Foi preciso esperar alguns anos, mas chegou. A Marvel tem finalmente uma experiência videojogável capaz de rivalizar com a série Batman Arkham da DC Comics. Auxiliada pelo talento da Insomniac Games e pelo financiamento da Sony, que garantiu assim a exclusividade do título para a sua PlayStation 4, a gigante das bandas desenhadas conseguiu, com o seu herói mais popular, entregar uma obra que consegue ser muito mais do que um mero jogo de super-heróis; consegue ser um jogo capaz de ficar na memória e de lutar pelos habituais galardões de final de ano.

Depois de muitos - demasiados! - anos forçado a ver o seu nome associado a obras licenciadas de qualidade duvidosa, Spider-Man soltou-se dessas amarras para se colocar à disposição de um estúdio com os recursos, o talento e o tempo necessário para criar algo que fugisse à mediocridade que havia caracterizado os seus mais recentes esforços. Por isso mesmo, Spider-Man na PlayStation 4 tinha a si associadas um nível de expectativas bastante mais elevado que os seus antecessores, ou seja, o potencial para algo especial era reconhecido por todos, mas isso também significava que um possível fracasso seria tão mais doloroso.

Felizmente, como já deixei claro no parágrafo de abertura deste texto, Spider-Man não desilude e é tudo aquilo que os fãs do universo da Marvel - e do herói mordido por uma aranha radioativa - poderiam querer e quiçá talvez mais. Divertido e entusiasmante, o jogo da Insomniac trata com carinho o material ao qual vai beber inspiração, proporcionando uma experiência que fará as delícias daqueles que aguardavam há muito por um verdadeiramente bom videojogo protagonizado pelo alter-ego de Peter Parker sem, contudo, alienar os que estão menos familiarizados com o universo das bandas desenhadas.

Esse era, porventura, um dos principais desafios que Spider-Man na PlayStation 4 tinha pela frente. Provada a sua qualidade, faltava saber se o título teria a mestria necessária para cativar aqueles que não são necessariamente seguidores das aventuras do Homem-Aranha ou do universo da Marvel. A resposta a essa dúvida é um inequívoco sim, uma vez que estamos perante uma obra que não descura qualquer um dos seus principais elementos, seja o seu combate, a sua narrativa, as suas personagens, o seu mundo aberto, a diversidade e riqueza de conteúdo ou, como não poderia deixar de ser, a movimentação aérea pelos céus de Nova Iorque.

Já tive oportunidade de escrever sobre a exploração da cidade que nunca dorme em Spider-Man - texto que podem ler aqui -, mas não custa nada repetir que é na movimentação veloz e fluída do herói que reside um dos elementos fulcrais para o sucesso da obra. Balançando por entre os inúmeros arranha-céus que compõem o horizonte de Nova Iorque, ou correndo e saltando pelas fachadas laterais e telhados dos edifícios, a forma como o jogo permite a transição entre os diferentes meios de locomoção sem nunca se sentir uma perda de velocidade é verdadeiramente impressionante.

Também notável é a qualidade e diversidade das animações do protagonista durante estes momentos, transformando-o, com sucesso, num autêntico acrobata. Isso é igualmente notório nos muitos confrontos que terão com as diferentes fações de inimigos que espalharão o terror pela cidade ao longo da aventura. Tirando claramente notas do aclamado sistema de combate da série Batman: Arkham, Spider-Man tem na sua capacidade para realizar combinações de ataques no ar uma das principais distinções para com os títulos da Rocksteady.

Talvez não seja tão refinado como o de Batman, mas oferece sem dúvida um espetáculo visual mais interessante, visto que existem inúmeros gadgets para desbloquear, uma árvore de habilidades para ser devidamente explorada e ainda fatos alternativos que conferem diferentes características momentâneas ao herói. O combate de Spider-Man satisfaz pela forma como nos oferece a possibilidade de criar o nosso próprio estilo de combate, dentro do vasto arsenal que é colocado à disposição. A existência de diferentes tipos de inimigos ajuda também a que a repetição não se instale tão rápido.

Os inimigos com armas de fogo, por exemplo, obrigam-nos a manter a personagem em constante movimento, enquanto inimigos com escudos requerem as habilidades de acrobata de Peter para serem apanhados desprevenidos. Diferentes variantes implicam diferentes estratégias, contudo, a possibilidade de cobrir um inimigo de teias ou de arremessar objetos do cenário está sempre disponível para vos tirar de situações mais apertadas. As opções são tantas que é bastante provável que após descobrirem as táticas que resultam melhor para vocês se acabem por esquecer de utilizar uma boa parte delas.

Ainda assim, não há como negar que são as atividades secundárias assentes no combate que se tornam mais rapidamente repetitivas e cansativas. Mesmo com o incentivo de que todas as atividades secundárias vos dão os Tokens necessários para a aquisição dos diferentes fatos disponíveis e dos gadgets (e as suas melhorias), os Crimes que vão combater pela cidade e as Bases que terão de infiltrar acabam por perder algum interesse à medida que as horas se vão acumulando, um problema que não se sente quando falamos da recolha de Mochilas que nos dão pedaços de informação sobre a história ou durante a captura de fotografias dos locais mais emblemáticos da cidade.

O problema não é, claramente, a qualidade do combate, mas sim a sua sobre-exposição. Um dos aspetos mais desapontantes de Spider-Man é a sua escassa utilização do combate furtivo. À exceção de alguns segmentos das missões da narrativa, praticamente todos os objetivos do jogo obrigam-vos a enveredar pelo combate aberto a determinada altura. As Bases são provavelmente o exemplo mais óbvio disto, uma vez que podem começar por eliminar inimigos de forma furtiva, mas acabarão sempre forçados por ter de combater os inimigos de forma mais tradicional. É uma pena que assim seja, já que o título nos oferece claramente ferramentas para que este tipo de abordagem fosse mais frequente.

Se por outro lado, estavam preocupados com uma utilização excessiva de Quick Time Events nos momentos de maior espetacularidade da narrativa, isto é, nos confrontos contra os vários super-vilões que terão oportunidade de enfrentar, então podem ficar descansados pois a sua utilização é irrisória. Na verdade, penso que são apenas utilizados por duas vezes em toda a aventura, se a memória não me falha, pelo que fica a dúvida se havia mais momentos do género que foram posteriormente transformados em cinemáticas tradicionais após o “feedback” dos jogadores.

Posto isto, é tempo de destacar convenientemente uma das melhores, e talvez mais surpreendente, componente da obra: a qualidade da narrativa. Spider-Man é uma experiência praticamente imaculada neste departamento, especialmente se tivermos em conta a quantidade de fios narrativos com que joga em simultâneo. A decisão de nos colocar no controlo de um Peter Parker já com vários anos de Homem-Aranha no currículo e em plena vida adulta foi claramente uma opção acertada e evita que sejamos expostos a mais um recontar da história de origens do herói.

Assim sendo, o título apresenta-nos uma história recheada de relações cujo início precede os eventos aqui retratados e não perde claramente impacto por causa disso. Graças a uma excelente caracterização das personagens, suportada por um muito bom trabalho de vocalização, a Insomniac consegue entregar uma aventura extremamente humana num mundo populado por super-heróis e super-vilões. A forma como a relação entre Peter e Mary Jane é explorada é um exemplo perfeito da qualidade da escrita e do respeito que existe pelas personagens.

Sim, é certo que Martin Li, bem antes da transformação em Mr. Negative, já dá demasiado nas vistas em relação ao seu papel na história e também é verdade que a maioria dos vilões não tem direito a grande tempo de antena, o que os impede de serem mais do que meros antagonistas sem grande substância, no entanto, é preciso perceber que apesar das suas presenças, esta não é a sua história. Esta é uma história em que Peter Parker é tão ou mais importante que Spider-Man, em que as relações do jovem adulto com Mary Jane, Miles Morales e a Tia May, entre outros, são tão importantes como os planos maquiavélicos dos vilões.

Como referi, a narrativa de Spider-Man possui várias linhas narrativas que acabam por se tocar em inúmeros momentos, sendo que todas as personagens envolvidas nas mesmas brilham bem alto. Esta aventura merece igualmente aplausos pela forma como encontra o equilíbrio ideal entre o tom mais leve, jovial e humorístico do seu herói e os momentos mais poderosos, pesados e emocionais que conferem um impacto superior aos eventos aqui mostrados. E diga-se que a Insomniac não teve claramente problemas em surpreender os jogadores com a violência apresentada, não se escondendo no momento de mostrar as consequências dos atos cometidos. Mais do que reviravoltas inesperadas - que raramente o são -, é a forma como elas são executadas que mais impressiona.

Por fim, falta apenas destacar o departamento técnico da obra e não será, certamente, preciso que seja eu a revelar-vos que Spider-Man é um portento tecnológico. Graficamente poderoso, a fiel representação de Nova Iorque é obviamente o elemento que salta mais facilmente à vista. Seja a diferença da cidade durante o dia e durante a noite, os diferentes efeitos climatéricos, os jogos de luz e sombra ou até o peculiar pormenor de ser possível ver o interior de alguns apartamentos pelas janelas dos edifícios, tudo isto serve para salientar a apresentação notável da obra.

A performance também não fica atrás com a framerate a manter-se estável durante as mais de 30 horas que passei com a obra a correr numa PlayStation 4 original. Os bugs encontrados foram também mínimos e apenas por uma vez o jogo crashou ao ponto de me enviar para o menu da consola. A banda sonora merece igualmente o seu destaque acompanhando adequadamente os ritmos da aventura e adaptando-se às mudanças de tom provocadas por alguns momentos narrativos. Não será a mais épica das bandas sonoras, mas cumpre a sua função de forma mais do que competente.

Spider-Man é, para alegria dos que há muito esperavam por ele, um jogo da mais alta qualidade, o que é basicamente o mesmo que dizer que é indubitavelmente uma das melhores obras do ano corrente. Com um mundo aberto interessante e satisfatório de se explorar, uma narrativa e personagens de alto calibre e uma jogabilidade que se mantém fresca durante longas horas de jogo, o título da Insomniac é tudo o que pretendia ser, que os fãs queriam que fosse e que tinha de ser para se firmar como um dos melhores lançamentos da produtora e o melhor videojogo do catálogo da Marvel.