Fugindo às listas compostas pelos grandes lançamentos na recta final de 2018, Storm Boy: The Game é uma proposta para um público infanto-juvenil, tendo sido claramente pensado para não oferecer complicações aos mais novos enquanto coloca todos os seus esforços em fazer passar a sua mensagem, especialmente aquela que nos mostra nos seus minutos finais.

A obra da Blowfish Studios é inspirada no livro que Colin Thiele publicou em 1964 e leva os jogadores até ao areal do sul australiano, fazendo-os vestir a pele de Storm Boy, um jovem herói que dedica a sua vida a resgatar pelicanos, além de comungar de uma existência da cidade; uma forma de existir que é instigada pelo pai; uma forma de demonstrar o amor paternal e o amor de uma criança à fauna que a rodeia.

O argumento de Storm Boy: The Game começa a ganhar o afunilamento necessário para passar a lição no seu final quando um dos pelicanos resgatados por Storm Boy ganha nome: Mr. Percival. Quase como uma fábula, este pelicano é mais do que uma ave, é um amigo e um companheiro de aventuras, acabando por se revelar a força motriz que faz o pequeno protagonista explorar as redondezas e até a quantificação do dinheiro, quando o pai lhe diz que um animal de estimação precisa de cuidados e que alguns desses cuidados têm um preço associado.

Essa lição acaba por ser o ponto mais alto do jogo, mostrando a todos independentemente da sua idade, o quão cruel o ser humano pode ser no momento de satisfazer o seu capricho, mas também que a mesma espécie é capaz de manter na memória quem a marca de uma forma tal que a remoção do que é palpável não danifica irreparavelmente o que ficará - tal como os amores vários, as suas memórias do que se fez em conjunto a inspirar o quotidiano.

No seu final, Storm Boy: The Game permite a quem joga ponderar os diferentes quadrantes da personalidade humana, ou seja, compreender que há o bom e o mau, mas mesmo quando o mau marca indelevelmente o que é bom, isso não quer dizer que esse lado desapareça, ou pelo menos, essa esperança é aquilo que a produtora quer transmitir, quer plantar nos jogadores mais novos. Infelizmente, não demorarão muito para chegarem à conclusão, aliás, vão precisar de menos de uma hora para terminar a aventura.

Fica a clara sensação que falta meio ao jogo, como se estivéssemos a jogar a adaptação de um capítulo e não de um livro inteiro. É uma pena, pois isto faz com que só haja tempo praticamente para os dois protagonistas, ficando quase por desenvolver as personagens satélite, o que se bem feito poderia colocar várias camadas adicionais a esta emoção. Assim, parece que ficou algo por mostrar da obra de Thiele.

Enquanto estamos a viajar por esses escassos minutos, o jogo convida-nos a participar em diversos minijogos, todos muito, mas mesmo muito simples. Atividades como desenhar na areia e ver as ondas a apagar as mensagens, ajudar marinheiros enquanto jogamos como Mr. Percival (o minijogo mais exigente para os mais novos graças à resistência oferecida pelo vento enquanto controlamos a ave), ou simplesmente desfrutar da liberdade de voar ou mergulhar para ver o fundo do mar, mostram apenas que é tudo muito direto e sem complexidade, apostando os trunfos no argumento e na já mencionada mensagem final.

O aspeto gráfico sublinha esta estadia que a Blowfish Studios quis tornar o mais prazerosa possível. A deslocação faz-se sobretudo na horizontal em cenários que se apresentam em duas dimensões falsas, ou seja, na prática há uma profundidade dada aos vários panos de fundo por onde se deslocam as personagens, tudo de forma a parecer saído de uma ilustração de um livro. Não esperem, porém, grande liberdade nos processos de exploração, pois Storm Boy: The Game tem sempre o jogador onde quer.

As cores usadas e a própria plasticidade empregue no título são apelativas, passando a sensação que chegamos a estas vidas isoladas no seu próprio mundo. A animação serve também para ir edificando a relação entre o protagonista e o pelicano, ficando apenas a desejar na forma como não permite uma maior interação fora dos minijogos mencionados. Na prática, parece que estamos mais próximos de sermos os ouvintes na leitura de um livro.

Não restam quaisquer dúvidas que Storm Boy: The Game é apontado a um público jovem, o que pode ajudar a explicar a decisão de colocar uma jogabilidade ligeira na obra. Infelizmente, isso não explica uma longevidade reduzidíssima e a falta de interação transversal a quase toda a obra. Do título da Blowfish Studios fica o sublinhar da explicação que a perda pode não ser fim, ajudando a compreender que às vezes o humano, mesmo quando magoado, pode com um bom exemplo da sua espécie afirmar-se perante o seu lado mau.