South Park: The Stick of Truth foi uma das mais agradáveis surpresas da geração anterior de consolas. Não só porque se revelou ser uma experiência de excelsa qualidade, não só porque tinha os criadores e principais mentes por detrás da já longa e ainda imensamente popular série de animação - Trey Parker e Matt Stone -, mas sobretudo porque passou por um extenso período de produção que viu a editora original, a THQ, declarar falência, os direitos da obra serem adquiridos pela Ubisoft e sucessivos adiamentos que não auguravam nada de bom para o título.
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Felizmente, quando o jogo produzido pela Obsidian Entertainment, produtora responsável por inúmeros RPG aclamados pela crítica, chegou finalmente ao mercado, todas as expectativas foram superadas e a aventura de Cartman e companhia rapidamente se fixou como uma das melhores experiências desse ano. Apesar do sucesso, o atribulado processo de desenvolvimento e as próprias declarações de Trey e Matt no pós-lançamento pareciam indiciar que uma sequela não estava certamente nos planos imediatos. Por isso mesmo, foi com surpresa que a indústria assistiu à revelação de The Fractured but Whole na E3 de 2016, com o título a ascender ao topo da lista de obras mais aguardadas de muitos jogadores.
Numa tentativa de voltar a repetir o sucesso conseguido em 2013, ditou o destino que a sequela, agora a cargo da Ubisoft San Francisco, voltasse a sofrer um longo adiamento que fez a obra falhar o lançamento previsto para dezembro do ano passado, algo que é mencionado indiretamente por uma das várias personagens que encontrarão no mundo de South Park. Mesmo num final de ano recheado de obras dignas da atenção de qualquer fã deste meio de entretenimento, o novo título inspirado na série de animação consegue sobressair de tudo o resto, oferecendo uma experiência que dificilmente encontrarão em qualquer outro dos principais lançamentos recentes e futuros.
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Após 20 horas com The Fractured but Whole percebe-se que o mesmo carinho e dedicação do original voltaram a ser colocados no seu sucessor, mas que o efeito novidade e a originalidade que caracterizou o nosso tempo com The Stick of Truth estão aqui presentes em menor quantidade. Foram vários os momentos em que o título da Obsidian me surpreendeu e apanhou desprevenido, utilizando isso para provocar várias gargalhadas ao longo da sua aventura. A sequela não consegue repetir a magia do seu antecessor e isso deve-se em muito ao facto da originalidade colocada na saga de fantasia protagonizada por New Kid já não ser novidade.
Não se deixem enganar, a obra da Ubisoft San Francisco continua recheada do humor pelo qual a série de animação é conhecida e é muito difícil esconder o sorriso durante as suas largas horas de duração. A questão é que o humor e a sátira aqui presentes são aspetos já expectáveis da obra, faltando algo que consiga surpreender verdadeiramente o jogador, que eleve a experiência para os mesmos patamares do título original, que a transforme em algo memorável. O humor continua aguçado, mas não consegue evitar cair em material já bastante explorado.
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A maneira mais simples de descrever The Fractured but Whole comparativamente a The Stick of the Truth é que o primeiro jogo parece ter sido uma amálgama de várias ideias e piadas que se foram acumulando ao longo dos anos até que o jogo correto surgisse finalmente, enquanto a sequela que chega agora ao mercado aparenta ser um combinado de ideias que ficaram cortadas do jogo original misturadas com material assente em temáticas mais atuais. As tensões raciais entre a polícia e as comunidades negras nos Estados Unidos, a cultura do “politicamente correcto” e a obsessão de Hollywood pelos heróis de banda desenhada, por exemplo, são alguns dos temas explorados pela sequela.
Novamente protagonizada por New Kid, a nova aventura tem lugar imediatamente após os eventos do primeiro jogo, numa altura em que os restantes alunos do quarto ano da escola elementar de South Park decidem iniciar uma nova brincadeira assente no conceito de duas fações de super heróis em confronto para se tornarem no universo cinemático de maior sucesso. Soa familiar, certo? Claramente inspirado pela rivalidade entre Marvel e DC e pela quantidade gigantesca de filmes e séries dos últimos anos protagonizados pelos super heróis das duas gigantes das bandas desenhadas, a história vê o protagonista ter de voltar a provar o seu valor, criando o seu próprio herói que tem como superpoder… a flatulência.
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Mais uma vez, a imaginação fértil dos miúdos de South Park volta a ser responsável por uma aventura sem medo de cair no ridículo e de ultrapassar a linha do que pode ser considerado ofensivo ou demasiado arriscado. O vernáculo das personagens e a constante alternância entre momentos de lógica apurada e outros que nos relembram que estamos, na verdade, a jogar com crianças continuam presentes, com o título a manter-se interessante devido às suas personagens e à forma como estas contribuem para a série aplicar o seu humor e comentário social.
Bem ao estilo de South Park, aquilo que começa como uma brincadeira entre crianças rapidamente assume proporções épicas, seja através da descoberta de estranhas conspirações ou de acontecimentos que pouco ou nenhum sentido fazem, mas que resultam na perfeição nesta estranha cidade. As histórias e missões secundárias não são tão interessantes e originais como poderiam ser, mas o humor e os pontos de contacto com o arco narrativo principal fazem com que a motivação para as realizar nunca desapareça. The Fractured but Whole é uma obra bastante acessível, satisfatória quer joguem durante horas a fio ou em curtos períodos de tempo de cada vez.
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Onde a sequela mais se distancia do seu antecessor é na sua jogabilidade, mais concretamente, no seu combate. Mais uma vez, South Park apresenta um combate por turnos, sendo que a novidade é que está agora assente numa grelha de movimentação. Essencialmente, isto significa que é colocado um maior ênfase na movimentação das personagens pelo campo de batalha, uma vez que diferentes ataques têm diferentes alcances e permitem atingir inimigos em diferentes posições. Tal como em The Stick of Truth, o humor e as características únicas da brincadeira em questão e dos intervenientes ajudam a que este se mantenha fresco ao longo da campanha.
Com um vasto leque de classes à disposição para o New Kid, cada uma delas com diferentes habilidades e ataques especiais - podem alternar entre elas em qualquer momento falando com Cartman -, o combate volta a permitir confundir inimigos, provocar hemorragias, enojá-los, entre muitos outros estados temporários, de forma a ganharem vantagem na batalha. Apesar de à medida que a aventura progride poderem acumular mais classes em simultâneo, o número de ataques mantém-se fixo, sendo que o segredo para o sucesso passa por encontrar a melhor combinação de habilidades para ultrapassar os desafios que vos surgirem pela frente. Como é óbvio, poderão também alternar os membros da vossa party no início de cada combate consoante as necessidades.
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Relativamente à progressão da personagem, para além de desbloquearem novos trajes que servem meramente para efeitos cosméticos, esta é feita através do equipar de artefactos. À medida que vão explorando o mapa, recolhendo todos os itens e colecionáveis por ele espalhados, realizando missões e vencendo combates, vão recebendo e desbloqueando acesso a novos artefactos de diferente valor numérico que definem o poder da vossa personagem. Tal como os itens passíveis de serem utilizados durante as batalhas, alguns artefactos podem ser melhorados através da mecânica de crafting, desde que tenham os itens necessários para os produzir.
Mesmo na dificuldade mais elevada - e não, não me estou a referir à cor de pele do protagonista -, The Fractured but Whole está longe de ser uma obra difícil, sendo bastante fácil manterem a vossa personagem num nível de poder bastante superior ao das missões que estão a realizar. Ainda assim, a introdução de algumas condições de vitória únicas em determinadas batalhas obriga-nos a encarar todos os confrontos de forma estratégica e a explorar ao máximo as habilidades ao nosso dispor e as dos nossos companheiros. Utilizar TimeFarts, Summons e Ultimates nos momentos certos pode mudar por completo o rumo de um confronto, para além de oferecem curtas cinemáticas caricatas.
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Dito isto, apesar de ter vários sistemas dignos de um verdadeiro RPG, o novo título South Park é, como já referi, uma experiência acessível, uma excelente porta de entrada para um dos géneros mais emblemáticos desta indústria. Pode não ter a profundidade, nem a exigência dos principais clássicos do género, mas tem um charme difícil de igualar. Pode não conseguir atingir os altos do seu antecessor, mas The Fracture but Whole é uma obra que merece ser jogada e uma das poucas disponíveis no mercado que sabe colocar o humor ao serviço da narrativa e das suas mecânicas de jogabilidade.
No que diz respeito ao departamento técnico, o novo título volta a destacar-se pela forma como recria na perfeição o estilo visual da série animada, fazendo-nos sentir como se estivéssemos a jogar um longo episódio da série que já está em exibição há mais de 20 anos. Ainda assim, embora esteja numa nova geração de consolas, a sequela não consegue evitar alguns soluços técnicos. A framerate não é tão sofrível como a que caracterizou a obra original, mas deparei-me com alguns bugs que me forçaram a ter de reiniciar o jogo para poder progredir na aventura. Já a banda sonora mantém a inspiração nos filmes recentes de super heróis, destacando-se nos momentos narrativos mais importantes. Destaque também para as escolhas de música algo questionáveis das lojas de South Park.
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South Park: The Fractured but Whole pode não ser tão surpreendente como a obra que lhe antecedeu, mas a qualidade continua presente. O humor e as suas personagens continuam a ser o elemento mais diferenciador, mas o título apresenta também um sistema de combate mais complexo e interessante que lhe confere uma maior profundidade e componente estratégica. Uma recomendação óbvia para os que gostaram de The Stick of Truth, uma experiência de qualidade para fãs do género RPG, apenas o tipo de humor pelo qual a série animada é conhecida poderá afastar alguns jogadores da obra. Não brilha como o antecessor, mas faz mais do que suficiente para justificar o preço de admissão.

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