Nascido de uma improvável parceria entre a Insomniac Games, estúdio responsável por sucessos como Ratchet & Clank, Resistance, Spyro e, mais recentemente, Sunset Overdrive, e o recém-formado ramo de publicação de jogos da GameStop, denominado GameTrust, Song of the Deep é um título que movimenta pela ténue linha que separa as pequenas experiências independentes e os títulos com elevados valores de produção.

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Significa isto que estamos perante uma obra produzida por um estúdio com uma longa história na indústria e financiada pelos dólares da gigante do retalho, mas que nem por isso apresenta um orçamento remotamente semelhante a qualquer um dos projetos mencionados no parágrafo anterior. Apesar disso, o catálogo da produtora mostra-nos uma equipa que não sabe fazer jogos maus, mesmo que alguns - Fuse é o exemplo mais óbvio - tenham aterrado na mediocridade, pelo que a expectativa para descobrir aquilo que o estúdio seria capaz de fazer com um projeto mais intimista era alguma.

Song of the Deep não é um jogo fantástico, mas também está muito longe de ser mau ou até mesmo medíocre. Na verdade, o principal problema do título é a sua incapacidade para surpreender o jogador de forma a tornar-se uma experiência memorável. Sólido em praticamente todos os departamentos, é uma pena que o jogo acabe por se fixar como uma experiência inofensiva, ou seja, que não irrita nem aborrece, mas que também não deslumbra nem deixa marcas após terminada a sua campanha.

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Apesar de não ser um dos elementos em maior destaque durante as cerca de 8 a 10 horas de longevidade do título, a narrativa acaba por se revelar uma das melhores valências da obra, seguindo a história de uma jovem rapariga que parte numa aventura pelas profundezas do oceano em busca do seu pai que não mais regressou após uma viagem para pescar e trazer alimento para a filha. Munida com um pequeno submarino, Merryn terá que explorar um vasto mundo subaquático repleto de segredos e tesouros por descobrir e no qual ela terá de enfrentar várias criaturas pouco simpáticas.

Contada maioritariamente através da voz da narradora durante momentos de jogabilidade e também em curtas cinemáticas com imagens que se assemelham a quadros pintados à mão, a história faz um bom trabalho em transmitir o afeto da filha para com o seu pai, bem como em estabelecer o mundo de jogo como um local real com o seu próprio passado, revelado através dos ambientes que exploramos, e habitado por vários seres. Não esperem grandes reviravoltas pois não as encontrarão aqui, no entanto, o teor emocional da narrativa tem o condão de nos manter investidos na experiência até ao final.

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Apresentando-se como um metroidvania, a estrela de Song of the Deep é o seu lindíssimo mundo de jogo, no qual a descoberta de novas áreas e a obtenção de todos os itens e tesouros estará sempre dependente da aquisição e melhoria das habilidades da protagonista e do seu submarino. É certo que nem todas as habilidades são tão interessantes ou úteis como outras, mas a sensação de progresso é constante e, acima de tudo, satisfatória, motivando o jogador a regressar a locais previamente explorados para recolher todos os tesouros, segredos e desbloquear novos atalhos e áreas.

Infelizmente, o título deixa bastante a desejar no que ao combate diz respeito. Servindo-se das garras para atacar inimigos e, mais tarde, de granadas, o combate não só é limitado, como se torna rapidamente repetitivo. Também não ajuda o facto de os confrontos serem, de uma forma geral, bastante acessíveis e da variedade de inimigos ser francamente pouca, sendo apenas sucessivamente substituídos por versões mais poderosas à medida que vão avançando pela campanha. Raramente se torna frustrante, mas falta-lhe alguma variedade para se manter fresco durante a totalidade da experiência.

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Como já referi anteriormente, a qualidade do mundo de jogo é um elemento fundamental para qualquer obra deste género e Song of the Deep não desilude neste departamento. Para além de ser visualmente apelativo, fazendo uso de um grafismo bonito e com uma identidade própria, possui ainda uma diversidade assinalável que vai desde ambientes onde a escuridão impera até autênticas cidades subaquáticas. Cada uma das áreas principais do jogo é facilmente distinguível e oferece algo diferente à experiência.

O grafismo é sólido, mas a obra da Insomniac Games sofre várias vezes com soluços da framerate, sobretudo quando a ação no ecrã se torna mais caótica ao ponto de causar quebras notórias na mesma. No que diz respeito à banda sonora, esta acaba várias vezes por assumir um papel de destaque durante a experiência, principalmente em momentos de maior acalmia nos quais consegue conferir um tom melódico, relaxante e atmosférico ao título, mas sem nunca distrair o jogador da ação.

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Em suma, Song of the Deep é um bom título para perderem algumas horas, mas pouco mais que isso. A jogabilidade não é diversificada, nem satisfatória o suficiente para acompanhar a qualidade dos restantes departamentos do jogo, acabando por impedir a experiência de se manter fresca durante a totalidade da sua duração e também de se tornar verdadeiramente memorável. Desta forma, a obra do estúdio de Ratchet & Clank limita-se apenas a ser algo agradável que cairá no esquecimento pouco tempo após o seu lançamento.