Apesar do peso do anúncio ter sido rapidamente mitigado pelas declarações de representantes da Sony a indiciar que estaríamos perante uma obra de dimensões mais reduzidas e não uma sequela na verdadeira aceção da palavra, ter um novo jogo Spider-Man exclusivo para as suas plataformas a acompanhar o lançamento de uma nova consola é um luxo ao alcance de poucos e uma oportunidade comercial simplesmente impossível de se desperdiçar.

Ainda que esteja também disponível na PlayStation 4 - plataforma em que foi testado para esta análise -, Miles Morales transmite a sensação de que se trata efetivamente de um jogo pensado e trabalhado para a PlayStation 5 e posteriormente adaptado para a plataforma com maior base instalada de jogadores, e não o contrário. Mesmo sem o poderio técnico fornecido pela consola que chega esta quinta-feira a Portugal, a nova obra da Insomniac Games é uma experiência de alta qualidade que corresponde ao legado deixado pelo jogo original.

Sim, é certo que, jogado numa PlayStation 4 original prestes a celebrar sete anos de atividade, o título nos presenteia com alguns soluços técnicos, mas nada que seja capaz de perturbar a experiência na sua globalidade. Há glitches visuais ocasionais e por duas vezes tive de reiniciar o checkpoint porque o áudio de uma personagem estava cortado nas cinemáticas. 

Para além disso, houve também algumas situações em que o jogo simplesmente travou por completo durante a exploração da cidade para carregar assets. Ainda assim, o maior - e porventura mais estranho - problema surgiu já depois dos créditos rolarem, quando a framerate decidiu soluçar de forma permanente, algo que só ficou resolvido fechando e voltando a abrir o jogo.

De resto, Spider-Man: Miles Morales é uma obra bastante fiel ao original, o que neste departamento em concreto significa que estamos perante uma experiência tecnicamente aprimorada e fluida que raramente perturba a ação. A versão digital de Nova Iorque continua visualmente impressionante e ver a cidade ficar progressivamente coberta de neve à medida que a narrativa avança confere-lhe uma atmosfera distinta por comparação com os seus momentos mais solarengos. A sonoplastia e banda sonora contribuem também de sobremaneira para realçar os momentos mais intensos da aventura.

Diria que as expressões faciais algo erráticas em determinadas cinemáticas são o único problemas técnico de um título praticamente imaculado nesse capítulo. Não são más, mas nota-se o efeito Uncanny Valley, ou seja, apesar da qualidade e fotorrealismo da modelagem das personagens, os seus movimentos faciais não batem certo com aquilo que o nosso cérebro está à espera de ver. Falta vida nos olhares das personagens. Nas primeiras horas do jogo, há um jantar de Natal na casa de Miles e penso que essa sequência é bastante indicativa deste problema.

Não é muito surpreendente, se pensarmos que este sucessor do jogo lançado em 2018 foi apresentado como um aventura mais compacta no universo estabelecido pela Insomniac, que Spider-Man: Miles Morales seja em tudo semelhante ao antecessor. Um pouco como Uncharted: The Lost Legacy foi uma obra construída na base de Uncharted 4: A Thief’s End, a mesma relação verifica-se aqui entre Spider-Man e Miles Morales. Por um lado, há a certeza de que se gostaram do original, voltarão a gostar desta nova amostra do universo da Marvel. Por outro, significa que não há uma evolução significativa em relação ao que veio antes.

Na verdade, com exceção para os poderes exclusivos de Miles, a jogabilidade permanece essencialmente inalterada. Estamos a falar de um departamento jogável de excelência, é verdade, mas seria interessante ver a produtora arriscar mais e edificar sobre a matéria-prima original, algo que provavelmente acontecerá quando a inevitável sequela chegar daqui a uns anos. Dito isto, a bioeletricidade e o poder de camuflagem de Miles são adições interessantes à fórmula.

A camuflagem, por exemplo, para além de tornar Miles temporariamente invisível, permite uma mais fácil transição entre o combate aberto e a ação furtiva, uma vez que podem, desde que tenham a respetiva barra cheia, fazer com que os inimigos percam de novo o vosso rastro após serem detetados e dessa forma retomar a eliminação ponderada dos inimigos através de métodos mais sorrateiros e silenciosos. Por sua vez, a bioeletricidade permite ataques explosivos que causam danos significativos e quebram as proteções de alguns inimigos.

Para lá desta adições, Miles Morales é acima de tudo uma experiência bastante familiar. O combate assente em ataques rápidos, desvios das investidas inimigas, aumento do “combo” até à obtenção de um finisher, a utilização de engenhocas - há lutadores holográficos, granadas de gravidade e minas remotas de descarga de eletricidade -, enfim, quem jogou a aventura de Peter Parker já sabe o que esperar da nova obra. Os que não o fizeram podem contar com uma ação rápida e fluida, digna da série Batman: Arkham.

A familiaridade mantém-se também no conteúdo secundário, com bases repletas de inimigos para infiltrar, itens para colecionar que oferecem um pouco mais de informação à narrativa, crimes para interromper, atividades curtas para realizar e provenientes de um aplicação de telemóvel que permite aos nova-iorquinos pedir auxílio ao seu super-herói, para além das missões secundárias um pouco mais expansivas e os desafios de combate, navegação e ação furtiva. Nada de revolucionário, mas é conteúdo que prolonga uma estadia agradável no título que, tal como no original, é potenciada pela incrivelmente satisfatória sensação de baloiçar pelos céus de Nova Iorque. 

Os maiores pontos de interesse são, sem dúvida, os itens colecionáveis. Para além de cápsulas do tempo que nos revelam mais sobre a amizade entre Miles e a sua amiga de infância Phin, há ainda sons da cidade para capturar, atividade acompanhada por áudios do tio de Miles e da sua relação com o irmão. Após a conclusão do arco narrativo principal, um novo tipo de colecionável fica disponível e acreditem que vale a pena, sendo um dos momentos mais inspirados da sua narrativa.

Embora mais comedida na sua dimensão e abrangência, a história de Spider-Man: Miles Morales prima sobretudo pelo seu cariz pessoal, ou seja, pela forma como se foca em Miles, na sua relação com Harlem, o bairro para o qual se acabou de mudar, com a pressão de ser o único Spider-Man ao serviço e com a relação com os que lhe são mais próximos. Não há reviravoltas inesperadas, com algumas revelações a serem demasiado telegrafadas, mas é um arco narrativo competente que faz justiça à importância de Miles neste universo, ainda que fique a sensação de que havia mais para explorar.

No fundo, Spider-Man: Miles Morales é aquilo que se esperava que fosse à partida. Utilizando o jogo original como base para a esta aventura adicional, esta obra escolhida para acompanhar o lançamento da PlayStation 5 é uma oferta bastante interessante e competente, mas que não atinge os mesmos níveis de espetacularidade do seu antecessor ou do que se poderia esperar de uma sequela mais ambiciosa. Mesmo jogado numa PlayStation 4, é uma recomendação fácil para fãs do original.