A série Splinter Cell evoluiu imenso desde que se estreou na Xbox, a entrada da Microsoft na indústria dos videojogos. Quer se considere esta evolução um crescimento positivo ou uma fuga às origens da mesma, não existe como negar que a série protagonizada por Sam Fisher está bastante diferente do que foi no passado. Conviction, o título que marcou a estreia da série na atual geração de consolas, foi bem recebido pela crítica, mas os fãs dedicados mostraram por diversas vezes o seu desagrado com o seu maior foco na ação, que aproximava este jogo mais do estilo Atirador na Terceira Pessoa do que da Ação Furtiva. Com Blacklist, produzido pela Ubisoft Toronto, a produtora prometia oferecer uma experiência de qualidade capaz de agradar a todos os jogadores independentemente do seu estilo de jogo ou preferências.

Uma das questões que mais celeuma provocou durante o período que antecedeu o seu lançamento foi a nova voz de Sam Fisher. Michael Ironside tem uma das grandes vozes da indústria e representava o protagonista da série desde o seu início. Contudo, em Blacklist foi substituído por Eric Johnson, ator que não faz um mau trabalho em trazer à vida a icónica personagem, mas talvez por ser tão diferente da voz de Ironside é impossível não sentir uma pequena estranheza quando iniciarem a vossa jornada em Blacklist, sobretudo se jogaram todas as entradas anteriores de Splinter Cell, uma vez que Johnson não consegue ter o poder que era transmitido com a anterior voz e que tornava Fisher ainda mais temível.

A nova entrada da série coloca-nos em rota de colisão com uma organização terrorista, os "Engenheiros", que depois de atacarem a base da Força Aérea em Guam, na qual se encontravam Sam Fisher e o seu velho amigo Vic, divulgam um vídeo com a promessa de que os próximos atentados serão em pleno solo americano. Na sua essência, Blacklist é a lista de alvos americanos que serão atacados pelos "Engenheiros" com um intervalo de sete dias entre cada um dos atentados. Como não poderia deixar de ser, Fisher é a grande arma da Presidente dos Estados Unidos contra os terroristas que nesta missão se fará acompanhar por Grim, responsável pela análise de informação que já havia marcado presença em títulos anteriores, Briggs, agente da Central Intelligence Agency, e Charlie, amigo de Vic e responsável pelo departamento técnico das missões, formando assim o esquadrão Fourth Echelon.

Em termos gerais, o arco narrativo está longe de ser algo de muito espetacular ou diferente daquilo que já foi feito em tantos outros títulos de géneros semelhantes, mas faz o suficiente para manter o jogador interessado em descobrir as verdadeiras motivações dos terroristas, algo que nunca chegamos bem a desvendar, e em evitar a morte de milhares de inocentes durante os ataques. As relações entre os membros da equipa são também elas pouco exploradas, embora as personagens sejam interessantes e exista até a possibilidade de conversar com elas entre missões à la Mass Effect - mas sem as opções de diálogo. De salientar ainda que a campanha não é muito longa, sendo que precisei apenas de cerca de onze horas para a concluir na dificuldade Realista. Ainda assim, como será perceptível mais à frente, existem várias razões para a jogarem mais do que uma vez.

O nosso centro de operações está localizado num poderoso avião Paladin e será através dele que teremos acesso a tudo o que o jogo tem para nos oferecer. Personalizar o nosso equipamento, participar em missões propostas pelos colegas de equipa a solo ou em modo cooperativo e até mesmo o multijogador Spies vs Mercs. O próprio avião pode também ele ser melhorado para, por exemplo, desbloquearmos novos equipamentos ou permitir uma recuperação mais rápida do protagonista quando se encontra ferido. Antes de cada missão somos informados sobre todos os pontos estratégicos e objetivos da mesma pelos três membros da equipa, cada um deles cobrindo a sua área de especialização.

A principal razão que torna Blacklist um título capaz de agradar a um vasto leque de jogadores é a existência de um sistema de classificação por três estilos: Fantasma, Pantera e Assalto. O estilo Fantasma foca-se sobretudo na ação furtiva com os jogadores a serem recompensados por passarem por inimigos sem que estes deem conta da sua presença e por os deixarem inconscientes sem alertarem ninguém. No extremo oposto a este estilo está Assalto, o método de ação perfeito para os jogadores que quiserem matar todos os inimigos que lhes aparecerem pela frente. Já Pantera é uma simbiose entre os dois estilos anteriores que premeia aqueles que matarem os inimigos, mas que o façam de uma forma silenciosa. Todas estas possibilidades permitem concluir que Sam Fisher está mais brutal e poderoso que nunca.

Mas todas estas diferentes possibilidades e estilos de abordagem às missões não serviriam de nada se os níveis não fossem construídos de uma forma capaz de nos fazer avaliar tudo aquilo que temos à disposição no cenário. E é aqui mesmo que Splinter Cell: Blacklist brilha como poucos. As possibilidades são imensas, existindo dezenas de caminhos escondidos espalhados pelas diferentes missões que não só fazem os jogadores testar várias estratégias para chegarem a um determinado ponto, como incentivam a própria exploração do cenário mais que uma vez para percebermos melhor aquilo que poderíamos ter feito de diferente. Todos os níveis estão de tal forma bem construídos que até é possível detetar caminhos alternativos enquanto os jogam pela primeira vez. A variedade de maneiras de abordar as missões é também assegurada pelo número gigantesco de engenhocas que temos a disposição. Estas ferramentas são adquiridas através do dinheiro que angariamos ao longo dos diferentes modos de jogo, sendo que a sua utilização deve ser pensada consoante as nossas estratégias. A variedade de equipamentos disponíveis é tanta que pode por vezes ser difícil decidir o que levar em cada missão, algo que também pode ser dito sobre as melhorias das mesmas, mas não serão precisas muitas horas até que cada jogador tenha as engenhocas preferidas bem delineadas.

Sendo Blacklist uma espécie de sequela de Splinter Cell: Conviction, não é de admirar que a jogabilidade do primeiro possua vários pontos de ligação com o segundo. Tal como acontecia em Conviction, existem vários pontos das missões em que surgem mensagens nas paredes que nos relembram o objetivo seguinte da mesma, impedindo que o jogador se sinta perdido no cenário. O sistema de cobertura continua a funcionar na perfeição com as transições entre diferentes objetos a serem feitas de forma rápida e eficaz. Para além disso, também o tão criticado "Marca e Executa" regressa da última entrada da série com a novidade de que agora pode ser utilizado em movimento. Ainda assim, esta funcionalidade é totalmente opcional, sendo possível concluir toda a campanha sem a utilizar uma única vez tal como eu acabei por fazer. O único grande problema da jogabilidade é mesmo a resposta deficiente do jogo nos momentos em que surge um botão interação, obrigando muitas vezes o jogador a ajustar a sua posição para ser bem-sucedido. De salientar também o regresso do assobio, e não só, para atrair inimigos à nossa posição e da possibilidade de esconder corpos, ausentes em Conviction.

Para além das missões da campanha, Blacklist conta também com várias missões de equipa que são propostas pelos nossos companheiros de viagem. Cada uma das quatro personagens, incluindo Kobin que teve um papel importante na narrativa de Conviction, tem quatro missões para nós com um objetivo específico associado à personagem a que pertence. As missões de Grim obrigam-nos a passar uma área sem qualquer tipo de pontos de controlo sem sermos detetados uma única vez, as missões de Charlie forçam-nos a enfrentar ondas atrás de ondas de inimigos, tentando capturar comandantes importantes dos "Engenheiros", enquanto as missões de Kobin têm como único objetivo matar todos os inimigos com a ressalva que se forem detetados reforços chegarão. Por último, as missões de Briggs primam por terem sido criadas especificamente para serem jogadas em modo cooperativo. E este acaba por ser o grande apelo destas missões secundárias, uma vez que, quer seja online ou em ecrã dividido, jogar com um parceiro é sempre divertido e, não só permite dividir esforços, como cria um estado de dependência entre os jogadores para concluírem a missão, pois se um dos jogadores ficar gravemente ferido, o outro terá de o reavivar e se um dos jogadores morrer, a missão é imediatamente reiniciada.

Uma das grandes novidades da nova entrada da série é o regresso do tão aclamado modo multijogador Spies vs Mercs. Para os jogadores que não estão familiarizados com o mesmo, apenas precisam de saber que existem duas equipas totalmente diferentes. Os Spies jogam na terceira pessoa e são ágeis e rápidos e conseguem utilizar os seus óculos especiais para detetar a presença dos membros da equipa adversária que assumem o controlo dos Mercs. Estes colocam o jogador na perspetiva de primeira pessoa e fazem das suas armas poderosas as ferramentas para eliminarem os esquivos Spies. Podendo ser jogado 2 contra 2 ou 4 contra 4, Spies vs Mercs é sem dúvida um multijogador sem igual e que conseguirá com certeza estabelecer uma legião de jogadores que o manterão vivo durante muito tempo. O modo clássico incumbe os Spies com a missão de piratear três dispositivos eletrónicos, enquanto os Mercs tentam defendê-los. Pode parecer simples, mas está muito longe disso, uma vez que somos forçados a jogar dos dois lados da barricada. Se como Spies nos sentimos vulneráveis em combate aberto, mas possuímos recursos para apanhar os inimigos desprevenidos, como Mercs sentimo-nos completamente às escuras constantemente a olhar por trás do ombro para não sermos surpreendidos, embora tenhamos clara vantagem no confronto direto. O multijogador conta também com um modo extração, que obriga os Mercs a roubarem e Spies a protegerem, Deathmatch por equipas mistas e Uplink Control, no qual teremos de controlar postos de transmissão de dados até ao final da contagem também com equipas mistas. No entanto, é de lamentar que, excetuando o modo clássico, todos os outros modos façam pouco para ajudar os recém-chegados a adaptarem-se, fazendo-os enfrentar jogadores mais poderosos e treinados.

No que diz respeito ao grafismo, Splinter Cell: Blacklist é um jogo extremamente bonito e apelativo, revelando uma melhoria considerável em relação à última entrada da série. A variedade de ambientes é bastante apreciável, levando os jogadores desde as cidades do médio oriente até refinarias de petróleo em chamas nos Estados Unidos, todos com a sua própria identidade e suficientemente credíveis para dar à ação uma maior espectacularidade e realismo. A atenção aos mais ínfimos detalhes é também de louvar com ruas criteriosamente compostas e preenchidas por elementos que pouco ou nada trazem à jogabilidade, mas que contribuem imenso para criar uma atmosfera palpável e intensa. Ainda assim, as expressões e movimentos faciais das personagens acabam por deixar muito a desejar, com as personagens a parecerem quase robôs quando abrem a boca.

Relativamente à sonoplastia, Blacklist faz um trabalho muito bom em gerir o ritmo da música consoante o que acontece no ecrã, sendo muito ligeira quando estamos a tentar passar à socapa pelos inimigos e bastante acelerada assim que somos detetados. Destaque também para o excelente trabalho realizado pelos atores que deram voz às personagens, sobretudo a do principal vilão do título, Majid Sadiq, interpretado pelo conhecido ator Carlo Rota, que deu também a sua imagem à personagem. O título conta também com vozes em brasileiro que estão muito longe da qualidade apresentada pelas vozes originais.

Splinter Cell: Blacklist é um jogo de excelente qualidade e que cumpre com distinção o seu principal objetivo. Com uma jogabilidade capaz de agradar a gregos e a troianos, a nova entrada da série de Sam Fisher é um título que deixará os fãs de há muitos anos confiantes no seu futuro e que oferece novamente a possibilidade de uma abordagem mais implacável para todos os que preferirem o estilo de Conviction. Com apenas alguns problemas menores a minarem uma experiência que oferece várias horas de jogabilidade e uma diversidade de fazer inveja a muitos outros títulos, Blacklist é um jogo que é impossível não recomendar a qualquer jogador que goste de ação, seja esta furtiva ou não.