Quando há algumas semanas tive oportunidade de jogar e escrever sobre as suas horas iniciais, referi que “State of Mind apresenta-nos uma narrativa da qual queremos ver mais” e que “os primeiros sinais da obra da Daedalic Entertainment são claramente positivos”. Ou seja, estava claramente otimista em relação à qualidade da experiência que o título em questão pretendia oferecer, especialmente ao nível da entrega de uma narrativa capaz de se distinguir das demais num género já tão espremido como o da ficção científica.

Agora que os créditos finais já rolaram pelo ecrã, State of Mind deixou-me com um sabor amargo na boca. Não é uma desilusão completa, longe disso, mas fica bastante aquém no momento de catapultar a sua história e as suas personagens para o estatuto de algo memorável. O potencial para algo mais estava lá, contudo, o início confuso que, como já havia referido na antevisão, demora demasiado a dar-nos um real entendimento do seu arco narrativo aliado a uma acentuada perda de fulgor nas horas finais fazem com que a obra não consiga preservar o nosso interesse de uma forma constante.

Esse é na verdade o principal problema do jogo, isto é, a sua incapacidade para concretizar devidamente as questões que as temáticas da sua narrativa vão levantando. É precisamente por isso que os últimos momentos da obra acabam por deixar a desejar. State of Mind deixa-nos com a sensação de que é quando as suas linhas narrativas se tornam verdadeiramente cativantes que este decide começar a dirigir-se a alta velocidade para uma conclusão apressada, recheada de reviravoltas mal explicadas e de momentos de tomadas de decisão que simplesmente não conseguem ter o impacto pretendido.

Numa distopia futurística onde as acentuadas diferenças entre as classes sociais e a poluição descontrolada contrastam com o notável progresso tecnológico, assumimos o controlo de Richard Nolan, um premiado jornalista que sofreu um acidente de viação e que tem dificuldades em se recordar dos eventos que tiveram lugar antes e após o sinistro. Uma das mais fortes vozes contra o progresso desmesurado da tecnologia e a forma como esta vai progressivamente alterando o que significa ser humano e a sua própria importância no mundo, Nolan dá por si envolvido numa gigantesca conspiração ao mesmo tempo que procura reencontrar a sua família desaparecida.

É neste ponto que surge uma das mais notórias deficiências do título. A recuperação da família de Nolan é, para todos os efeitos, a linha narrativa principal de State of Mind, no entanto, o jogo faz um péssimo trabalho no momento de dar ao filho e à esposa de Nolan a dimensão e a profundidade de que necessitariam para que o jogador ficasse mais investido na aventura. Também por aqui se explica o porquê das horas finais da obra não serem tão interessantes como o seu miolo, uma vez que estas são dedicadas quase em exclusivo às ações do protagonista para recuperar os seus entes queridos.

Embora seja o protagonista, Nolan não é a única personagem jogável. São seis as personagens que estarão ao longo do aventura sob o vosso controlo, sendo que Adam é aquele com o qual passarão mais tempo. Também vítima de um acidente de viação, o mundo de Adam é o completo oposto da realidade habitada por Nolan. O branco celestial e pacífico de City5 contrasta de forma óbvia com o negro tenso e opressivo de Berlim.

Como descobrirão nas horas iniciais do título, as razões para as diferenças prendem-se com o facto destas duas personagens estarem em dois mundos distintos. Nolan está no mundo real, no mundo dizimado pela ambição humana, enquanto Adam está num mundo virtual, num mundo resultante dessa mesma ambição humana que procura ultrapassar a mortalidade da condição humana fazendo o upload de mentes para esse mundo virtual. Será através da cooperação entre estas duas personagens que Nolan tentará encontrar a sua família.

Desvendar lentamente a conspiração em redor do mundo virtual de Adam, bem como as ligações entre ele e Nolan proporciona alguns dos momentos mais interessantes de State of Mind, mas é quando o jogo nos dá a oportunidade de explorar, juntamente com Adam, diferentes memórias associadas à vida do jornalista que o título brilha mais alto. É nesses momentos que temos oportunidade de conhecer melhor as diferentes personagens que compõe a vida do protagonista. 

Perceber como Nolan conheceu e desenvolveu uma relação amorosa com a sua futura mulher dá-nos uma nova perspetiva sobre as personagens, sendo apenas de lamentar que estas sequências não estejam presentes em maior número. Tanto o arco narrativo principal, como as próprias personagens e subsequentes linhas narrativas secundárias beneficiariam imenso com a exploração de mais memórias. 

Por exemplo, o jogo permite-nos compreender como se iniciou a relação entre Nolan e a sua mulher, mas não nos oferece grandes informações sobre o que levou à deteriorização da mesma. Já o seu filho, personagem que se revela fulcral nos momentos finais da campanha, não tem qualquer oportunidade para se apresentar devidamente ao jogador. Com uma escrita que revela qualidade, é uma pena que a produtora não tenha retirado maior proveito dos melhores elementos da experiência.

Sendo este um título de aventura, a jogabilidade de State of Mind assenta acima de tudo na resolução de pequenos puzzles que colocam entraves à progressão. São, de uma forma geral, quebra-cabeças bastante simples, contudo, é também aqui que se encontra um dos culpados para as horas finais menos bem conseguidas do jogo. Penso que não estarei a exagerar quando afirmo que bem mais de 50% de todos os puzzles incluídos na aventura encontram-se nas últimas três horas da mesma. Podem ser simples, mas quando começam a surgir em catadupa torna-se impossível não provocarem uma quebra no ritmo da narrativo.

No departamento visual, o título da Daedalic Entertainment destaca-se pelo contraste entre os cenários extremamente detalhados, ricos em detalhe e com efeitos visuais notáveis - especialmente no mundo real de Nolan -, e a modelagem bastante poligonal das suas personagens. Continuo a não considerar uma escolha propriamente apelativa, mas percebe-se a intenção da produtora em representar o ser humano como algo obsoleto ao lado dos impressionantes feitos tecnológicos. A banda sonora não se destaca tanto, mas consegue adensar a tensão da investigação de Nolan e a tranquilidade artificial da City5.

State of Mind é uma interessante proposta dentro do género da ficção científica, mas não mais que isso. Não é a experiência memorável que poderia ter sido, mas entrega uma aventura capaz de manter o nosso interesse até ao seu final, ainda que as horas finais sejam claramente mais desinspiradas do que aquilo que chegou antes. Acima de tudo, State of Mind vale pela distopia futurística que nos apresenta, pela forma como a apresenta visualmente e por uma trama conspiratória que, mesmo não sendo resolvida da melhor forma, se revela cativante.