É cada vez mais difícil ficar entusiasmado com um novo jogo protagonizado por Sonic. É verdade que Generations é uma obra interessante, contudo, também é verdade que quase todos os restantes jogos do ouriço azul publicados nos últimos anos têm sido apostas falhadas, deixando o jogador a questionar o que aconteceu à outrora mascote da gigante nipónica de quatro letras. Pior: deixa muitos fãs a duvidar cada vez mais veemente se alguma vez neste milénio será feita justiça ao legado que começou na década de noventa.

Já tive oportunidade de escrever que a minha Mega Drive foi batizada com um jogo Sonic e Sonic Chaos teve lugar cativo na minha Game Gear durante muito tempo. Cresci com um Sonic muito diferente deste. Durante aqueles anos, do alto da nossa infância, a urgência de jogar Sonic era tanta que passávamos o comando ou a portátil pelo grupo de amigos, determinando que cada um jogava uma vida, o que irritava solenemente os menos habilidosos. Vivíamos as tardes (quase todos) contentes pela democracia inquinada pelo dono das consolas.

Os fãs de Sonic ou da Wii U saberão certamente que Sonic Boom: Rise of Lyric acaba de chegar à consola caseira da Nintendo. Infelizmente, este exclusivo condensa o oposto de tudo o que foi dito nos parágrafos anteriores. É um esforço enorme evitar que as memórias criadas nestas últimas semanas não sabotem as que tanto prezo daquelas tardes veraneantes. Rise of Lyric só não será esquecido mais cedo porque é demasiado mau para não ser comparado quando o próximo jogo da série chegar ao mercado, tal como ainda acontece com "aquele" Sonic publicado em 2006.

Com a produção entregue à Big Red Button Entertainment, Rise of Lyric é mais uma tentativa da SEGA em começar de novo, em tentar mais uma vez, o que transparece uma indecisão perigosa sobre a visão clara a dar à série que têm em mãos. Esta indecisão está patente no jogo propriamente dito, ou seja, depois de várias horas comecei a sentir que o jogo não faz ideia do caminho a seguir, tentando várias mecânicas na vaga esperança que alguma seja do agrado do jogador. Depois de peneirar a experiência, fica pouco, muito pouco para justificar a compra do jogo. Ou melhor: não fica nada.

Sonic não está sozinho. A aventura é partilhada com a companhia de Tails, Knuckles e Amy, portanto, um quarteto que tem que lutar contra a investida de Lyric, o novo vilão que empresta o seu nome ao título do jogo. Com um exército de rôbos ao seu dispor, Lyric tem como objetivo obliterar toda a vida do planeta. Não demora muito até que o interesse do jogador deite a toalha ao chão, ficando, sobretudo, a ideia que estamos perante um arco narrativo que não tenta nada de novo, que não tenta, pelo menos, fazer uma serenata à atenção de quem tem o comando na mão.

Este argumento desenxabido é emulsionado por vários pormenores que somados causam uma irritação prolongada. A vocalização é extremamente má, por exemplo. As vozes não têm qualquer carisma, não têm intenção de ser memoráveis, ou seja, todos os envolvidos limitam-se a debitar linhas de texto junto a um microfone. E por falar em linhas de texto, os diálogos e as expressões são paupérrimas. Obviamente tudo tem um tempo e local, e não queria que o jogo debitasse Dostoiévski pelas colunas, contudo, isto é paupérrimo se forem crianças ou adultos; isto é mau se este for o primeiro título Sonic que jogam ou se acompanham a vida do ouriço desde a sua primeira aparição jogável.

A preferência de cada um está em jogo, mas aquela de quem escreve estas linhas também não é fã da nova aparência do quarteto de heróis. Percebo que à laia de mais uma reinvenção seja preciso agitar as águas, dar uma entidade distintiva, contudo, seria mesmo necessário apresentar uma versão de Sonic com ligaduras nas mãos e à volta do calçado vermelho? Será mesmo primordial que Knuckles tivesse uma silhueta de quem passou todos os minutos acordados num ginásio? Para mim, não, não era necessário nada disso.

Em teoria, o quarteto de protagonistas já mencionado teria um propósito além de dar mais cor ao jogo: variar a jogabilidade de Rise of Lyric. Infelizmente, a execução não esteve à altura da visão dos produtores. Ou seja, mesmo alternando entre as várias personagens quando o jogo permite, terminei cada sessão de jogo com uma sensação de repetição. Como se estivesse a jogar algumas horas em areias movediças sem chegar a lado nenhum, sem sentir que o jogo me tivesse recompensado pela minha habilidade e perseverança.

Cada personagem tem o seu movimento de assinatura. Os mais conhecidos são a velocidade de Sonic e a habilidade de Tails rodar as caudas e planar durante alguns segundos, além de conseguir fazer aparecer um pequeno robot que se esgueira em pequenas aberturas. Contudo, deem algum tempo a Rise of Lyric e facilmente memorização os vários saltos encadeados de Amy e aquilo que destaca Knuckles: conseguir escalar paredes e ficar preso ao tecto, desde que as superfícies sejam pavimentadas com cristais da sua própria cor. Como verão mais à frente, estas habilidades proporcionam mais problemas que soluções.

No meio desta amalgama de processos inócuos, comecemos por falar - e destacar - aquelas vezes em que quem arquitectou o jogo pensou que fosse boa ideia submeter o jogador a momentos de luta corpo a corpo. Seja com os punhos e pés envoltos em ligaduras, seja com o auxílio de itens, sejam grupos isolados de inimigos ou bosses, a jogabilidade é homogeneamente repetitiva.

É cansativo estar dependente de um esquema de controlos que não vai muito além de pressionar um ou dois botões até o processo seja tão mecânico que entorpeça a mente e as mãos do jogador. A variedade de inimigos também deixa bastante a desejar, deixando o jogador preso numa sensação de um Déjà vu continuado. Novamente, o que Rise of Lyric faz é pouco e o pouco que faz é mau.

E o caso não muda de figura quando temos pela frente secções de plataformas, o género que definiu Sonic. Lembro-me de várias passagens em que a personagem controlada por mim apresentava várias falências, tudo acompanhado por uma inteligência artificial que arruinava completamente a presença das outras personagens no ecrã. Conjugar o quarteto de habilidades só faria sentido se na prática isso fizesse sentido, se o jogador sentisse que trocar de protagonista resolvesse um problema com eficácia.

As falhas na inteligência artificial são a ponta do icebergue se falarmos de erros, bugs e comportamentos estranhos. Personagens que ficam presas no cenário, cenários com várias deficiências, quedas na água que usam animações do tempo em que Sonic se estreou e alguns comportamentos bizarros que ameaçam a qualquer momento danificar a progressão no jogo, sendo que ocasionalmente fui teleportado para outro ponto do cenário, o que ativou a cena de vídeo de seguinte. Seja como for, é uma prestação que não inspira confiança.

Tecnicamente, todos já vimos muito melhor na Wii U. Além das texturas fracas e da falta de pormenor dada aos vários corredores, quando o jogo apresenta áreas mais largas, invariavelmente estamos perante arenas vazias, desprovidas de pontos de interesse. O mesmo é aplicável aos efeitos, que ocasionalmente fazem lembrar a geração anterior de consolas.

A framerate oscila. Quando estamos nas zonas mais paradas e desprovidas de população inimiga, não sentimos grandes quebras. Algo que não pode ser afirmado quando nas secções em que o jogo coloca Sonic e companhia em carris que são passados a grande velocidade. Curiosamente, nestes trechos - que fazem lembrar capítulos mais antigos da série - a jogabilidade torna a não estar à altura, com a personagem a movimentar-se lentamente quando eram pedidos controlos espevitados. E os problemas continuam se versarmos sobre a câmara de jogo, que teimosamente insiste em não oferecer a panorâmica desejada.

Importa ainda mencionar que é possível jogar Rise of Lyric cooperativamente. Enquanto segurava o GamePad entreguei o Wii U Pro Controller ao meu irmão. Infelizmente, nem aqui o jogo é satisfatório. O básico funciona, contudo, como as mecânicas básicas estão minadas por uma prestação fraca, os problemas não não deixam desfrutar do que tinha tudo para ser uma experiência interessante de couch co-op.

Tudo somado, o maior problema de Sonic Boom: Rise of Lyric é este: é um jogo que não incentiva o jogador a continuar. Com tantos falhanços de mecânicas e técnicos, não conseguimos desfrutar o tempo investido no exclusivo Wii U, seja por frustração, aborrecimento ou por não confiar na componente técnica do título. A consola da Nintendo ofereceu-nos alguns dos melhores jogos de 2014, contudo, tem aqui um dos piores jogos do seu catálogo.