Não demora muito para que Stay se revele um jogo complicado de digerir. As temáticas abordadas pela obra da Appnormals Team aparecem no ecrã ao mesmo tempo que o pedido para colocar os auscultadores. A depressão e o isolamento, a privação da socialização, são todos temas que Stay aborda e usa para fazer o jogador sentir.
Sente-se que é uma obra que tenta encontrar assim a sua voz. O protagonista é Quinn e o jogador interage com ele através de um programa de conversas online. A premissa de Stay é que estamos a interagir em tempo real, mas Quinn não está no conforto da sua casa. A personagem foi raptada e não faz ideia de onde está, não sabe o que o rodeia e não conhece o jogador. Em Stay, Quinn chega a desconfiar de quem ele próprio é.
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O jogador também aprende depressa que Quinn depende de si. O seu estado confinado e desorientado, a sua fragilidade terá que ser guiada por quem segura o comando ou está ao teclado. Esta via de comunicação arranca a aventura com o protagonista em frente ao ecrã do computador, passando para o ecrã de um telemóvel com o desenrolar da aventura. Stay dá ao jogador a hipótese de responder escolhendo de entre várias opções disponíveis, guiando assim a personagem e influenciando a sua personalidade, aquilo que sente por nós.
Uma grande porção da obra da Appnormals Team decorre com o jogador nesta sala online, numa emulação de tempos pretéritos, onde graças à escrita e à troca de mensagens com Quinn, vamos percebendo aquilo que a obra pretende exatamente de nós. Durante estes trechos, torna-se evidente que o jogo brilha mais quando está a abordar os temas maduros. As perdas e a solidão incomodam, claro, mas importam pelo que fazem sentir.
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Stay não se escusa a mergulhar e a ir mais fundo, a explorar as várias ramificações do aspecto emocional torturado, o que acaba por resultar num espelho para o jogador. O molde sobre o qual Quinn foi trabalhado é profundo, cabendo lá as várias camadas de uma nuance. Assim, o jogador, graças à escrita pejada de referências e de inteligência, acaba por perdoar a falta de exigência da jogabilidade. Perdoa até perceber que a obra demora horas e que os alicerces, ainda que excelentes, não seguram um edifício de carácter que se prolonga em demasia.
Esta vontade de continuar a jogar e a descobrir a narrativa de Stay choca com a inclusão de alguns puzzles fora de ritmo e índole. Não são enigmas impossíveis de serem ultrapassados, com o maior problema a ser a forma como a jogabilidade assenta na já mencionada troca de mensagens, mas também em puzzles que recorrem a fórmulas já executadas há muito tempo e por muitos outros jogos.
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É esta discrepância entre mecânicas que acaba por danificar o cômputo geral da obra. Há o descobrir de uma personagem com uma personalidade fascinante, mas há também puzzles esgotados. Isso não tira valor ao quão interessante é testemunhar o como a personalidade do protagonista está a reagir às nossas escolhas e não é menos interessante que Stay decorra em tempo real.
Na prática, há um implacável contador que nos mostra o tempo, tal como o nome da obra deixa antever, que ficamos com Quinn, mas também o tempo em que estivemos ausentes. Isto choca com o mover de peças, o contemplar as soluções cinzentas e, por exemplo, resolver um labirinto com um pavão. Não faz sentido ter uma obra com um significado tão profundo misturada com esta porção tão calcorreada.
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Tive oportunidade de jogar Stay na Xbox One e a verdade é que o esquema de controlos também não ajuda. O lado mais prático do mapeamento dos botões não foi executado em condições, com a experiência a não ser mais frustrante porque a jogabilidade não está dependente de grandes reflexos. Ainda assim, com o acumular das mais de duas dezenas de episódios, a frustração acaba por ser inegável.
Assim, Stay faz um trabalho de excelência em arrastar o jogador até às suas temáticas mais pesadas, exercendo o poder de uma escrita cuidada ao serviço desses temas maduros. Contudo, a quebra de ritmo patrocinado por puzzles cansados e fora de tom também é inegável. É pena que a estrutura principal não tenha capacidade para manter o arco narrativo intocável.
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No departamento técnico, tal como podem ver nas imagens que acompanham estas palavras, Stay apresenta-se com polígonos de baixa resolução e faz disso a sua imagem de marca. E a banda sonora é, de facto, melhor apreciada com auscultadores colocados, sendo um bom acompanhamento para os vários estados de alma de Quinn - e do jogador.
É excelente que os videojogos continuem a inserir estes temas nas suas propostas, tal como por exemplo Hellblade já o tinha feito, entre cada vez mais. Contudo, Stay propõe esse mergulho profundo, mas perde com a inclusão de puzzles sem grande profundidade. Mas será bastante interessante perceber se a Appnormals Team tem a capacidade para aprender com tudo isto e voltar com uma nova obra, uma obra que não tenha medo de ser profunda de uma ponta à outra.

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