo quer-nos a combater à distância, a olhar o mundo pela mira de uma sniper.

Imagens Analise Sniper Elite 4

Sendo a grande aposta da produtora de Oxford, não é então uma grande surpresa que seja com esta componente que se passam os melhores momentos do jogo. Antes de escrever sobre a jogabilidade, permitam-me que mencione a ansiedade que o jogo proporciona. Julgo que não houve uma única vez que subi a uma torre ou a um campanário sem que o meu coração batesse ligeiramente mais rápido - é a ânsia de não falhar, de conseguir aquele tiro perfeito.

Para conseguir esse tiro é preciso, por exemplo, acalmar a respiração de Fairburne enquanto a mira se aproxima um pouco mais, focando-se melhor naquele corpo que queremos que respire pela última vez. Não é uma mecânica propriamente nova, mas é algo que resulta bem na prática, porque há sempre aquele milímetro que queremos ajustar, aquele milímetro de incerteza que é também um segundo. Há a pressão de sermos exemplares a puxar o gatilho, mas há também a pressão de os alvos moverem-se: uma conversa que acaba, um passo que é dado, uma cabeça que se desvia no último nanossegundo antes de assinarmos o seu destino.

Imagens Analise Sniper Elite 4

Nos filmes de guerra há sempre uma predileção pelo sniper. Se viram o Resgate do Soldado Ryan, por exemplo, é provável que se lembrem daqueles beijos na cruz. O próprio Clint Eastwood dedicou um filme inteiro à figura do sniper americano. Atrai-nos a concentração necessária e o treino de bastidores que é necessário para chegar a esse estado uno com a arma. Sniper Elite 4 tem aí o seu maior trunfo: estudamos o cenário, concentramo-nos e vivemos o tal papel de herói, sabendo perfeitamente que estamos a combater os avanços das tropas alemãs.

Há outro ponto forte: o cenário em que decorre. Sniper Elite 3 apresentou-se em terrenos áridos, configurações gráficas que ficaram para trás. Com a chegada a Itália, chega também um carisma próprio, fazendo o jogador sentir-se com mais vontade de explorar todos os cantos e recantos de cada mapa. Ou seja, uma vez que cada área jogável tem dimensões consideráveis, cada missão em que participei demorou muito mais tempo do que tinha que demorar. Diz-nos o senso comum que os melhores pontos são os mais altos, mas aqui entra em jogo também o nosso sentido mais aventureiro, que quer saber afinal até onde vai a nossa habilidade, até onde podemos ir para conseguir o objetivo na mesma.

Imagens Analise Sniper Elite 4

Jogado numa PlayStation 4 Pro, não é tanto a riqueza visual que deslumbra, mas sim a forma como todas as partes são conjugadas para nos colocar naqueles locais. Tal como há uma atração pelo Lago de Como, há aqui uma atração pelas vinhas, pelas encostas, pelo viaduto de Regilino, pelas docas, pelo ordenamento das pequenas vilas rústicas, as pontes magistrais - que não estão a salvo das nossas balas misturadas com cargas explosivas. 

O sol que banha estes cenários, a luminosidade escolhida para adornar confrontos terríveis, enfim, o choque entre o belo e a violência visual é uma combinação que atrai sem distrair. No meio das minhas missões dei por mim simplesmente a contemplar tudo aquilo num minuto e num minuto seguinte a ter o coração do adversário na minha mira, deslizando-a pelo pescoço, olhando-lhe a cabeça e imaginando que ele não faz a mínima ideia da pequena amostra de metal que em breve o conhecerá intimamente.

Imagens Analise Sniper Elite 4

O cair da noite levanta outros desafios, mas o espírito mantém-se o mesmo. Sniper Elite 4 e o seu mundo aberto permitem então incontáveis abordagens diferentes, mas convém ressalvar que não têm um deserto entre objetivos. Além de cada missão ter mais do que um, podem - e devem - assumir os objetivos secundários, estando atentos aos rádios colocados no início de quase todas as missões e dedicando algum do vosso tempo à Mother Hen.

São missões longas que quando acabam deixam um sentido de progressão. Em alguns casos, o relógio passou das duas horas num único cenário. Há colecionáveis, há desafios, enfim, pormenores que não estão à altura dos objetivos opcionais, mas que inquestionavelmente ajudam na já mencionada visita a todos os recantos dos cenários.

Imagens Analise Sniper Elite 4

Esta liberdade está também presente no arsenal que têm à disposição. Novamente: o cerne do jogo é a sniper, contudo, podem usar armas de um alcance menor, algo que no meu caso teve mais utilidade quando a minha presença foi detectada - sim, podem abafar os disparos com o passar dos aviões da Luftwaffe -, mas é ainda possível atirar pedras para distrair os inimigos, ou recorrer ao assobio para captar a sua atenção. Juntem-lhe explosivos e têm uma ideia mais concreta de como Sniper Elite 4 pode ser um recreio.

A paciência de esperarem o melhor momento para disparar uma bala a centenas de metros de distância é recompensada pela killcam, ou seja, pela exemplificação extremamente gráfica de como o vosso inimigo morreu. Coração, rins, cabeça, olhos, testículos, enfim, vários pontos de inserção mostrados em câmara lenta - que bem se podia aqui apelidar de “câmara dolorosa”. Em alguns casos é possível matar mais do que um adversário com uma bala ou recorrendo ao cenário, ao despoletar de explosões usando “perigos” que estejam próximos do(s) alvo(s).

Imagens Analise Sniper Elite 4

Mas há mais ajudas, como a possibilidade de “marcar” os inimigos e estudar-lhe o comportamento. Ou seja, Sniper Elite 4 pode ser aquele jogo divertido como se tivesse sido realizado pelo Michael Bay ou pode ser muito, mas mesmo muito, tático, com marcação cerrada e “à sniper” das forças adversárias - no meu caso a ser uma amálgama dos dois. É uma pena, portanto, que a Inteligência Artificial tenha alguns momentos em que parece desligar-se do jogo, seja na forma como reage à morte de alguém a metros de distância ou na forma como tenta encontrar e cercar o jogador - uma falta de raciocínio que é notória na dificuldade normal.

Se a vossa cena não é a aniquilação de nazis solitariamente, o jogo tem várias propostas na sua componente multijogador. Podem jogar cooperativamente, seja atacando as missões do arco narrativo ou libertando balas contra hordas de inimigos no modo Survival, mas podem também aceder a vários modos competitivos - Team Deathmatch, Deathmatch, Team Distance King, Distance King, No Cross e, finalmente, Control.

Imagens Analise Sniper Elite 4

Além dos modos mais tradicionais, nota-se o esforço da produtora em que o multijogador do seu jogo não seja um acampamento de snipers, como prova o modo Control, onde têm que avançar e conquistar um ponto em movimento. É um esforço que nem sempre é conseguido em pleno, pelo que devem testar a componente cooperativa antes de regressarem em exclusivo à vertente a solo, onde podem também participar numa variação do modo Survival sem estarem dependentes de outros jogadores de carne e osso.

Quem comprar Sniper Elite 4 é muito provável que passe algumas horas divertidas, apesar de a IA ter espasmos de raciocínio e do arco narrativo deixar a desejar - sim, há momentos inspirados, mas são mais momentos isolados do que propriamente uma teia em que se sinta a qualidade do argumento ou a coesão de uma história transversal a todos os níveis. Uma componente técnica que usa tudo aquilo que tem ao dispor para nos transportar para lugares carismáticos, uma jogabilidade que passa por vários estilos, muito para fazer de forma variada, um sistema de progressão, enfim, a Rebellion faz bastante bem, pelo menos faz muito mais de forma acertada do que mal neste quarto capítulo, provando que está no bom caminho.