Quando terminei Sonic Forces estava a jogar com uma personagem que desafiava todo o bom senso estilístico. É uma das novidades do jogo: somos convidados a criar e ir personalizando o nosso protagonista. Não jogamos apenas com ele ou ela, claro, mas são incontáveis itens para recolher e experimentar, algo que é aliciante antes de se transformar numa rotina.

São mesmo - mesmo! - muitos itens que vão literalmente da cabeça aos pés. A Sonic Team deve saber o quão ridículos alguns deles são: o mundo prestes a acabar à frente dos meus olhos e a minha criação a olhar pensativamente enquanto usa um capacete amarelo, óculos amarelos com listras, um laço encarnado e um nariz de palhaço. É muito complicado não soltar uma gargalhada perante todo este ridículo.

Imagens Análise Sonic Forces

A rotina chega com as variações dos mesmos itens, o que obviamente quebra o deslumbramento de nos ver calhar em sorte um monóculo, uma câmara fotográfica ou um fato completo escamado. Contudo, a produtora tenta saciar a imaginação mais selvagem dos jogadores, sendo possível moldar aparência do protagonista, tantas vezes chamado Rookie até na reta final da obra ganhar finalmente a confiança e o respeito do resto da trupe.

A criação de um avatar além do elenco habitual dos jogos Sonic tem outros benefícios além de alimentar o vosso sentido de estilo. Depois de escolherem o sexo, podem escolher a que espécie pertencem - cão, lobo, coelho, urso, gato, pássaro e, como não poderia deixar de ser, ouriço. O que é interessante é que cada espécie tem uma habilidade própria - o cão, por exemplo, pode recomeçar com alguns anéis; o lobo atrai itens para a vossa proximidade, o pássaro permite saltos duplos, etc. Quando terminam o jogo ganham a possibilidade de criar um segundo avatar - ideal para experimentarem outras habilidades.

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É então uma boa gargalhada, certo? Perceber que a Sonic Team parece ter escutado as vozes espalhadas pelos quatro cantos da Internet. Sonic Mania parece ter sido uma boa rampa de lançamento. Infelizmente, esse sorriso não dura para sempre e desvanece quando somos confrontados com a jogabilidade. Estando a falar de um jogo de plataformas, é fácil adivinhar que é o processo envolvido no controlo das personagens que pode ser descrito como o seu coração.

Sonic Forces tem uma jogabilidade variada, pois coloca na mesma obra trechos 2D e 3D ao longo da sua três dezenas de missões principais - há ainda missões secretas, missões extra e missões SOS, que vão aparecendo no mapa-múndi com a progressão pelo modo principal. Pode parecer muito, mas é um jogo que não chega às oito horas de longevidade - por muito que estejam indecisos se a cartola condiz melhor com a barba ou com o bigode postiço.

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Mas voltando à jogabilidade, há aqui trechos que apelaram diretamente à nostalgia. Green Hill Zone e Chemical Plant são tiros certeiros, capazes de fazer crer momentaneamente que a produtora sabia o que os fãs queriam. Infelizmente para esses mesmos fãs, são secções muito esparsas e intercaladas com uma jogabilidade atroz, especialmente nas secções a três dimensões.

A sensação de velocidade faz-nos voar baixinho e os Quick Time Events aparecem numa dosagem adequada, mas a refinação necessária não está lá, ou seja, misturar cenários rápidos e decisões em frações de segundo com uma jogabilidade romba, que não poucas vezes faz com que a personagem pareça presa ao cenário, é uma autoestrada em direção à frustração. 

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Por diversas vezes, Forces mostra um vislumbre de diversão genuína, colocando-me em uníssono, apenas para alguns segundos depois me relembrar dos controlos fracos; para me relembrar que Sonic continua inegavelmente melhor nas secções 2D - que não são perfeitas, mas são consideravelmente melhores que o 3D. Jogar Sonic Forces é alternar constantemente entre o sonho e o pesadelo.

Portanto, temos cenários em que jogámos como o nosso avatar, cenários em que jogamos na era moderna, e cenários em que jogamos na melhor era de Sonic. Há secções de plataformas e combate, claro, mas falar do combate é falar das Wispons, itens especiais que vão sendo desbloqueados e melhorados. Quando joguei até exaustão Sonic na Mega Drive, sabem o que nunca me passou pela cabeça? Este jogo precisava de uma lança-chamas.

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E agora vejam se adivinham qual é uma das Wispons? Sim, um lança-chamas chamado Burst. Mas há mais: raios, ondas de choque, uma broca, uma Wispon, Cube, que transforma os inimigos em cubos de gelo, e até Asteroid, que permite fazer “lock” a vários adversários graças ao uso de clones. Se por um lado gostei da forma como diversificam a jogabilidade, são “armas” que vão contra o grão daquilo que a série foi outrora e um claro sinal da sua adaptação ao século vinte e um.

A questão é que é mais uma camada em cima da jogabilidade, ou seja, poder atacar uma etapa de uma forma e jogar novamente para tentar o “S” com uma abordagem completamente diferente é aliciante, mas é uma contradição se às vezes a personagem não consegue deslocar-se convenientemente - de que vale se às vezes perdemos anéis sem ser por culpa própria?

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Muitas vezes, sente-se que Rookie é claramente uma personagem satélite e sente-se também o esforço da Sonic Team para o forçar nesta narrativa e, obviamente, na jogabilidade. Há momentos em que jogamos com Sonic e Rookie lado-a-lado, mas não chega para fazer o jogador sentir que a sua criação faz parte integrante deste mundo - porque na verdade, não faz. 

Temos Sonic e Tails, Amy, temos até Metal Sonic, Shadow e o Eggman, personagens que fazem parte do imaginário dos fãs há anos. Curiosamente Infinite, o vilão além de Eggman - que para mim será sempre Dr. Robotnik -, é uma das melhores novidades, especialmente se olharmos apenas para o seu design. Os vários confrontos contra ele não são nada de verdadeiramente memorável, mas o papel de vilão não lhe fica mal.

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Eggman e Infinite estão apostados em destruir o mundo. Sonic Forces começa com o mal a ter dominado praticamente todo o globo, pelo que é Sonic, Rookie e a sua equipa que têm que lentamente - ainda que sejam necessárias apenas algumas horas para terminar o jogo - conquistar terreno e derrotar o mal. Há momentos da história que conseguem entreter, mas olhando para trás, a verdadeira sensação é que o cômputo geral é um chorrilho de mau diálogo e de clichés - há alguma esperança quando o argumento mistura mais que uma linha temporal, mas é algo que acaba por não ser capitalizado. 

Os fãs de Sonic poderão retirar daqui algum prazer - e os fãs de Star Wars podem apreciar certamente da piscadela de olho à Death Star com a Death Egg - mas a verdade é que, ainda que haja aqui a chispa de um bom conceito - Sonic Moderno, Sonic Clássico e o Avatar - a execução deixa a desejar como um todo. E é algo que pode ser aplicado ao departamento técnico também.

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Há cenários em que as cores garridas e o retro me fizeram relembrar os jogos pretéritos, mas há também vários cenários desenxabidos, com texturas que passarão despercebidas e com uma modelagem de personagens que faz os mínimos, como é gritante nas cenas de vídeo onde o argumento é desenvolvido. A sonoplastia, além da vocalização claramente destinada ao público juvenil, tem o batimento característico da série.

Sonic Forces não é o pior jogo da série, nem sequer é o pior jogo 3D da série, contudo, também não é uma afirmação clara em termos de qualidade. Espero que haja uma continuação em que estas sementes despontam para algo substancial, algo que apresente uma jogabilidade e uma criatividade imaculadas. Os fãs do ouriço azul merecem um jogo 100% com a qualidade de Chemical Plant e Green Hill Zone, um jogo que volte a dar a Sonic o selo de obrigatório.