Alguns títulos brilham de uma forma em que se vê o somatório das suas partes. Parece que todas engrenagens encaixam na perfeição para rodarem no sentido correto quando se experimenta a obra. Na verdade, é a harmonia que os produtores procuram, dando um equilíbrio entre todos os elementos do jogo, para que no final do desenvolvimento, e quando for finalmente publicada, a obra seja o mais aprazível possível. Infelizmente, a Infuse Studio não encontrou a harmonia que procurava para a sua obra de estreia, Spirit of the North.

Os visuais da versão Nintendo Switch nem sequer são suficientemente bons para nos apelar a comprar o jogo ou, pelo menos, saber o que é este título. E mesmo que o grafismo fosse deslumbrante, o jogo continuaria a cair por terra com o resto dos seus elementos. Primeiro, Spirit of the North parece querer dar os mesmos passos de Journey, clássico indie da PlayStation 3, mas acaba por se tornar um jogo de plataformas com puzzles banal. Depois, a jogabilidade romba não nos convida a permanecer na experiência, de tantos que são os saltos falhados a controlar uma raposa.

Spirit of the North coloca-nos na pele de uma raposa vermelha que encontra o seu espírito animal, que é a guardiã da aurora boreal - o jogo tem como base a cultura popular nórdica. A narrativa é demasiado vaga, apesar de se poder reunir os fragmentos que vemos na narrativa ambiental, há várias pinturas rupestres que contam a história do jogo. Porém, as pinturas, toda a simbologia hieroglífica e os acontecimentos assistidos com a "raposa-espírito" são apresentados para serem sujeitos a uma interpretação muito aberta.

Visualmente variado e com níveis com um design interessante, vê-se claramente que o apelo de Spirit of the North passa por este departamento, contudo, nas outras plataformas. Na Switch o jogo parece ter sido desenvolvido para a PlayStation 2, com texturas más e formas rombas do ambiente - há uma caverna de gelo que é um bom exemplo do mau grafismo. É pena que nem todas as produtoras possam ter um apoio externo de empresas como a Panic Button.

O sexto capítulo é notavelmente escuro, tornando-se complicado jogar. A solução passou, obviamente, por colocar a claridade da consola perto do máximo. Por muito que o jogo queira subinhar a sensação de exploração, obrigando-nos a passar os níveis a pente fino, o resultado falhou completamente a sua premissa. Em vez de ficarmos com uma sensação de aventura memorável, ficamos confusos, sem termos a mínima ideia para onde ir e numa pesada penumbra. Além do grafismo, é a jogabilidade que fica claramente debilitada.

Em termos de jogabilidade, o jogo começa sem nos dizer absolutamente nada sobre o que devemos ou não fazer e evolui para um jogo de plataformas com puzzles. A raposa ganha novas habilidades, para fazer com que o avançar pela aventura não seja tão penoso e para variar a forma como se podem resolver puzzles. Os níveis têm flores azuis que dão uma espécie de energia à raposa, porém, a única forma de extrair essa energia é fazer com a raposa ladre a estas plantas. É algo que se torna rapidamente aborrecido, levando-nos a desligar o som na maioria das vezes de tão irritante que é ouvir esse som vezes sem conta.

A energia é utilizada de várias formas para resolver os quebra-cabeça do jogo. Depois de obter esta energia azul, temos de nos dirigir a várias lápides e transferirmos a nossa energia para estas rochas decoradas para, de seguida, nos abrirem portas à continuidade da nossa aventura. Esta energia azul também pode ser utilizada para eliminar uma vegetação vermelha que cresce onde não devia e que existe para bloquear o nosso caminho. Além disso, é uma energia especial que também serve para dar um impulso na velocidade, assim como para realizar uma projeção no plano astral para chegar a locais anteriormente inalcançáveis.

Para o bem e para o mal do jogo, sem grandes formas de sabermos onde nos dirigirmos para avançar, temos de adivinhar para onde ir constantemente. Infelizmente, Spirit of the North não oferece muita claridade naquilo que devemos fazer ou não, por isso não foram raras as vezes em que embati em paredes invisíveis, visto que devo ter ido mais longe do que a produtora queria. Foi difícil saber se me faltava alguma habilidade à qual ainda não consegui aceder, ou se foi a minha falta de habilidade em me deslocar pelo cenário que provocou o bloqueio.

Os níveis de Spirit of the North são confusos, sente-se que houve uma clara falta de direção por quem desenhou os cenários. Além da confusão, a raposa não é propriamente rápida a deslocar-se por locais tão vastos como este que foi idealizado pela Infuse Studio. Assim, jogar parece uma tarefa árdua, visto que o jogo não transmite sentimentos positivos à experiência que nos foi entregue. A lentidão da raposa, aliada aos controlos rombos, que proporcionam uma notável quantidade de saltos falhados, só potencializa a sensação de aborrecimento.

Visualmente, vê-se o que Spirit of the North pretende ser, mas falta-lhe emoção na narrativa que entrega, no desafio nos puzzles e na claridade na mensagem que quer passar. Uma jornada que se quer fazer passar por uma aventura emocionalmente pesada, não tem sequer metade da emoção que Journey consegue provocar a quem joga. Spirit of the North precisava de ser harmonioso entre todos os elementos que compõem a integralidade da obra. Infelizmente, não consegue atingir o potencial que tem.