Desde a sua estreia na Netflix em 2016, Stranger Things tem sido um incontornável fenómeno da cultura popular, um hino à nostalgia por um tempo pretérito que uma parte significativa do seu público alvo não chegou a experienciar em primeira mão. Não é por isso surpresa que, depois de fazer de Dungeons & Dragons um elemento central da sua narrativa e de levar os jovens do seu elenco até aos salões de arcada munidos de Dragon’s Lair e outros clássicos, a plataforma de streaming tenha visto na série o potencial para uma adaptação aos videojogos.

O primeiro esforço nesse sentido foi dado com uma obra lançada de forma exclusiva nos dispositivos móveis, mas sem gerar grande celeuma em seu redor. Seguidamente houve o anúncio da parceria com a Telltale Games para uma aventura narrativa neste universo, projeto que acabou por não ver a luz do dia devido ao encerramento súbito do estúdio responsável pela aclamada série episódica The Walking Dead. Agora, e novamente pela mão da BonusXP, produtora responsável pelo lançamento nos dispositivos móveis, a recém-estreada terceira temporada é transformada num jogo de ação retro para todas as principais plataformas no mercado.

Como o próprio título indica, a obra é uma adaptação fiel dos eventos da nova temporada da série saída da mente dos irmãos Duffer, pelo que importa desde logo realçar que não é recomendável jogarem-no antes da assistirem aos episódios em questão. Dito isto, a qualidade do conteúdo televisivo não encontra, nem sequer chegar perto de o conseguir, equivalência na qualidade do conteúdo jogável. Stranger Things 3: The Game não é necessariamente mau, mas está longe de ser bom.

Acima de tudo, estamos perante um jogo que faz um trabalho sólido em transformar o material em que se baseia num videojogo inspirado por obras próximas da época em que a série tem lugar, embora não consiga fazer com que essa adaptação se traduza numa experiência memorável ou capaz de reter um interesse durante a totalidade da sua aventura. O mesmo é dizer que este é um título cuja estética e bases da jogabilidade transportam-nos com sucesso para uma era anterior da indústria, mas sem o brilhantismo ou imaginação para criar algo entusiasmante.

Isto deve-se em grande parte a um ciclo repetitivo de jogabilidade que alarga segmentos durante períodos excessivamente longos, ao ponto de se tornarem penosos, e que carece da variedade de processos necessária para evitar a queda na monotonia. E essa é mesmo a melhor forma de descrever Stranger Things 3: The Game: monótono. É estranho que uma obra com um número considerável de personagens jogáveis diferentes não seja capaz de aproveitar as características únicas de cada uma para oferecer momentos que quebrem a rotina numa obra que pode perfeitamente chegar às 8 horas de duração.

Falta entusiasmo aos processos de Stranger Things 3: The Game. Combater dezenas atrás de dezenas de ratos e russos malévolos não precisa de muito tempo para se tornar aborrecido, mesmo que possamos alternar a personagem que controlamos e utilizar diferentes armas e habilidades especiais. Por exemplo, Lucas está munido com a sua fisga e tem como habilidade especial o lançamento de bombas, enquanto Mike combate com um taco de Basebol e utiliza a habilidade “Taunt” para amedrontar os inimigos e atraí-los na sua direção. Por sua vez, Dustin utiliza o spray inseticida e o robot que explode perto de inimigos como armas.

Entre as personagens jogáveis estão ainda Eleven, Will, Joyce, Hopper, Steve, Nancy, Max e Jonathan, todos com armas - ou talvez seja melhor denominá-los de ataques - e habilidades distintas. Infelizmente, o jogo não sabe o que fazer com esta variedade e limita-se a oferecer mais do mesmo do princípio ao fim da aventura. Para além do combate sólido, mas que se torna rapidamente cansativo, há ainda puzzles que vão do acessível ao obtuso, um elemento de crafting que a jogabilidade não oferece qualquer incentivo para utilizar e missões secundárias que se limitam a alongar a duração da obra e pouco mais.

Não ajuda também que a narrativa seja apresentada de forma descartável, ainda que se perceba o porquê de tal acontecer. Apesar de melhorar um pouco com a partilha da aventura com um amigo em modo cooperativo, nem isso é suficiente para evitar que ambos acabem inevitavelmente aborrecidos. Os visuais retro altamente pixelizados dão um aspeto interessante e nostálgico à obra, enquanto a banda sonora utiliza o tema principal da série como base da sua atmosfera, ainda que a falta de variação da mesma acabe por lhe tirar muito do seu impacto no acompanhamento dos eventos no ecrã.

Sucintamente, Stranger Things 3: The Game é uma aborrecida e pouco interessante adaptação aos videojogos de uma série que, goste-se mais ou menos, é tudo menos isso. Simplista, repetitivo e pouco entusiasmante, o esforço da BonusXP colide de frente com a sua incapacidade para pontilhar a sua experiência com momentos únicos e memoráveis, momentos que rompam com uma sensação de rotina que se estabelece desde cedo e muito antes do final estar sequer perto.