Soul Searching é uma lupa sobre a condição humana. Há poucos jogos que conseguem tocar nas emoções dos jogadores como faz Soul Searching, contudo, é preciso ser capaz de ultrapassar uma apresentação técnica rudimentar e que pouco faz para ser minimamente apelativa. Apesar de um grafismo e de um aspeto que nos faz olhar para o lado rapidamente, Soul Searching tem mais para oferecer do que uma simples aventura de sobrevivência.

Vocês são um pessoa representada por um bloco, sem nome, nem identidade. Podem escolher ser homem ou mulher, mas a definição física é tão fraca que não faz grande diferença optarem por um ou por outro. O que é certo, é que controlam um bloco que representa alguém que passou uma grande parte da sua vida numa ilha distante.

Os vossos antepassados embarcavam numa jornada de descoberta pessoal e emocional, onde navegavam com uma jangada para fazerem uma introspecção à alma. São poucos os que ainda fazem este tipo de atividade, mas mesmo assim a vossa personagem insiste em fazer esta viagem para dar um novo rumo à sua vida.

Por isso, mesmo sem ouvir os conselhos dos seus vizinhos, a personagem decide partir nesta jornada pessoal sozinha, para que os seus pais tenham orgulho dela. Durante esta demanda, os jogadores vão poder visitar outras ilhas e falar com os seus habitantes. Esta socialização vai permitir-vos fazer novos amigos e, quem sabe, conseguirem saber a essência daquilo que é necessário para ser um grande Soul Searcher.

Como já o disse, Soul Searching tem muito mais conteúdo nas suas camadas mais profundas, que é facilmente ignorado pela sua apresentação um quanto arcaica. Primeiro, não é errado assumir que a nossa missão passará pelo "varrer" do mapa e visitar todas as ilhas que estão ao nosso alcance. Há algumas tarefas que são necessárias para que a vossa jornada seja o mais aprazível possível e que não devem ser descartadas.

Enquanto estão a remar na vossa jangada vão encontrar ouro espalhado pelo oceano que convém recolher, porque há alturas em que vão poder melhorar a vossa frágil embarcação. Há também diversos perigos a ter em conta que convém evitar enquanto estiverem a navegar de uma ilha para outra. E convém estarem atentos aos perigos que possam surgir, porque nunca se sabe quando é que estes serão desencadeados.

A primeira vez que estive em perigo foi com uma ave irreconhecível, mas pela sua agressividade parecia ser uma ave de rapina. Esta ave apanhou-me com as suas garras e deixou-me à deriva no meio do oceano. A minha única solução foi voltar para a minha jangada antes que o oxigénio da minha personagem acabasse - aparentemente, só consegue nadar debaixo de água.

Até o próprio clima está contra nós. Não foram raras as vezes que o calor intenso fez aumentar a minha sede, obrigando-me a consumir as minhas reservas de água potável. Também houve alturas em que tive de esperar que uma tempestade com trovoada passasse, ou correria o risco de ser atingido por algum trovão.

A vossa frágil jangada pode e deve ser substituída por uma melhor. Com o ouro que forem amealhando podem comprar uma outra embarcação mais estável. As melhorias incluem, sobretudo, uma maior capacidade do inventário e mais facilidade de navegação com a vossa humilde embarcação.

Contudo, a jogabilidade da navegação pelo mar é romba, porque direcionar a nossa jangada com o analógico esquerdo também faz com que a nossa personagem se movimente. Resultado: a experiência desta parte da jogabilidade não é a ideal. Estamos mais vezes à luta com os controlos do que com os eventos esporádicos que retardam a nossa viagem.

Com a nossa atenção a ter de vigiar três barras que se esvaziam - fome, sede e energia -, Soul Searching acaba por dar uma grande importância à gestão de itens. Para não morrer à fome e à sede, convém comer e beber pontualmente. A sede, na minha experiência que tive com o jogo, visto que choveu algumas vezes, não foi um grande entrave. Já a fome obrigou-me a procurar alimento em cada ilha que parava, ou comprá-lo caso houvesse alguma escassez no ecossistema natural da ilha que estava a visitar.

Felizmente, caso a dificuldade em encontrar comida seja maior, como encontrarem-se com a vossa carteira vazia, há uma cana de pesca para contornar esta situação. Caso consigam adquirir uma cana de pesca, conseguem abastecerem-se mais facilmente de alimento. Porém, pescar exige alguma paciência e habilidade, mas também depende da vossa sorte em haver um cardume a passar perto de vocês. Quanto mais hipóteses para pescar, maior a probabilidade de conseguirem fazer com que o peixe morda o isco e seja capturado com sucesso.

O grafismo é um pau de dois bicos. Por um lado, tem um certo charme, por outro é feio quando se aproxima demasiado e quer mostrar detalhes que não consegue exibir. O mundo, todavia, tem um aspeto vivo, com personagens em abundância e com muito para enriquecer a experiência.

A solidão é também um dos temas de Soul Searching e o grafismo não ajuda a disfarçá-lo. Com a minha personagem vou de ilha em ilha à procura de respostas para esta jornada de introspecção. Visitar estas olhas vai-me dando algumas afirmações quanto a esta busca, porque falar com estranhos de outras ilhas vai-me dando conhecimento sobre as suas vivências e as suas experiências de vida que se podem refletir nas da minha personagem. A vida é feita de dificuldades e a sua ultrapassagem define a existência de quem as consegue suplantar, molda-lhes a sua personalidade e a forma de pensar, algo que se absorve das várias conversas que se tem.

Cada ilha tem a sua própria temática depressiva, e todas as histórias que nos são contadas vão adicionando esperança e felicidade a quem as ouve, ou neste caso, as lê. Por exemplo, um homem disse-me que a sua mulher está grávida, contudo, transformou algo tão feliz em algo aterrador, pois afirmou que, enquanto família, não lhes espera um futuro risonho. Culpa-se a si próprio pelo sucedido.

A experiência de Soul Searching manteve-se comigo, mesmo depois de ter desligado o jogo. E a sensação de desespero que o jogo deixa ultrapassa todo o grafismo feio e minimalista. Contudo, apesar de conseguir deixar-nos inquietos com a mensagem que pretende passar, o grafismo em blocos pixelizados e a jogabilidade romba não permite atingir a experiência que o jogo pretende oferecer. Se não conseguem ter uma mente aberta e paciência perante um design antiquado como de Soul Searching, então esta obra não é, certamente, para vocês.